Exploração absurda da banalidade do mal, “O Cremador” continua a ser um filme tão vital como foi ao ser lançado em 1969. Uma restauração, apresentada no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano, celebra a abordagem libertária de uma produção que desafiou gêneros, técnicas cinematográficas e sistemas políticos com um humor maníaco.

O personagem-título é Karel Kopfrkingl (Rudolf Hrušínský), administrador de um crematório na Praga dos anos 1930. Astuto e obscuro, ele se destaca ao fazer seu negócio prosperar e se apresentar como um membro refinado da alta sociedade. A imagem que ele projeta esconde uma pessoa absolutamente obcecada com a morte. Karel acredita que seu trabalho não tem como objetivo se livrar de corpos, mas sim libertar as almas dos mortos para a reencarnação.

Com a ascensão da Alemanha nazista na Europa, alguns membros da elite de Praga se convencem de que a ocupação da Tchecoslováquia pelas tropas de Hitler seria uma boa ideia. Nesse contexto, os alemães seriam uma raça modelo para governar o país e que tchecos com herança ariana estariam lá para facilitar esse tomada.

Quando um de seus amigos consegue seduzir Karel com delírios de grandeza, ele passa a ver seus ideais refletidos na filosofia do Terceiro Reich: beleza, moralidade, ordem e uso intencional da morte. Ele quer se envolver mais com o grupo nazista, mas, com seu crematório cheio de empregados judeus e sua própria esposa e filhos sendo judeus, ele é forçado a escolher suas reais alianças.

MORALIDADE SOMENTE NO DISCURSO 

Os paralelos com a situação atual do mundo são espantosos: a descrença geral na classe política e a subsequente ascensão do governos nacionalistas de direita começam com a ideia de que algo está muito errado e apenas uma medida extrema o consertará. Para justificá-la, uma ideologia precisa ser colocada em prática, preparando as massas para sua implementação – mesmo que isso desafie qualquer razão ou sentido. 

É desconcertante uma parcela da população tcheca ter acreditado que os nazistas, com sua obsessão pela pureza racial, os governariam dando-lhes qualquer tipo de poder ou trabalhando em benefício deles. Essa posição, no entanto, ecoa nos grupos neonazistas de hoje, surgidos em países que seriam tratados como “raças inferiores” na Alemanha dos anos 1930, tais como o Brasil.

No entanto, ao assistir “O Cremador”, é fácil ver o que atrai um homem como Karel para o totalitarismo. Assim como esse sistema político (e alguns chefes de estado atuais), o cremador está sempre desafiando os fatos, continuamente reescrevendo sua versão da verdade. Ele despreza os aspectos da vida que não se encaixam em sua visão do mundo – doenças, vícios e assim por diante – e vê na morte uma forma de expurgá-los. 

Em sua mente, esse ponto de vista o coloca acima de qualquer reprovação: ele se orgulha de sua intelectualidade e de sua recusa em beber ou fumar, mas é o primeiro a falar mal de todos quando tem oportunidade e, apesar de casado, não tem vergonha em assediar uma funcionária. Através de seu personagem, “O Cremador” faz uma convincente argumento sobre como o discurso da moralidade populista é o refúgio dos medíocres. 

As contradições e deficiências do protagonista são usadas para efeito cômico pelo roteiro, escrito por Herz ao lado do romancista Ladislav Fuks. O trabalho deles, combinado com os esforços do diretor de fotografia Stanislav Milota e do editor Jaromír Janácek, cria um filme no qual seguimos um fluxo de consciência dominado por mudanças de humor e paranoia. 

DO HUMOR AO HORROR 

Janácek, especificamente, merece enormes elogios por seus cortes e transições incrivelmente elaboradas. Personagens de uma cena aparecendo em outra completamente diferente apenas para dar continuidade, Karel quebrando a quarta parede em diversos interlúdios e várias seqüências delirantes: todos esses elementos acontecem em rápida sucessão, criando uma colcha de retalhos visual que lembra o estado mental fragmentado personagem principal. 

“O Cremador” nunca abre mão de seu humor, mas à medida que a loucura toma conta de Karel, o filme se torna mais sombrio e acaba se tornando um horror psicológico. A verdadeira ameaça aqui não é o personagem-título, mas a facilidade com que o preconceito e a violência podem tomar conta de uma sociedade lentamente, dia após dia, até atingir todos os aspectos da vida cotidiana. 

Levando essas ideias ao extremo e misturando-as com sua espiritualidade, o protagonista começa a romantizar a cremação de tal forma que ele sonha com um processo que permitiria que centenas de pessoas fossem “libertadas” de uma só vez – uma idealização das câmaras de gás que assombrariam a Europa nos anos seguintes. Também espelha o fato de que muitos nazistas envolvidos no desenvolvimento delas não eram, na verdade, alemães. Por exemplo, Walter Dejaco, famoso por projetar as câmaras de gás em Auschwitz, era suíço. 

Fuks, também autor do livro no qual o filme foi baseado, viveu a ocupação alemã da Tchecoslováquia e experimentou em primeira mão a disseminação da ideologia estrangeira entre seus compatriotas. Herz, um judeu e sobrevivente do Holocausto, sabia o quão perigoso este instrumento poderia ser. 

Juntos, os artistas criaram uma comédia de humor negro que, ao tratar especificamente do nazismo, expõe como qualquer nação desce a um regime totalitário. Por conta disso, a censura que o governo comunista do país aplicou ao filme logo após sua estreia não é surpreendente. 

Atualmente, com a história ameaçando se repetir, muitos filmes servem como um aviso, mas poucos o fazem de maneira tão envolvente quanto este. “O Cremador” soa um alarme em forma de sátira direcionado a audiências do mundo todo – e o faz com um sorriso malicioso no rosto.

*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.