Simbolismo, semiótica, metalinguagens, metáforas, sempre foram artifícios utilizados no cinema em prol de enriquecer e ousar na maneira de como se conta a história de um filme. Um dos baratos do cinema é você interpretar o que um diretor quis dizer com determinada momento, enquadramento, cor ou qualquer outro elemento de cena.

E esse “Noite de Lobos” é cheio desses momentos. Acredite: entre seus arroubos de violência e quadros, aqui e acolá você encontra um simbolismo. Mas aí que vem o entrave: pode até fazer sentido para o diretor ou para o roteirista tais mensagens “ocultas”, mas para quem está assistindo fica aquela impressão de que não tem a profundidade que diz ter.

Não é novidade o Alaska ser utilizado como uma atmosfera exótica, seu frio opressor, o solstício é capaz de deixar as 17h parecendo três da manhã. Cercado pelo branco, não é à toa que os personagens se locomovem e conversam de maneira pausada, como se entregues a um estágio de dormência intermitente.

O filme é baseado em um livro escrito por William Giraldi. A história se passa em um pequeno vilarejo onde crianças desaparecem vítimas de uma alcateia. Após perder o filho, uma mãe (Riley Keough) aparentemente desesperada, convida um especialista/caçador/escritor – é isso aí – de  lobos (Jeffrey Wright) , para lhe ajudar a lidar com os animais. Enquanto isso, no Oriente Médio o marido dela (Peter Skarsgard) é informado e está voltando para o país.

Com um elenco formidável e esforçado em defender seus personagens, fica até interessante em um primeiro momento acompanharmos alguns mistérios. O filme flerta com suspense quase místico e a tristeza dos personagens é explícita, mesmo que através de poucos diálogos. Sempre alguém cita que alguma pessoa vai embora, fica aquela impressão de que ela está conseguindo uma alforria.

As personas ali criadas fazem um perceptível paralelo entra caça e caçador. Claramente, Vernon Sloane (Skarsgard) é a segunda opção. Mesmo calado, desconfiado, e encurvando o corpo como se estivesse controlando os próprios impulsos, o plongée por cima de seus ombros mostra como ele cresce diante de quem ele encara.

Adentrar sobre os demais elementos do filme, faria com que eu entregasse diversos spoilers. Então aí fica o que faz de “Noite com Lobos” ser um filme falho: a Falta de foco. As subtramas apresentadas atrapalham a verdadeira história ali que quer ser contada.

O escritor Russell Core de Wright é uma pessoa triste, com arrependimentos, as motivações dele vão ficando claras no decorrer do filme, mas, mesmo assim, com todo o esforço do mundo, não se justificam. Tem um momento que fica parecendo que o filme vai se encaminhar, pasmem, para um slasher.

A senhora Sloane (Keogh) o que ela tem? Depressão, saudade, insanidade? A montagem atrapalha também:  em determinados momentos ocorre uma quebra de raciocínio por conta de um flashbac, ou a imagem bonita de um animal. A fotografia de Magnus Nordenhof Jønck, pelo menos, é competente.

O diretor Jeremy Saulnier pode até ter enganado a Netflix para produzir esse suspense fajuto, mas a mim ele não engana. Em tempos de ignorância na internet, eu me despeço com um “nem ele sabe do que está falando”. Não há de se falar em mistério se a trama, no fim das contas, se trata apenas de um fiapo ornamentado.

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