Certos mitos e lendas sobre o processo de criação de um grande romance sempre mexeram com o imaginário e a curiosidade do ser humano. Um exemplo interessante é como a escritora Mary Shelley criou a sua obra-prima literária Frankenstein, cuja criatura mantém-se viva até hoje no imaginário coletivo. De acordo com as histórias, a famosa obra surgiu no episódio conhecido como “Verão assombrado de 1816”. Em um final de semana chuvoso, Mary juntamente com outros amigos – entre eles o poeta Lord Byron e Percy Shelley – passaram a noite desafiando uns aos outros para ver quem contava a história de terror mais assustadora. Tudo isso regado a muitas drogas, debates filosóficos, poesias e psicologia existencial. Nesta noite, Shelley bastante perturbada por um sonho (na realidade um pesadelo) escreveu o enredo em uma só tacada e o restante da história como sabemos entrou para os anais da história como um dos mais influentes romances góticos.

É a partir desta premissa que Gothic dirigido pelo finado Ken Russel (1927-2011) se apropria como base para desenvolver o seu enredo, utilizando elementos reais e outros fictícios. O final de semana original no filme é transformado em uma única noite, onde um grupo de amigos se reune na casa de campo do poeta Lord Byron (Gabriel Byrne) na Suíça que em razão dos seus comportamentos sexuais polêmicos da Inglaterra conservadora da época, encontra-se exilado no interior do país. Junto a ele, temos Mary (Natasha Richardson), o seu amante Percy Shelley (Julian Sands), o médico Polidori (Timothy Spall) – que na vida real foi responsável em escrever o conto “Vampiro” que influenciou um certo Bram Stoker na criação de uma figura de dentes pontiagudos – e Claire (Miriam Cyr), amante de Byron. A noite será marcada por perversões, horror e pesadelos surreais, onde a maioria dos personagens questionarão a sua própria sanidade.

Russel sempre foi visto pela indústria de cinema como iconoclasta, totalmente marginalizado na Hollywood da década de 70 e 80. Seus trabalhos são dotados de ousadias, repletos de camadas surreais, imagens fortes, teatralidade imponente e uma sexualidade desconcertante, mas que jamais esquecem o refinamento estético. Viagens Alucinantes (1980), Tommy (1975) e Mulheres Apaixonadas (1969) são todos interessantes visualmente. Por isso, este senhor “maluco” que nunca escondeu que adorava perturbar o público com suas obras, realizou durante sua carreira um cinema transgressor e pessoal, de forte teor barroco, agressivo na sua forma e que potencializa um cinema louco por excelência. Podemos dizer que da sua maneira, ele soube encenar a loucura no seu viés mais excêntrico quanto delirante. Gothic é sem dúvida o auge do cineasta neste quesito.

Ele utiliza a liberdade artística para relatar os acontecimentos daquele verão, misturando fatos reais com elementos sobrenaturais. Consegue captar com maestria, uma atmosfera perturbadora e de força visual enorme, carregada de simbolismos e metáforas visuais. A melhor definição para Gothic é a dele ser literalmente um verdadeiro pesadelo filmado, onde o onírico mais maluco que alguém já imaginou denota na sua essência um horror demoníaco, graças as suas imagens e estilo bucólico. Na verdade, tudo no filme assemelha-se a um conto gótico cujo exercício caminha para o suspense psicológico e surrealista que remete diretamente aos trabalhos de Jodorowsky e Lynch.

Não é toa que há várias passagens no filme que nos tomam de assalto pela sua concepção visual, uma delas é sequência que dramatiza o sonho de Mary. Nela, temos uma ótima referência a pintura clássica de John Fusili (batizada de Nightmare) construída através da iluminação de uma noite chuvosa repleta de relâmpagos. A pintura real por si só já é sombria por natureza, mas Russel a mostra no filme de modo macabro e aterrorizante. Outro momento estilo WTF é quando Percy faz uma viagem lisérgica já viciado nas drogas tomadas, e vê uma mulher espectral com os olhos no lugar de seus seios. São cenas como estas que dizem ao espectador que o próprio filme é mais do que assustador, ele é puramente atmosférico.

Outro ponto interessante é como o diretor desconstrói a sua narrativa: à medida que o filme flerta com o onírico, sua linearidade desaparece cada vez mais, restando a teatralidade rebuscada, onde o argumento se torna menos visível, abraçando um tom delirante e surreal. Não há muito espaço para organizar os acontecimentos e enredos, contudo, existem personagens de caracterizações fortes que nos mantém aterrorizados. O roteiro de Stephen Volk apresenta diversas críticas e divagações a elementos de crenças religiosas – um tema sempre recorrente na filmografia do diretor – e não deixa também de discutir a liberdade sexual, o moralismo e o tolhimento dos impulsos sexuais.

Em relação ao elenco, temos grandes atores em início de carreira. Gabriel Byrne oferece um Byron demoníaco, um poeta insano, histriônico e perverso, que é a própria materialização do Marquês de Sade. Podemos dizer que ele é o alter ego do diretor e a essência da loucura na linha narrativa do filme, pontuada pelo ator numa alegria insana que vai semeando a discórdia e o caos na história. Julian Sands continua o mesmo canastrão de sempre, mas sua atuação funciona para o overacting do personagem, enquanto Timothy Spall faz o seu Polidori o esquisitão entre os esquisitos, um homem torturado pelos seus desejos homossexuais reprimidos e o sentimento de inadequação, elementos que apontam para a sua loucura. Só que o destaque do elenco é a bela Natasha Richardson que infelizmente faleceu em um trágico acidente em 2009. Sua Mary é o elo de ligação com o público, o farol da sanidade no mundo de luxúria, o grande contraponto da loucura de Bryon.

Por fim, Gothic é uma grata surpresa, pois mistura suspense, drama e horror. Para os amantes de filmes góticos é um prato cheio, um ótimo aperitivo para conferir em uma madrugada solitária, chuvosa e sinistra. Um trabalho que consegue ser ao mesmo tempo fascinante e excêntrico. Tem seus problemas é claro – apresenta um histerismo acima da média, além de não aprofundar melhor o aspecto gótico daquele período. Só que é repleto de cenas memoráveis que remetem a uma atmosfera de pesadelo – Dario Argento com Suspiria (1977) é outro realizador que atingiu este aspecto com elegância –  e uma sequência final de 20 minutos que deixa desnorteado o espectador pela montagem dinâmica perfeita.

É um dos trabalhos mais modestos de Russel e que merece ser descoberto, até porque é difícil encontrar obras que apresentam sequências oníricas carregadas de erotização e filmadas por excelência como ocorre aqui. Não é um dos melhores dele, porém é um estranho de brilho próprio em razão da sua personalidade autoral cada vez mais rara de se encontrar nos dias atuais. No fundo, o verdadeiro Frankenstein de Shelley para o cineasta é confrontar o ser humano frente aos seus impulsos e desejos mais arcaicos, sem quaisquer valores morais ou sociais para impedi-los. É da fronteira entre a sanidade versus a loucura é que se encontra o nosso verdadeiro monstro emocional, isto é, a criatura que habita um corpo desejoso de prazeres inexoráveis e que abandona a própria a razão apenas para dar vazão as suas pulsões primárias.

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