O que te motiva a abrir os olhos e levantar todos os dias? Parece uma pergunta besta ou filosófica de mais pra ser respondida com uma simples frase de quatro palavras, mas ela implica em muito mais coisas do que podemos imaginar. Afinal, motivações são palcos particulares e, ao mesmo tempo, universais, que geram incômodo naqueles que não a entendem ou estão em lados opostos de quem as utiliza.

Em 1911, Thomas Mann publicou a obra Morte em Veneza. Um romance dividido em cinco capítulos, considerados atos por sua estética, e que carrega diversas temáticas tendo como cerne um amor idealizo, que traz como pano de fundo a maneira como a arte pode ser criada e os dilemas que envolvem seus processos. Anos depois, em 1971, Luchino Visconti adaptou a obra para o cinema.

Visconti traz motivações em sua adaptação. Algumas calcadas em questionamentos sobre os escritos de Mann e interpretações. Essa visão do diretor o levou a ser bastante criticado por amantes da obra de Mann e por expor uma paixão cega e obsessiva de um homem de meia idade por um adolescente. Este é o resultado do que acaba sendo uma premissa de quem decide transpor um livro para o audiovisual e enfrenta os comentários pela forma como conduziu a adaptação. Bem da verdade é que cada autor possui suas características e o roteiro adaptado requer percepção para que a obra se mantenha com seu conceito inicial, mas tenha as mudanças suficientes para encontrar seu lugar entre o público e mantenha/obtenha relevância no fluxo do tempo.

Sendo assim, o diretor italiano não traz um complemento da obra de Mann, mas se pauta em algumas das motivações do Nobel de Literatura de 1929 para alinhar o filme que lhe daria fôlego para Ludwig (1972) e Violência e Paixão (1974). Prova disso é a escolha de transformar Gustav Von Aschenbach (Dirk Bogarde) em um músico, já que se entende que Mann inspirou-se em Gustav Mahler para criar o personagem principal de Morte em Veneza, há várias referências do compositor no decorrer da produção.

A tensão presente entre Von Aschenbach e Tadzio (Bjorn Andresen) é envolta de um casamento entre erotismo e paixão platônica, perdendo a suavidade que Mann caracteriza a relação dos personagens. Até mesmo as poucas trocas de olhares indicam uma licenciosidade que distancia da visão transposta no livro, mas necessária na tradução imagética.

O filme em si tem seu transcorrer desacelerado, somos levados a uma Veneza magistral, apaixonante com seus canais, construções arquitetônicas, figurinos arrojados, que vai se deteriorando com um surto de cólera. Uma leve indicação da condução do filme. Sob o som constante da 5ª sinfonia de Mahler vamos acompanhando paulatinamente as motivações de von Aschenbach, sendo apresentados a confusão de seus sentimentos que o guiam a paixão e a decadência. De forma sutil, a personagem é usada como representação do envelhecimento humano, com a busca constante de vida, paixão e juventude, enquanto a morte faz sua ronda devota ao ser humano.

Esteticamente belo, Morte em Veneza tem uma fotografia exuberante. Pasqualino De Santis consegue indicar a narrativa com seu jogo de aproximação e distanciamento, retratando o tom melancólico que Visconti buscou com o casamento da trilha sonora de Mahler. Há a incidência constante de planos gerais seguidos de closes feitos através de Zoom-in para acompanhamento dos personagens. Essas sequências fotográficas encaixam-se na obra a fim de identificar os personagens que surgem nessas cenas e exercem influência na sequência. Outro movimento de câmera utilizado para causar identificação é o uso de planos abertos acrescidos de panorâmicas, a fim de conhecer o ambiente e as personagens a serem retratadas. É em uma dessas construções sequenciais que o espectador é apresentado a Tadzio  e sua família.

A primeira ideia que as ações da personagem Gustav Von Aschenbach  transparecem é a de que este estaria encantado pela mãe de Tadzio, mas o olhar do menino para o artista durante esse primeiro encontro demonstra de quem realmente se trata a obra. A partir de então a obsessão e observação de Aschenbach pelo mancebo ganha contornos, o uso de zoom-in permite a percepção de que Tadzio sabe que é observado por ele, seu olhar leva a entender que este aprecia retribuir os olhares e perturbar seu observador.

Há poucos diálogos na obra, alternando o áudio entre música clássica e som ambiente. Os diálogos mais frequentes ocorrem entre Aschenbach e seu amigo, em uma espécie de flashbacks que atuam como uma conversa com sua própria consciência. A música clássica utilizada tem um ar melancólico, denotando um tom de abandono, principalmente na sequência em que o artista resolve ir embora e o adolescente passa por ele e o encara sem trocar uma palavra ou ele, Tadzio, esboçar qualquer sentimento pelo músico.

Na sequência seguinte, a câmera se concentra no rosto do protagonista, abrindo um pouco para um plano médio a fim de evidenciar a angústia presente em seu semblante. Em contrapartida, ao receber a notícia de que sua mala foi extraviada e que terá que retorna ao hotel, há uma mudança visual no filme. As cores mudam, tornam-se mais quentes, vívidas, no trajeto de volta, sua posição corpórea é mais livre. Embora, a fotografia permaneça como na despedida do hotel, a música se torna mais vívida, porém se mantém dramática, denotando que há algo errado, equivocado, impuro no ambiente.

Gustav von Aschenbanch procura durante a obra a arte e a beleza dentro desta. Em uma de suas falas afirma que a arte é ambígua, sendo a música, a mais ambígua de todas. Sua busca pela beleza e juventude rememora a de Basil em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, tendo inclusive o destino semelhante. Quanto a Tadzio, há uma frase de P.D. James em Morte no Seminário que descreve a sua beleza: “Ele possui o tipo de beleza que agrada mais homens do que mulheres”, e esta afirmativa encontra-se transparente em suas feições faciais. Ele é um tanto narcisista, como a personagem da autora inglesa, porém sem os requintes de auto piedade de Rafael, Tadzio tem seu ego alimentado por todos ao seu redor, principalmente por sua mãe, já que é o único filho homem. De Santis o fotografa como uma escultura renascentista a espera constante de admiração.

Morte em Veneza apresenta variadas temáticas em sua construção, mas sempre denotando o fazer arte e a busca pela beleza que esta intrínseco a sua constituição. Evidenciando em sua derradeira cena a decadência de tal procura, além de contar uma história de dor, por ser uma maquiagem de uma forma de amor precária e regada a falhas. Apesar de todos os comentários depreciativos, a releitura de Visconti consegue discutir as motivações que estão por trás do tão aclamado estado da arte e da própria mensuração de Mann.

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