“Um homem não pode se dar por satisfeito até ter feito tudo para servir ao seu patrão”.

Esta frase, dita pelo mordomo James Stevens (Anthony Hopkins) poderia muito bem resumir tudo que o clássico “Vestígios do Dia” (1993) retrata em suas mais de duas horas de filme. No entanto, esta obra-prima do diretor James Ivory vai além de uma produção que retrata a vida do proletariado na fria e aristocrática Inglaterra em meados de 1933.

“Vestígios do Dia” é um filme grandioso por essência, com a mais triste história de amor. É sobre relações humanas deixadas a último plano em nome de uma dedicação exacerbada. É sobre questões sociais e históricas. É sobre se anular até não ter mais outra escolha.

O filme conta a história do mordomo-chefe de Darlington Hall, Sr. Stevens (Hopkins). O protagonista leva uma vida dedicada aos deveres da mansão e vive em função de seu patrão, Lorde Darlington (James Fox). Tudo muda quando, certo dia, o aristocrata contrata a governanta Mary Keaton (Emma Thompson). Mesmo com seu jeito polido e muitas vezes frio, Sr. Stevens nutre um sentimento por Miss Keaton, sem se dar conta que é correspondido.

Como pano de fundo, temos uma mansão histórica, palco de decisões e reuniões pré-Segunda Guerra, com fortes discursos em favor ao nazismo. A narrativa, desenvolvida de maneira magistral, leva o espectador a acompanhar também a relação de Sr. Stevens com seu pai, William Stevens (Peter Vaughan), oferecendo logo no primeiro ato, um pouco da personalidade do protagonista e de como eles mantém um elo de servidão aos seus senhores.  

“Vestígios do Dia” tem toda sua parte técnica desenvolvida com excelência. O roteiro de Ruth Prawer Jhabvala é magnifico ao conseguir narrar histórias diferentes e organizar as subtramas, mantendo o mordomo sempre ao centro. Os enquadramentos são meticulosamente executados, assim como a belíssima trilha sonora e fotografia.  

GRANDIOSO POR NATUREZA

A obra de James Ivory é sobre um homem comum, com feições sofridas envolta do silêncio de tudo que ele não diz. Aqui, Hopkins brilha mais uma vez em uma atuação monstruosa e inesquecível. É difícil conferir a obra e não lembrar do recente “A Esposa”, pois, o longa estrelado por Glenn Close bebe da fonte da atuação de Hopkins.

Ao acompanhar sua história de amor mudo, sem habilidade alguma de escolha ou senso crítico, o espectador fica sem ar por muitas vezes durante a projeção. Emma Thompson também merece todos os elogios por sua Sra Keaton, completamente o oposto de seu objeto de afeição. Ela é viva, dedicada, amorosa e apaixonada. Seu olhar, voz mansa e direta dão todo toque de realidade a sua personagem.

“Vestígios do Dia” é um fascinante drama sem a pretensão de ser um clássico; ele se torna grandioso durante a sua projeção de uma maneira natural.  Sua narrativa é lenta e pontual, sem nunca ser enfadonha. A obra é uma crítica social ferrenha ao estilo de vida dos ingleses e seu tratamento com seus serviçais. Com personagens excepcionais, complexos, que expõem um conflito entre as classes sociais e sobre as relações, tem um final digno de deixar qualquer coração de gelo aos prantos, fiel à realidade e mesmo com alguns clichês, consegue ser um filme inesquecível, triste e bonito.

‘Vestígios do Dia’: clássico de James Ivory sobre subserviência, repressão e amor

 “Um homem não pode se dar por satisfeito até ter feito tudo para servir ao seu patrão”. Esta frase, dita pelo mordomo James Stevens (Anthony Hopkins) poderia muito bem resumir tudo que o clássico “Vestígios do Dia” (1993) retrata em suas mais de duas horas de filme....

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