‘Muito Romântico’, coprodução entre Brasil e Alemanha, é, acima de tudo, uma experiência sensorial. O filme dirigido, roteirizado, produzido e atuado por Melissa Dullius e Gustavo Jahn traz as aventuras de um casal de artistas brasileiros que cruza o oceano Atlântico para tentar a vida em Berlim, na Alemanha. Já em seu primeiro ato, a viagem de barco até Berlim, a ausência absoluta de diálogos e as longas tomadas da imensidão do mar azul oferecem uma experiência contemplativa ao espectador, deixando claro, também, a natureza nada convencional da narrativa.

A partir da chegada em Berlim, acompanhamos o casal tentando se adaptar ao novo país. Ainda com pouquíssimas falas, o filme explora a interação do casal com a arte para criar diálogos subjetivos e revelar fantasias, medos e desejos de seus personagens. Assim, é muito comum vermos cenas “narradas” e conduzidas pela leitura de um poema, a pintura de um quadro ou a composição de uma nova música. Ao mesmo tempo, a fotografia, o figurino e a direção de arte da produção são usados de forma inteligente ao não só se complementarem, como se espera de qualquer filme de qualidade, mas também salientarem constantemente o estado de espírito dos protagonistas.

Por isso, é frequente vermos o casal vestindo roupas monocromáticas, evidenciando não só o contraste deles em relação ao ambiente que os cerca (quase sempre retratado pelo uso de diversas cores) como também o distanciamento emocional entre eles, já que, nas cenas em que aparecem juntos, um deles está vestindo azul e o outro vermelho, ou um branco e o outro preto.

Beirando o hipnótico e o alucinatório, o longa brasileiro-alemão cria um visual que, por boa parte da projeção, pode parecer desconexo. Por outro lado, é nessa confusão de ideias, sentidos e estímulos que a produção ganha força experimental, pois não só permite que os espectadores criem seus próprios significados e interpretações, como se recusa a ceder às regras impostas pelas indústrias cinematográficas, tanto as comerciais quanto as autorais. É como vemos em uma tomada em que nada mais aparece em cena a não ser uma colcha de retalhos. Nela, ouvimos a voz de Melissa dizendo que uma colcha de retalhos pode até não significar nada, mas existe nela uma experiência vivida. Uma fala que parece se assemelhar ao próprio processo de criação do filme.

Além de criar imagens visualmente impactantes, ‘Muito Romântico’ também acerta ao debater temas como imigração e ocupação de espaços urbanos. A chegada do casal a Berlim, por exemplo, é ilustrada por uma sequência de grandes prédios em construção, a serem usados para condomínios empresariais ou de moradia, aos quais os protagonistas se referem como “espaços urbanos plastificados no qual nunca entramos” e “castelos honestos cinzentos”.

Com estreia mundial no Festival de Berlim, em 2016, ‘Muito Romântico’ chega agora aos cinemas brasileiros e merece não só uma assistida, mas um debate e uma imersão completa dos sentidos.

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