O bom da coluna Advogado de Defesa do Cine Set é a possibilidade de expor sua simpatia em relação a um filme de que você gosta ou acha um Guilty Pleasure divertido, enquanto a grande maioria detesta. O filme-réu em questão desta semana surgiu após a leitura da notícia de uma pesquisa americana divulgada semana passada, que apreciar filmes trash está ligado a alta inteligência.

Caso você desconheça este termo, saiba que ele designa as famosas produções de baixo orçamento, muitas vezes malfeitas, que no lugar de proporcionar medo, produzem risadas involuntárias. Diretores hoje queridinhos do público e da crítica iniciaram as suas respectivas carreiras neste segmento bastardo como foram os casos de Peter Jackson (Náusea Total), Francis Ford Coppola (Dementia 13) e James Cameron (Piranhas 2). Se isso já causa algumas surpresas para o público, o que dizer de Oliver Stone, um diretor que dedicou grande parte da sua filmografia voltada ao ativismo político da história americana (Vietnã, JFK, 11 de setembro e Wall Street) ter começado a carreira como diretor de filmes B de terror?

Isso aconteceu na década de 70 em Seizures (1974), um horror underground recebido jocosamente pela crítica. Após o filme, Oliver insinuou que “algumas pessoas” queriam o derrubar do posto de diretor, ficando longe das câmeras por sete anos. Porém, o período serviu para o cineasta fazer um belo caixa financeiro como roteirista, além de ganhar um ótimo prestígio em Hollywood, faturando inclusive, o Oscar de melhor roteiro adaptado pelo O Expresso da Meia Noite (1978). Mesmo com a estatueta dourada e os roteiros de Platoon e Nascido em 4 de julho finalizados, Stone preferiu torrar o orçamento de 7 milhões disponibilizados pela United Artists, em um outro projeto de terror. Você com certeza deve se perguntar por qual motivo um artista vencedor do Oscar por um trabalho sério e responsável por roteiros de temáticas sociais relevantes, investiria de novo em um segmento bastardo? Orgulho ferido pelo fracasso do longa anterior? Loucura? Teimosia? Talvez um pouco de cada. A situação é ainda mais surreal quando descobrimos que a história principal do filme é sobre uma mão assassina que depois de decepada, comete assassinatos.

Não vou mentir caro leitor do júri do Cine Set que a primeira vez que assistir A Mão (1981), o filme de defesa desta crítica, em uma finada sessão de horror da rede CNT, imaginava pela sinopse que estaria diante de um verdadeiro filme trash que proporcionaria boas risadas. Para minha surpresa geral, encontrei algo que mesmo não atendendo as minhas necessidades imediatas “trashinianas”, me surpreendeu pelo horror psicológico elegante – apesar da premissa absurda – que se diferenciava das várias porcarias que proliferavam as locadoras na década de 80, época marcada pela explosão do slasher.  A Mão em questão está relacionada ao desenhista de história em quadrinhos, Jonathan Lansdale (Michael Caine trabalhando para pagar as contas) que a perde em um acidente de carro. Após isso, bizarros acontecimentos passam a acontecer a sua volta, inclusive assassinatos de pessoas próximas a ele.

Apesar do estilo histérico e exagerado da maioria dos seus trabalhos, Stone encontra em A Mão o tom ideal de desenvolver sua atmosfera climática de horror. Aqui, ele destrincha o conflito psicológico do seu protagonista, utilizando situações e objetos como metáforas para indicar a sua instabilidade emocional. A premissa simples e absurda é conduzida através de uma credibilidade envolvente por parte do cineasta. Por isso, seguem três argumentos de defesa para este incompreendido filme:

  1. A faceta de realizar um horror psicológico a partir do absurdo

Praticamente o coração do filme reside aqui. Stone desenvolve eficientemente o thriller psicológico dentro do estudo de personagem. Muitas vezes nos questionamos qual é o verdadeiro mistério: é o enredo sobrenatural de uma mão que age por conta própria? Ou tudo é fruto da imaginação de uma mente traumatizada devido os diversos conflitos sofridos? O roteiro oferece um viés interessantíssimo sobre a relação conjugal de Jonathan com a sua esposa Anne (Andrea Marcovicci). Ele precisa aceitar não apenas o mutilamento físico (o membro fantasma), como lidar com a sua perda afetiva, um casamento em crise devido à esposa, mais jovem, desejar dar um tempo no relacionamento para viver uma relação sexual com o seu professor de yoga.

