Boa parte da mística do cinema reside na figura do diretor. Desde que a revista Cahiers du Cinéma, nos anos 1960, teorizou que os cineastas eram os verdadeiros artistas por trás dos filmes, o ofício cresceu a ponto de se tornar um culto à parte, maior, às vezes, do que os próprios filmes (basta pensar nas obras de Fellini e Kurosawa das décadas de 1980 e 90 – algumas muito boas, a maioria nem tanto, mas não importa: são filmes de Fellini e Kurosawa, os diretores).

Goste-se ou não desse poder atribuído aos cineastas, é inegável que muitos deles têm, sim, uma personalidade artística peculiar e marcante, que enriquece os filmes e os diferencia do cinema mais “genérico”, impessoal, da indústria. É a essas figuras, os auteurs, que é dedicado o livro de Laurent Tirard, Grande Diretores de Cinema (Ed. Nova Fronteira, 2002, 256 págs.). Leitura deliciosa, didática e profunda na medida, a obra é um prato cheio para cinéfilos e todos os interessados nesse processo misterioso que é a criação artística.

Grandes Diretores de Cinema, de Laurent TirardTrata-se de uma coletânea de entrevistas com diretores, vinte ao todo, que o autor conheceu trabalhando como repórter para revistas de cinema. Todos, sem exceção, são nomes veneráveis do ramo, de diversas origens e estilos: há desde os clássicos e americaníssimos Martin Scorsese e Woody Allen até os experimentais e subjetivos Wim Wenders (Alemanha) e Emir Kusturica (Sérvia), passando por David Cronenberg (Canadá), Pedro Almodóvar (Espanha), Joel & Ethan Coen (EUA), Jean-Luc Godard (França) e Takeshi Kitano (Japão), entre vários outros.

As perguntas buscam esmiuçar o pensamento dos entrevistados, indo desde opções estéticas específicas (zoom ou movimentação de câmera?) até conceitos mais difusos, como a importância de escrever o próprio material, o que faz um verdadeiro auteur, qual o grau de improvisação no set de filmagem, ou quando vale a pena contrariar a gramática visual tradicional. O fato de ser o mesmo esquema de perguntas ajuda a explicitar as diferenças de pensamento entre os cineastas. Scorsese, por exemplo, é um planejador meticuloso, que só começa a filmar quanto tem ideias bem precisas sobre as cenas. Já Wenders não tem problemas em abraçar os mais diversos métodos, de acordo com o que a história exige.

O resultado é uma série de depoimentos fascinantes, que conseguem, apesar da brevidade, abranger o pensamento dos mestres, e aproximar o leitor desse trabalho ao mesmo tempo tão pessoal e coletivo. Alguma das entrevistas pode ser eleita a melhor? Vou ficar em cima do muro, deixando as admirações do leitor guiarem suas conclusões, mas um nome sobressai entre as admirações dos próprios cineastas: David Lynch. O mestre americano, com suas imagens misteriosas e a capacidade de ser ao mesmo tempo universal e ferozmente individual, é o mais citado pelos colegas como exemplo de auteur ideal.

Embora voltado à arte da direção, Grandes Diretores de Cinema é uma das leituras mais valiosas existentes no país sobre a arte do cinema como um todo. Facilmente encontrável nas livrarias nacionais, a obra custa em torno de R$ 30,00. Devore o quanto antes.

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