Há algumas semanas foi anunciado que o ícone de Hollywood, James Dean (1931-1955), será revivido via computação gráfica para aparecer no filme Finding Jack, um drama ambientado na Guerra do Vietnã a ser dirigido pela dupla Anton Ernst e Tati Golykh.

Bem… Todos nós sabíamos que isso um dia iria acontecer, não é?

A computação gráfica, ou CGI na sigla em inglês, revolucionou o cinema de Hollywood entre os anos 1990 e 2000, e o cinema mundial também. Quase todos os filmes atuais, e muitos dos seriados de TV e streaming, incorporam efeitos ou, ao menos, retoques e ajustes feitos com o auxílio do computador. A ideia de usar a computação gráfica para vencer a morte nem é uma noção totalmente nova: ela já foi usada antes para ajudar a completar o trabalho de atores que faleceram durante filmagens, como Brandon Lee em O Corvo (1994), Oliver Reed em Gladiador (2000) e Paul Walker em Velozes e Furiosos 7 (2015). A tecnologia existe. Mesmo assim, a polêmica em torno da notícia de James Dean revela que se trata de algo diferente, agora.

Dean faleceu aos 24 anos, num triste acidente de carro, justo quando estava prestes a se tornar o maior astro de Hollywood. Dos três clássicos dos quais participou – Vidas Amargas (1955), Juventude Transviada (1956), e Assim Caminha a Humanidade (1956) – só o primeiro ele viu estrear, e foi indicado postumamente ao Oscar como Ator Coadjuvante pelo terceiro. Sua força de astro permanece viva, em parte porque ele nunca chegou a envelhecer. E, claro, ainda é um dos mortos que mais fatura na indústria, com a exploração de sua imagem.

Talvez essa seja a palavra-chave em tudo isso: exploração. Vou logo mandar a minha opinião aqui, leitor: se você é fã de James Dean, não comemore essa notícia porque você não vai vê-lo de verdade neste filme.

Alguém talvez vá usar um traje de captura de performance no set, outra pessoa vai fazer a voz. Apenas o produto final vai ter a imagem de Dean. Vai ser algo semelhante a Um Morto Muito Louco – lembram-se dessa comédia da Sessão da Tarde na qual dois sujeitos tentavam enganar os convidados de uma festa de fim de semana, fazendo-os acreditar que seu chefe estava vivo levando o cadáver para lá e para cá? Finding Jack será o equivalente fílmico disso, e menos engraçado. Não será a “nova atuação de James Dean, trazida à vida pelo milagre da tecnologia”, porque nenhuma decisão criativa a respeito do trabalho do ator será tomada pelo próprio Dean, obviamente. Na tela, ele será apenas um fantoche, reanimado para a nossa “fascinação”.

Dito isso, vamos falar um pouco sobre os avanços e problemas da tecnologia no cinema e os caminhos que nos levaram a essa empreitada, em minha opinião, bizarra – mas que se for bem sucedida, pode levar a outras…

De “Exterminador 2” até hoje: Os prós e contras do CGI

São quase 30 anos de CGI no cinema – pode-se considerar O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991), de James Cameron, como o grande marco, embora outros filmes já tivessem flertado com a tecnologia antes. Desde então, essa ferramenta tornou possível colocar nas telas imagens que nunca deixarão nossas memórias: os dinossauros de Spielberg, os filmes da Pixar, o Titanic zarpando pelo mar, até chegarmos às batalhas da Terra-Média e ao Neo se desviando de balas

No entanto, com o tempo ficou claro que muitos destes momentos funcionaram melhor quando cineastas combinaram o computador a efeitos práticos e elementos filmados em frente à câmera, sempre que possível. A mescla entre as duas técnicas é o que torna Jurassic Park (1993), Titanic (1997) e a trilogia O Senhor dos Anéis impressionantes ainda hoje. Ora, na década de 2000, apesar de orçamentos milionários, não faltaram exemplos de CGI duvidoso, e, em certos casos, outras opções teriam sido preferíveis ao computador: as criaturas de Eu Sou a Lenda (2007), o troll do primeiro Harry Potter, o Hulk na versão dirigida por Ang Lee…

Hoje a situação é agravada pelo grande volume de efeitos nos filmes modernos. Ainda vemos CGI ruim em filmes com frequência, mesmo em grandes produções – a luta final entre o Pantera Negra e o Killmonger vem à mente, por exemplo. Ou o infame episódio do bigode do ator Henry Cavill que ajudou a afundar Liga da Justiça (2017). Muitas vezes isso ocorre por causa dos prazos curtos e do crescimento do mercado: basicamente, hoje existe uma enorme demanda, e muitas empresas de efeitos visuais se encontram abarrotadas de trabalho e pagando seus funcionários de modo insuficiente. Recomendo, para quem lê em inglês, esta matéria que aborda esse problema, e este vídeo do ótimo canal Entre Planos.

