Ano passado entrei para o Elviras – Coletivo de Mulheres na Crítica Cinematográfica – e além de conhecer profissionais incríveis, tive acesso a obras de diretoras que não conhecia. Quando o fim do ano chegou, fiquei empolgada em conferir quantos filmes dirigidos por mulheres havia visto. Me surpreendi por constatar que inconscientemente havia batido a meta dos #52FilmsByWoman. Fazendo um balanço sobre a direção feminina alguns fatores me chamaram atenção e esse artigo procura expor algumas inquietações que surgiram.


Mulheres na Direção

Segundo dados da Ancine, apenas 19,7% de mulheres assinaram o cargo de chefia de um filme no Brasil em 2016. O número ainda se revela menor se formos buscar diretoras negras ou indígenas. Apesar disso, é equivocado afirmar que não existem diretoras negras no Brasil, colocação difícil de engolir e que foi abordada no início do ano na Mostra de Tiradentes.  Só no estado do Amazonas no ano de 2017 tivemos produções de Elen Linth e Dheik Praia, mulheres negras ocupando o cargo de direção, além de outras mulheres assumindo posições a frente do set, como produtoras, roteiristas e fotógrafas.

O que existe hoje ainda é o desconhecimento de obras produzidas por mulheres e mulheres que produzem. Daí a importância de existirem coletivos como Elviras, o DAFB (Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil) e grupos no Facebook como MUFA (Mulheres Filmakers e do Audiovisual) que criem redes de contato e ampliem o conhecimento e a troca de ideias entre profissionais da área.

E a forma como o público pode criar essas redes e descobrir o cinema feito por mulheres é consumindo filmes. Uma boa pedida é a tag #52FilmsByWoman que está presente nas redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter. Responsável por divulgar filmes feitos por mulheres, o uso da tag é uma oportunidade de receber e ofertar indicações de filmes que possuem narrativas distintas do que habitualmente ver-se no cinema, seja por meio dos enquadramentos, roteiro ou direção.

Se você acompanha o Instagram do Cine SET, pode dar uma conferida na lista que estamos montando semanalmente relacionado a tag. Se ainda não nos segue, essa é uma boa hora para fazer isso.

Entrelinhas Narrativas

Há diferenças quando você assiste narrativas e estão relacionadas a questões de gênero e raça.  Por isso, películas dirigidas por homens têm proporções diferentes daquelas que tem mulheres a frente e é perceptível quando envolve sagas/continuações.

Embora existam pessoas que insistem em afirmar que essas diferenças não são reais, pode ser que elas não estejam nítidas, mas afinal a vida acontece nas entrelinhas. E são esses detalhes que no decorrer da trama vão causar sensação de incomodo ou pequenas satisfações cinéfilas.

Para colocar as cartas na mesa, e apontar essas diferenças, trouxemos como exemplo duas comédias contemporâneas e populares: “Meninas Malvadas” e “A Escolha Perfeita”.

Ambos foram bem recebidos pelo público e crítica o que oportunizou uma continuação que não foram tão aclamadas, “Meninas Malvadas 2” foi produzido diretamente para TV. Entretanto, gostaria de ressaltar que tanto “Meninas Malvadas” quanto “A Escolha Perfeita” foram originalmente dirigidas por homens e tiveram suas sequências dirigidas sob o ponto de vista feminino.


E o que isso tem a ver?

Os dois filmes abordam o universo feminino.

Em “Meninas Malvadas” somos colocados diante da experiência do ensino médio para meninas, com direito a crushes, rivalidades, amizades e lição moral de “sororidade”. Já em “A Escolha Perfeita”, são jovens mulheres tateando os primeiros passos da vida adulta diante de rivalidade, competição, sonhos e lição moral de “união”.

