Há um verso da música Vaca profana de Caetano Veloso que diz “De perto, ninguém é normal”.  Isso é facilmente constatado à medida que interagimos e conhecemos a fundo as idiossincrasias e limitações das pessoas no seu dia a dia. Só que quando falamos da loucura, o foco muda completamente. Ela ainda é vista de forma distanciada por grande parte da população, uma ação de autodefesa irracional – geralmente dotada de preconceito e medo – para evitar entrar em contato com um “mundo” desconhecido e imprevisível, regido por sentimentos contraditórios e intensos nada fáceis de serem controlados. O louco ainda é visto com muitas ressalvas, um sujeito agressivo, fora da realidade e preso em uma realidade de delírios e alucinações.

No cinema, a loucura pode gerar trabalhos inspiradores e densos. Ótimos exemplos não faltam como Um Estranho no Ninho, Paixões que Alucinam e o nacional O Bicho de Sete Cabeças. Mas é na arte documental que se concentram os melhores exemplares, até porque “as liberdades artísticas” de um curta-metragem ficam em segundo plano para valorizar o tom real e humano no contexto manicomial. De Portugal, Esta é a Minha Casa de Pedro Renca é um documentário eficiente que retrata o cotidiano dos portadores de sofrimento psíquico na vida rural. Já Zelal de Marianne Khoury e Mustapha Has­naqui conta a trajetória das instituições psiquiátricas em países árabes. Nas terras tupiniquins, sem dúvida o melhor destaque nos últimos tempos foi Estamira de Marcos Prado que ilustra a adorável personagem título, uma catadora de lixos e portadora de sofrimento psíquico.

Por isso, há de se valorizar a determinação e coragem da dupla de diretores amazonenses Luiz Carlos Martins e Rosângela Aufiero por trabalhar em um terreno tão complicado como é o campo da doença mental onde apenas a verbalização da palavra loucura materializa os estigmas e preconceitos enraizados na cultura e sociedade de forma geral. Loucossão é o documentário amazonense dirigido pela dupla que retrata por meio de imagens e sons que a loucura não se encontra distante do que é preconizado como “normal” e estimula o espectador a desenvolver a sua habilidade de escuta e observação na compreensão do discurso do portador de sofrimento psíquico que à primeira vista parece desconexo, mas é rico em significados revelando a complexidade da loucura na expressão do seu desejo.

Filmado em formato de curta-metragem, é admirável a disposição dos diretores em fazer um documentário experimental de temática difícil como é a doença mental. A confiança nas imagens é tanta que oferece ao mesmo tempo um trabalho autêntico e desconexo, onde os poucos diálogos permitem a disposição das partes do quebra-cabeça em relação à história, contada na sua essência por estas imagens. Esta forte experimentação visual de Loucossão remete as inquietações poéticas e reflexivas dos trabalhos de Terrence Malick que culmina na imagem mais bela do curta na qual uma pessoa encontra-se sozinha em uma praia no meio das gaivotas. 

Esta experimentação visual é facilmente observada nas cenas do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, filmadas sempre em tons cinza-negro, com a imagem distorcida o que permite a dimensão exata de um lugar que por muito tempo ajudou a segregar a loucura, um verdadeiro arquivo morto de histórias, com corredores fantasmagóricos cujos espaços serviram de testemunhas para o sofrimento da alma humana. Não é a toa que o único momento na qual o hospital é mostrado em cores vivas – cheio de luz e espontaneidade – é quando uma paciente anônima assume a câmera direcionando-a para um gramado na qual descreve o que vê. É um momento interessante que divaga que realmente não há limites para a mente e percepção humana o que torna nossa subjetividade um ser fascinante na construção das histórias.

É uma pena que o documentário não consiga conectar no resultado final, as imagens ao seu conteúdo. O roteiro ainda com poucos diálogos pincela de modo econômico temas voltados para humanização como a importância da prática e da escuta no cuidado ao portador. Os trechos e entrevistas com pacientes e familiares perdem o impacto dentro da narrativa muito em razão da montagem das imagens, impedindo que uma protagonista interessantíssima como Joana D’Arc, ex-paciente do Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, ganhe um espaço de destaque merecido.

Entre os bons momentos, fica a impressão que as imagens se sobrepõem as vozes dos discursos e no contexto final a sensação é de que algo faltou para conectá-las harmonicamente. A ideia de Luiz Carlos e Rosângela Aufiero de adaptarem futuramente o documentário no formato de websérie parece uma escolha interessante e talvez ajude a corrigir os percalços, afinal um tema tão complexo como a loucura com certeza resultaria em experiências e percepções mais interessantes neste formato.

Ainda assim, não tira os méritos de Loucossão que atinge o seu objetivo em proporcionar ao espectador um olhar tão empático em relação à loucura e de encará-la com sensibilidade para trazer o tema – que ainda é tabu em nossa sociedade – para discussão. Se de perto as pessoas não são normais, de longe elas também não são anormais e o curta-metragem mostra que o melhor remédio para loucura é conviver com o diferente e tratá-lo com dignidade.

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