É inegável o poder de ousadia na construção cinematográfica dos franceses. Doses de sensualidade e bizarrice, aos olhos de um espectador acostumado ao cinema americano, são o que dão o tom, na maioria das vezes, a uma boa e revigorante obra da sétima arte feita para chocar e levar o cinema a um status cada vez mais artístico e livre de amarras do viés hollywoodiano.

“L’lamant Double”, o novo filme de François Ozon, está cheio dessas caraterísticas que fazem renascer um cinema criativo e energético. O filme é um suspense-psicológico erótico no qual uma jovem, Chloé Fortin (Marine Vacth, que Ozon descobriu em “Young & Beautiful”), se envolve com um par de psicoterapeutas gêmeos, Paul Meyer e Louis Delord (ambos interpretados por Jérémie Renier). Um quer casar com ela, enquanto o outro se baseia em métodos não convencionais, forçando-a a enfrentar seus segredos e desejos mais profundamente enterrados.

O cinema de Ozon geralmente se constitui de temáticas que misturam suspense e sensualidade, principalmente de filmes do início da carreira como “Criminal Lovers” e “Swimming Pool”. Mas, essas características são expandidas nessa nova obra em que cada detalhe aparenta estar em ordem, fazendo com que a experiência cinematográfica seja satisfatória.

Nenhum plano, cena ou sequência parecem ser colocados sem intenção. Muito pelo contrário: a obra tem um encaixe perfeito. Cada momento, um novo mundo e uma mistura de sensações é descoberto. O diretor anuncia suas intenções desde o começo, abrindo com a visão desconhecida de um exame ginecológico, um close-up extremo que enche a tela: rosa, úmido e distorcido o suficiente, que leva um momento para registrar o que se está vendo. Um retrato cru e explícito, que revela um filme cuja perversidade é a forma lúdica para contar a história.

Mas o que faz com que “L’lamant Double” seja louvável é a forma como a trama cria simbolismos que se entrelaçam com a narrativa. O filme lida com um dualismo entre as personagens, criando facetas sobre um lado bom e ruim para cada um deles. Constantemente, eles são colocados contra si mesmos, duelando contra o ego e os desejos interiores profundamente enterrados. Uma batalha que é ativada a cada momento que enfrentam o reflexo e os espelhos.

Ozon cria essa atmosfera muito bem, levando esse simbolismo para além da ideia conceitual: a montagem e a narrativa passam a ser criada como se fossem espelhos. Os diálogos entre os personagens criam esse ambiente em que parecem estar se confrontando frente a frente. Resultando em cenas e ocasiões que parecem ser reflexos ou lapsos de memórias de alguém, – uma viagem entre a realidade e a ficção.

 “O que é de fato real na trama? ” Essa talvez tenha sido uma das coisas que mais me questionei durante o filme. Esse jogo de espelhos revela uma reflexão muito maior: que a vida é permeada de situações que parecem ilusórias, principalmente no amor e na paixão. Um simbolismo que tudo pode acontecer. Como Louis observa no final do filme, “O amor nunca salvou ninguém”, e “L’amant Double” não oferece absolutamente nada que possa substituí-lo.

O que se tem no filme é a noção de vidas duplas, desejos de sombra e a luxúria humana para preencher o espaço negativo que são criados por nossas escolhas. “Quando estou com ele, quero estar com você”, Chloé conta a Louis, “e quando estou com você quero estar com ele”. Ozon reconhece que conciliar esses desejos espelhados pode ser divertido e assustador, e até um pouco perigoso, e então ele fez um filme trash e simbolicamente lindo que pode ser divertido e assustador e até um pouco perigoso.

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