A sessão de “Ex-Pajé” no Casarão de Ideias estava com ingressos esgotados e muitos que não conseguiram entrar permaneceram para participar da conversa que se seguiu após o filme com o cineasta Luiz Bolognesi.

Convivendo entre os índios Paiter Suruí durante um mês, Bolognesi afirma que a “tribo do cinema seguiu a tribo indígena” e não apenas para captar imagens e informações para o documentário, mas, também em seus costumes, histórias e vivências. O processo resultou no filme Ex-Pajé, trama que acompanha o contato da religião ocidental com os povos nativos e como isso os afetou, especialmente Perpera, que deixou seus ofícios de pajé.

O Cine SET conversou com o diretor sobre a produção e como ela encontra seu lugar no atual momento político brasileiro.

Cine SET – Como surgiu a ideia para Ex-Pajé?

Luiz Bolognesi – Eu estava fazendo um documentário sobre o trabalho dos jovens Paiter Suruí usando a tecnologia para denunciar madeireiros. Eles vão com celular, GPS marcam onde está o madeireiro, fotografam as placas do caminhão, ai vão nas redes sociais e sobem essa denúncia. Eu estava fazendo um documentário sobre isso.

Quando falei: “Quero conhecer o pajé de vocês”, eles disseram “Não tem pajé. Tem um ex-pajé”.

Foi assim que conheci o Perpera e ele me contou a história dele. Neste encontro, decidi contar a história desse grande pajé e o drama dele de ser obrigada pela igreja evangélica a deixar de ser pajé.

Cine SET – Como foi a experiência de estar na tribo produzindo?

Luiz Bolognesi – A experiência de ficar um mês com eles filmando foi muito forte. A gente ficou sem celular, Wi-Fi e redes sociais. Para nós, brancos, isso é uma loucura. Cria também um estado de espírito muito diferenciado. Então, foi muito potente para gente desligar de toda essa quantidade de informações que tem no dia a dia e passar o mês ali com eles.

Isso nos colocava num estado de espírito muito mais próximo deles e muito mais contemplativo. O tempo ganha outro significado. O stress desaparece. Isso contribuiu muito para a maneira de se fazer o longa, um filme de contemplação, de observar a natureza, os acontecimentos humanos e isso veio dessa interação, desse convívio com eles que acabou mexendo muito com a gente.

A gente acaba carregando isso para a vida.

Cine SET – Quais são os pontos em comuns do atual processo de evangelização em relação ao realizado na época do Brasil Colônia?

Luiz Bolognesi – É um processo de catequização do Cristianismo muito violento e forte e o que ele tem de comum é a ferramenta que eles sempre vendem de que tudo que o pajé faz vem do diabo. Trabalham muito com o medo e sua narrativa pega muito os indígenas, mas, hoje a modernidade tem uma força econômica que os jesuítas não tinham.

Eles não tinham tantos presentes para dar. Eram mais pobres, então, tinham uma dificuldade maior porque eles tinham que ganhar na narrativa, culpabilizando os índios. A favor deles tinham os surtos virais que os índios não tinham defesas e eles a usavam para promover Jesus, em vez de falar que o vírus chegou e eles não tinham anticorpos.

Mas, hoje, esses novos pastores chegam com muitos presentes. Eles são muito ricos, conquistam levando presentes, até carro para as lideranças eles chegam a dar para entrar nas aldeias, comprando algumas lideranças.

O que há igual é a questão do medo e do diabo. O que há de diferente é que hoje esses pastores oferecem muito mais presentes e objetos, nesse verdadeiro demônio que é a mercadoria. Eles têm muito mais condições de manipular e oferecer presentes para atrair as comunidades indígenas para o lado da igreja.

Cine SET – De que forma isso reflete o atual momento do país em relação à expansão do poder político das bancadas evangélicas no Legislativo e Executivo Brasileiro? Como ela acaba afetando a questão indígena?

Luiz Bolognesi – Eu acho que a gente está vivendo uma questão muito complicada no Brasil. Não são todas as igrejas evangélicas, mas há um segmento fundamentalista evangélico que é muito grave e que está tentando ocupar o Estado. Teoricamente, é interessante que o Estado seja laico, não é bom que uma igreja ocupe um Estado. Toda vez que isso acontece, ou seja, quando um estado se torna religioso, o país vira fundamentalista.

Esse processo de tentar impor uma visão religiosa para o país inteiro e impor as suas normas, suas morais estreitas, conservadoras e restritivas e dizer que quem não segue essa linha tem que ser apedrejado, destruído, é muito grave. Isso está acontecendo: eles estão ocupando a bancada no congresso, fazem lobby, tomaram a FUNAI. O filme mostra isso de uma maneira muito pequena, lírica, mas, mostra lá na ponta de que maneira eles atuam, conquistando, evangelizando, perseguindo de uma forma muito violenta aqueles que não aderem.

