Quando Barbra Streisand dirigiu “O espelho tem duas faces” (1996), ela já não era exatamente uma iniciante no ramo. No seu currículo constavam o curioso “Yentl” (1983) e o ótimo drama “O príncipe das marés” (1991), o que gerava uma grande expectativa quanto ao que ela faria depois de mostrar que não era apenas uma excelente cantora, mas uma competente diretora. A resposta veio na forma de uma comédia romântica extremamente afinada com as características desse subgênero, mas que, ao mesmo tempo, promovia quebras que deram ao filme um frescor que dura até hoje.

Na trama de “O espelho tem duas faces”, iniciamos acompanhando a típica história da mulher que é um “patinho feio”, Rose Morgan (interpretada pela própria Streisand). Ela leva uma vida solitária, dividindo o tempo entre a bela e vaidosa mãe, Hannah (Lauren Bacall), e as aulas que ministra na faculdade, sem muitas expectativas de, nessa altura do campeonato, encontrar o seu príncipe encantado. O mais próximo que chegou dele, aliás, foi através da figura de Alex (Pierce Brosnan), que acabou casando com a irmã de Rose, Claire (Mimi Rogers).

Através de um anúncio no jornal, Rose conhece Gregory Larkin (Jeff Bridges), professor na mesma universidade em que ela trabalha. Traumatizado por seu último relacionamento, Gregory procura uma relação puramente intelectual, pois acredita que foi o romance (e o sexo) o causador de seus problemas passados com mulheres, e é isso que ele propõe a Rose. Mas será que tem como manter uma união assim?

A dinâmica do relacionamento entre Rose e Gregory é a primeira característica que chama a atenção em “O espelho tem duas faces”. Ela não segue exatamente os passos esperados para uma trama a la “garota encontra garoto e eles se apaixonam, enfrentam problema/conflito e o amor prevalece”, que as comédias românticas norte-americanas repetem à exaustão. A relação deles se baseia primordialmente em um afinamento intelectual entre os dois, e o próximo passo natural disso tudo, o afinamento sexual, é propositadamente evitado.

Isso abre espaço para aquele tipo de humor sutil das comédias românticas de antigamente, no qual sexo era um assunto sempre latente, mas nunca abertamente exposto por questões de censura. Dessa maneira, “O espelho tem duas faces” mostra como é possível manter rupturas e concordâncias com elementos que caracterizam o gênero cinematográfico no qual se insere. É mais curioso ainda perceber isso quando lembramos que esse filme é uma adaptação livre de uma fita de 1958, “Le mirroir à deux faces”, de André Cayatte.

Outro ponto interessante que somente a primeira vista parece concordar com a normatividade do gênero cinematográfico em “O espelho tem duas faces” é a construção da personagem feminina principal. Ela não se destaca por seus atributos físicos, não é bela nem chama a atenção dos homens na rua. Porém, quando inicia a relação com Gregory e percebe que gosta dele, ela deseja mais daquela união.

Nesse contexto, o filme vai além de simplesmente mostrar a típica “mocinha apaixonada”. Trata-se de uma mulher que não acredita realmente que deveria se dar por satisfeita só por ter um companheiro que lhe faça o “favor” de estar ao lado dela, ainda que não se ache em condições de atrair muitos pretendentes. Seus desejos, não apenas sexuais como também emocionais, têm valor, e ela, como uma mulher madura, não pode negar isso, ainda que tente por algum tempo. A mensagem se intensifica mais ainda na medida em que fica clara a cômica imaturidade emocional do fofo, porém neurótico, Gregory.

Gregory é, aliás, outro elemento de ruptura no filme. Ao contrário da figura dominante do homem que toma a iniciativa numa relação, ele é a figura que se mostra pudica, ainda que seus motivos tenham pouco a ver com recato e muito a ver com não saber lidar com a necessidade de ter uma companhia, mas ter medo do envolvimento. A repressão do desejo, característica normalmente encaixada nos personagens femininos no cinema, cabe, nesse caso, ao homem, e daí surgem bons momentos cômicos, dado o choque que causa.

Ver essas pequenas quebras estruturadas num roteiro e direção que tanto lembram as comédias românticas dos anos 1950 poderiam muito bem soar estranho, mas tornam “O espelho tem duas faces” muito gostoso de ver. Sua cadência promove uma sensação de familiaridade, apoiada pelas atuações adoráveis do casal protagonista e excelente elenco de apoio. Destacam-se aí a Bacall como Hannah, num papel perfeito para relembrarmos de seu charme, glamour e altivez de tempos passados, e Bridges, que consegue manter a simpatia de um personagem que sim, é bastante mala sem alça por boa parte do tempo até se dar conta que seu plano era uma furada e que ele pode perder um grande amor se continuar com a ideia.

Falando de familiaridade, tem coisa mais clichê que emoldurar as confusões românticas de norte-americanos brancos e em condição socioeconômica confortável com uma fotografia toda trabalhada em suaves tons pastel? Ou um momento de “extreme makeover”, no qual Rose dá uma recauchutada no visual e mostra que o “patinho feio” não é tão feio no fim das contas? Sim, “O espelho tem duas faces” traz isso, novamente entrelaçando elementos com os quais estamos acostumados a suas pequenas subversões e dando ao filme camadas que permitem leituras e interpretações para além da história de amor. Dessa maneira, o filme se enquadra naquela categoria de obra que consegue ser leve, agradável, fofa, mas nem por isso rasa, o que também demonstra que nem tudo precisa ser tão repetitivo nas comédias românticas.

Nota: 8,5

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