O tratamento do texto jamais é simplório, graças ao foco no drama do seu protagonista que precisa enfrentar suas inseguranças familiares, profissionais e pessoais. São vários indicativos que gradativamente vão deixando o indivíduo cada vez mais perturbado. Por isso, o terror é mais crível do que absurdo e deixa sempre um questionamento ambíguo na mente do espectador e da existência da possibilidade de ambas temáticas (a sobrenatural e a psicológica) funcionarem como hipóteses em decifrar o “enigma”. E quando você compra a ideia bizarra da luta final entre o Jonathan e sua mão, você percebe que Stone conseguiu vender a extravagância do seu enredo sem o transformá-lo em algo trash.

  1. Os vários simbolismos para representar o processo de loucura

O roteiro expõe desde o início várias simbologias para representar a loucura do protagonista. Quando a sua filha encontra uma cobra sem cabeça no jardim da casa logo no início do filme, o argumento funciona como uma ótima metáfora para o que virá acontecer. A cabeça do réptil é uma alusão ao talento e inteligência de Jonathan, que por sua vez, reside na sua habilidade de desenhar, cujo golpe será sentido na cena seguinte: o acidente automobilístico que acarreta na perda da mão e o seu principal instrumento de trabalho é o indicativo do início da sua insanidade mental. Outro momento interessante desta cena é como Stone a constrói a partir da conversa trivial entre Anne e Jonathan dentro do automóvel que culmina no sangrento acidente – bem encenado, diga-se de passagem, pela ótima montagem – exatamente no momento que o casal discute asperamente as situações matrimoniais – ela insinua querer dar um tempo na relação, enquanto ele se recusa.

Há outros elementos que ajudam neste quebra-cabeça psicológico como o robusto anel de formatura de Jonathan inserido exatamente na sua mão direita, um presente da esposa que se perde no acidente, deixando claro que a ligação afetiva de fidelidade do casal encontra-se fragilizada e instável. Estes elementos, junto com outros na história, reforçam ainda mais o caráter emocional de um homem perturbado que tenta fugir das suas emoções, as escondendo em uma postura contida, mas cujo olhar e expressões corporais denotam raiva e culpa.

  1. Michael Caine e sua Garagem

O papel de protagonista foi oferecido para Jon Voigt, Dustin Hoffman e Christopher Walken e nenhum aceitou. Conforme os extras do filme na versão estrangeira, Michael Caine aceitou a empreitada porque precisava de dinheiro para reformar sua garagem. O ator não apenas transmite segurança como é um dos ótimos motivos para conferir o filme. Ele alterna momentos comedidos, porém expressivos na parte inicial enquanto no ato final, já descabelado, revela-se histérico e afetadíssimo, uma carga psicológica que funciona para as nuances de seu personagem, um sujeito comum que vai se transformando em alguém instável. Uma atuação que mesmo longe das melhores do ator, oferece credibilidade para uma história caricata. Vale lembrar que um ano antes, o ator tinha feito um papel semelhante no ótimo Vestida Para Matar (1980) de Brian De Palma.

É claro que o réu deste julgamento apresenta seus defeitos: o ritmo oscila em vários momentos até pela sinopse absurda que é difícil de se manter por quase duas horas e o final estilo Psicose (1960) destrói a ambiguidade da narrativa até então vendida com eficiência para o público – a última cena quebra todo este aspecto até então bem construído. Contudo, A Mão é um trabalho que mesmo absurdo no seu enredo, revela-se um belo thriller psicológico. É uma pena constatar que Oliver Stone nunca mais retornou ao gênero de horror diretamente (indiretamente As Torres Gêmeas e Alexandre podem ser enquadrados no quesito “assustador na ruindade”). É um exemplo também que jamais devemos julgar um livro pela capa e que um diretor munido de um mínimo talento e visão autoral, consegue transformar o enredo banal em uma homenagem com classe ao universo dos filmes B.

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