Cine SET – Martírio, Antes o Tempo Não Acabava, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos… O cinema brasileiro vem se voltando à temática indígena nos últimos anos. Como você observa o tratamento a essa população na atual cinematografia nacional?

Luiz Bolognesi – Está crescendo muito a quantidade de filmes que estão focando a questão dos povos nativos americanos, seus temas e as suas narrativas e esses povos estão ganhando espaço na tela de cinema também. Esse território do audiovisual está sendo ocupado.

Agora, o que eu considero mais interessante é o fato de estarem surgindo diretores indígenas, que é um grande salto. Então, a gente está começando a entrar numa era em que a gente não vai ter só filmes feitos por brancos sobre os indígenas. Por mais que a gente tente se despir dos nossos preconceitos e absorver o olhar deles, traduzir a maneira deles verem o mundo, é importante a hora que a gente tem diretores indígenas fazendo curta-metragem, documentários.

Esses filmes ainda não entraram no circuito, mas eu acredito que, em breve, eles vão participar de festivais internacionais e colocando os filmes nas salas de cinema.

Cine SET – Quando a gente tem um filme na visão do diretor indígena, o que muda nesse olhar?

Luiz Bolognesi – Ah, muda tudo. Eles vêm com uma maneira de pensar, a sintaxe deles é diferente da nossa, a maneira de estabelecer conexões cognitivas é de outra ordem. O nosso pensamento branco é predominantemente racional, enquanto que os dos povos nativos e de diretores indígenas é predominantemente mágico. Ele trabalha com outras relações de causas e efeitos. São lógicas que, para nós brancos, não parecem muito operantes. Na verdade, elas explicam uma cosmogonia que nós não conseguimos entender. Elas refletem uma lógica da floresta, que funciona numa rede que a nossa ciência não dá conta de entender. Então quando eles assumem a linguagem, ela começa a ter formas que expressam a maneira deles refletirem, de contemplarem, de organizarem a sintaxe.

De modo geral, todo realismo mágico que tem na literatura latino-americana nada mais é que pensamento indígena, aquela maneira de se relacionar em que a mágica está presente no dia-a-dia, a matriz daquilo é quase uma apropriação desses autores do conhecimento dos povos nativos americanos, da maneira deles pensarem é realismo mágico.

Então, na hora que esses diretores começam a pegar as câmeras de cinema, a gente vai ter essa cosmovisão gerando linguagem.  É um fato muito novo para a nossa cinematografia, mas muito legal.

Cine SET – Quando se fala em feminismo e racismo no cinema, pede-se mais obras feitas por mulheres e negros. Você acha que o cinema nacional irá lidar com isso algum dia em relação aos indígenas?

Luiz Bolognesi – Isso já acontece aqui. Existem editais para diretores indígenas, editais que exigem a presença de diretoras. É um processo insipiente, mas estaremos em outro patamar daqui três, cinco anos. A partir do questionamento que gera mudança e as mudanças vão vir e não serão lentas. Elas serão muito importantes e potentes. Já ta tendo um debate sobre o lugar de fala dos indígenas na direção de cinema e eles estão começando a assumir.

Cine SET – Você sente diferença na recepção do filme no Brasil e no exterior? Se sim, quais?

Luiz Bolognesi – Sinto. No Brasil é engraçado. Eu diria que de modo geral as pessoas ficam mais emocionadas com o filme, comovidas. E na Alemanha, eram indignadas, um clima de revolta. As pessoas indagavam “Como que isso acontece? Como que essas igrejas entram lá dentro?” Mas o filme foi muito bem recebido lá, eles entenderam e sentiram o drama a ponto de ganhar o prêmio.

Cine SET – Você veio de uma experiência na direção com a animação “Uma História de Amor e Fúria” que retrata quatro épocas diferentes do Brasil, incluindo, uma no futuro. De que forma você acha que “Ex-Pajé” dialoga com “Uma História”?

Luiz Bolognesi – “Uma História de Amor e Fúria” é a história do Brasil contada do ponto de vista de um índio Tupinambá que estava aqui quando os europeus chegam. É uma narrativa totalmente do realismo fantástico da mitologia indígena. Um ponto de vista de um indígena contando a história do Brasil e assim conversa diretamente com “Ex-Pajé”.

Cine SET – Depois de “Ex-Pajé”, quais seus próximos projetos?

Luiz Bolognesi – Eu estou agora escrevendo um desenho animado que vai contar uma história Ianomâmi, preparando um documentário, também, sobre os Ianomâmis e colaborando com um roteiro da Laís Bodanzky em um filme sobre Dom Pedro I.

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