“Parecendo real, nada é verdade”. Quando se pensa na produção artística voltada para o teatro durante a transição entre o renascentismo e o barroco na Inglaterra, os primeiros nomes que vem a mente são Shakespeare e Marlowe. O primeiro é lido, relido e reencenado no mundo todo, o segundo, escreveu obras semelhantes as do bardo, mas não é tão memorável. Contemporâneo a eles, está Ben Jonson que em 1626, escreveu a peça “Mercado de Notícias” que por meio do bom humor critica o jornalismo, até então um dos novos ofícios ingleses.

Séculos depois, Jorge Furtado homenageia Jonson, utilizando a obra para fomentar o documentário homônimo acerca do que abarca o fazer jornalismo e as nuances que envolvem a profissão, tomando como guia e referencial a visão de 13 jornalistas brasileiros renomados e incluindo casos que movimentaram a produção de notícias nesse último século.

É interessante observar a visão distinta, mas ao mesmo tempo congruente que os jornalistas entrevistados apresentam. Isto condiz com a produção e conceito de cinema de não ficção e reafirma aquilo que Furtado apresenta nos primeiros cinco minutos de projeção, enquanto apresenta a ideia do projeto aos atores que interpretarão a peça no decorrer da película. Para o diretor e roteirista, nesse tipo de produção audiovisual não há como prever o que será dito e nem como será dito pelos participantes/entrevistados do filme, o que difere da encenação, onde já se tem esquematizado como tudo funcionará e se encaixará.

Entrando dentro do conceito de jornalismo abordado no documentário, percebe-se o quanto a prática profissional é sublime na teoria, mas ao voltar-se para a prática, parece imersa no nível de corrupção que o país deslancha. Diante disso, se faz importante levantar o questionamento: o que é o jornalismo? Um dos entrevistados afirma ser algo relacionado a ouvir versões, confrontar opiniões e conhecer a verdade factual, acrescentando que “se vocês estão com a verdade, fiquem tranquilos”, um lema constante no veículo em que ele atua.

Ao tomar a prerrogativa anterior e os últimos posicionamentos, indaga-se também sobre a real função do jornalista. Durante toda a graduação, aprende-se que o jornalista é aquele que sabe contar uma história, no discurso de muitos acadêmicos da área, se ouve continuamente a expressão: “eu gosto de contar histórias, é isso que eu quero fazer”. Mas será que o ofício jornalístico está apenas ligado a produção de tantas histórias? Segundo Leandro Fortes, o jornalista oferece a sociedade à compreensão das pessoas e do mundo em que elas vivem.

Com a multiplicidade da informação, o jornalista precisa garimpar o que é importante. Ver, escutar, contar. Mas fazer isso com todas as propensas fontes. Todo mundo que passa informações tem interesse, seja no envolvimento do jornalista com a história ou como esta vai chegar ao público, o que acaba sendo um complemento. Todas as fontes precisam ser escutadas, mesmo as que têm interesse, afinal não existe fonte neutra. Não há neutralidade quando se lida com o jornalismo, afinal o ser humano não é uma tábula rasa como pregaram alguns filósofos. É preciso estar atento às mentiras e omissões, porque delas resultará o feeling que abrangerá o contexto fomentador da reportagem que será contada pelo viés de quem quer falar e quem foge do jornalista.

Toda reportagem é uma pergunta. Toda notícia é uma resposta. Por isso, que aquilo que é notícia torna-se o resultado do que alguém quer manter escondido. É função da figura mais importante do jornal – o jornalista e não o editor-chefe ou o dono do jornal -, investigar a notícia, processá-la. Porque tudo aquilo que é publicado, mesmo que com informação deturpada, o público acredita que é verdade. Para o jornalista, seu instrumento de trabalho é o fato, dai a importância de ir-se a notícia, procura-la, gerar incomodo em alguém, em algum lugar. O jornalista precisa separar a verdade da ficção e levar isso ao seu público.

Furtado acaba por trazer uma análise do processo comunicacional jornalístico no Brasil, não por suas palavras ou colocações, mas pelo ponto de vista dos próprios profissionais que estão a vários anos no mercado e além de perceberem as mudanças que a comunicação vem passando, também notam o quanto esta influência tem afetado os veículos, ainda mais se notar-se o impacto político que o atinge desde o golpe de 64 e reverbera até a contemporaneidade.

O fato é que o jornalismo passa por uma ruptura, uma quebra da concepção e formato que o constituíam até meados do século XX. É só ligar a televisão no horário nobre ou abrir o twitter e ver as manchetes das principais contas jornalísticas do país, há uma transformação eminente no processo comunicacional. Jonson já brincava com isso em sua dramaturgia e Furtado consegue fazer essa captura durante os 95 minutos que pautam o filme, mas infelizmente sua montagem perde um pouco o ritmo e, consequentemente, a atração do expectador. Os cortes entre a peça e as entrevistas e o uso da trilha sonora regular, torna o filme enfadonho e cansativo, embora as informações repassadas sejam cruciais para o entendimento da profissão e o distanciamento da ideia de senso comum criada para ela.

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