A sequência deles aponta para nichos parecidos, embora a construção seja diferente e por conseqüência aposte em camadas que criam entrelinhas que seguem caminhos opostos ao que foi estabelecido nos primeiros longas. Há uma aproximação de narrativas ao mesmo tempo em que a quebra existe e os detalhes a torna visível.

Em “Meninas Malvadas”, dirigido por Mark Waters, somos apresentadas a Cady Heron (Lindsay Lohan no auge) e sua fixação por destruir as plásticas e tudo que as envolve. Utilizando o método “se não pode com o inimigo, una-se a ele”, acompanhamos a ingênua Cady pouco a pouco se tornar o que mais criticou, Regina George (Rachel McAdams ainda pouco conhecida). A trama acontece em uma escola de ensino médio envolta das duas, centrado nelas e em seus atos. Há uma relação de amor e ódio do restante dos personagens em relação às duas. Todas querem ter a aprovação de Regina George e posteriormente de Cady, quando vira seu braço direito, mas não querem estar no Livro do Arraso.

É impressionante o quanto este diário torna todas as mulheres do filme histéricas e descompensadas, atingindo até mesmo as educadoras, em uma equivocada tentativa de mostrar a construção de sororidade e respeito entre mulheres.

A sequência, dirigida por Melanie Mayron, nos traz Jô (Meaghan Jette Martin) e uma projeção totalmente diferente da anterior. Enquanto Cady perde sua identidade para se encaixar, Jô luta para que todos mantenham sua autenticidade e possam expressar-se. A briga entre as meninas não é incentivada e há uma busca pela resolução de conflitos entre elas, oportunizando que personagens coadjuvantes possam ter momentos que discutam seus plots, como insegurança, bullying, adoção e rejeição. Apesar de ser uma produção de baixo custo, a discussão que envolve o universo adolescente feminino é bem mais ampla e com menos posição fora de ordem.

Já em “A Escolha Perfeita”, Elisabeth Banks repete as mesmas escolhas que Jason Moore fez no primeiro filme, no entanto ela capta uma maturação das personagens necessária e que envolve conflitos que as mantém unidas, apesar de terem dramas distintos e isso as afastar do foco no canto. Há uma construção do relacionamento entre as meninas que vai se maturando conforme o estágio de relacioamento delas vai passando, sem panfletar uma fútil amizade construída dentro da fraternidade.

O trabalho de Banks tem proporções mais extensas, quando ela decide enfocar Amy Gorda (Rebel Wilson). Um personagem que já cativava no primeiro filme, mas que na sequência tem um tempo de tela maior e seus próprios conflitos são explorados e apesar do timing cômico tem soluções agradáveis. Em tempos em que representatividade é essencial, Amy Gorda surge dentro de um estereótipo do gordo engraçado, mas ela possui outras camadas, que são abordadas e conseguem somar em relação a representatividade sexual da mulher gorda. Amy Gorda é icônica e um dos personagens mais queridos e memoráveis da película.


Influência Narrativa

A visão da mulher dentro de uma obra que trata de mulheres é vital. Não é só uma questão de representatividade, mas de veracidade. De apresentar narrativas em que a assimilação e identificação sejam espontâneas e que contribuam para o entendimento da mulher que assiste a produção audiovisual como o ser que está ali sendo representado e não estereótipos e noções equivocadas do que é o universo feminino.

Precisamos de narrativas diferenciadas, que abordem a vivência real da mulher. Suas experiências como profissional, filha, mãe, esposa, amante. Narrativas que possam contribuir para o crescimento representativo do audiovisual, independente de ainda chegarmos nas rodas de conversa e ouvirmos que não há público para esse tipo de produção.

É por conta de comentários como esse que conhecer o cinema feito por mulheres é imprescindível, mais ainda é estar atento as entrelinhas e perceber as pequenas mudanças que existem entre os filmes feitos por mulheres e por homens. É um exercício divertido e que evidencia o potencial feminino por trás das câmeras, afinal a vida acontece nas entrelinhas.

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