“Uncanny Valley”: O Santo Graal do CGI é o rosto humano

O CGI sempre se mostrou eficaz para criar monstros e criaturas diversas. Mas, quando se trata da face humana, ainda há muito que avançar. O desafio atual é vencer o efeito do “uncanny valley” ou “vale da estranheza”, aquela sensação de estranhamento que sentimos ao vermos figuras humanas artificiais e fotorrealistas, mas que não nos parecem humanas – pense nos personagens de O Expresso Polar (2004) ou de A Lenda de Beowulf (2007), ou mais recentemente, no Grand Moff Tarkin e na Princesa Leia de Rogue One: Uma História Star Wars (2016).

O maior avanço nesse sentido tem sido os “rejuvenescimentos” de atores, notadamente nos filmes do Marvel Studios. Essa técnica às vezes funcionou bem, como nos casos de Michael Douglas em Homem-Formiga (2015) e Samuel L. Jackson em Capitã Marvel (2019) – neste último, aliás, ajudou também o fato de Jackson parecer não envelhecer… Mas, em outras ocasiões, o resultado ficou estranho, com os rostos dos atores com aspecto plastificado, como Robert Downey Jr. em Capitão América: Guerra Civil (2016) e Johnny Depp no último Piratas do Caribe.

Às vezes ocorrem ambas as coisas ao mesmo tempo: Jeff Bridges rejuvenescido em Tron: O Legado (2010), um dos primeiros exemplos desta técnica, também despertava um forte efeito de “uncanny valley”. Já o melhor rejuvenescimento até agora foi o da atriz Sean Young, numa cena de Blade Runner 2049 (2017) que deixou o público de boca aberta.

O que nos traz de volta ao Tarkin de Rogue One. Ali foi um caso de ressurreição semelhante ao atual de James Dean, um exemplo da tecnologia dando seu próximo passo lógico. O espólio do intérprete original do personagem, o lendário Peter Cushing (1913-1994), cedeu à LucasFilm permissão para o uso de sua imagem em Rogue One. Quer queira ou não, o caso virou o paradigma para esse tipo de experiência: o diretor Gareth Edwards tinha o ator Guy Henry no set interpretando o personagem, mas, na pós-produção, o rosto de Cushing foi animado por cima de Henry. Em minha opinião, pelo menos, naquele caso se tratava de um elemento já estabelecido dentro do universo de Star Wars, por isso não se pode afirmar que foi algo de mau gosto. Mesmo assim… Henry não poderia ter feito o papel por completo? Claro que sim, e teria evitado a estranheza que a figura em CGI despertava várias vezes no filme.

Recentemente, o cineasta Mike Flanagan optou por não usar essa técnica em Doutor Sono (2019), sequência do clássico O Iluminado (1980), e escalou novos atores para os papéis icônicos de Jack e Wendy Torrance, com um resultado bem interessante – e vale dizer também, econômico para a produção.

“O Irlandês” e os limites do CGI

Agora chega um filme para redefinir os parâmetros dos efeitos em Hollywood, O Irlandês, o novo épico mafioso do mestre Martin Scorsese. Era um projeto que nenhum estúdio queria fazer devido ao custo: o filme faz amplo uso da tecnologia do rejuvenescimento para tirar as rugas de astros como Robert De Niro e Al Pacino e nos possibilitar revê-los com 25 ou 30 anos a menos. A Netflix bancou a aposta de 150 milhões de dólares e o produto final já pode ser visto em todo o mundo. O resultado ainda não é 100%: em algumas cenas ainda se nota um aspecto “computadorizado” no rosto de De Niro. Mesmo assim, esses momentos são minoria e não chegam a atrapalhar a narrativa, fazendo com que O Irlandês eleve o nível desta tecnologia a um novo patamar.

O próprio De Niro disse em entrevista que deve haver um limite para o uso da tecnologia de efeitos de computação no cinema. Bem, talvez o mercado atingindo uma saturação nos leve a esse limite e, dadas as condições atuais, isso não parece impossível. Mas, por outro lado, talvez o limite devesse ser o bom senso? Não tem nenhum jovem ator vivo que possa fazer o papel em Finding Jack? Ressuscitar James Dean me parece mais uma jogada de marketing do que qualquer outra coisa – eu até apostaria que esse filme acabará não sendo realizado, devido às reações negativas que a empreitada já despertou.

Mesmo que Finding Jack não seja feito, sabemos que algum dia alguém reviverá um ícone do cinema falecido por sabe-se lá qual propósito. Tecnologia só vai para a frente, é um fato da vida, assim como a morte. Outro fato da vida é a falta de senso crítico de produtores de cinema no mundo todo. Caberá ao público, como sempre, dizer se aprova ou reprova tais iniciativas. O público de cinema, em geral, é inteligente o suficiente para saber quando está comprando gato por lebre, ou no caso, Um Morto Muito Louco no lugar de um drama de guerra sério.

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