Há sempre aquelas histórias simples, que dificilmente acreditamos que podem ser contadas de outra forma. Em alguns casos, essas histórias conseguem subverter as obviedades e as impressões que cremos ter sobre elas. É basicamente isso que a dupla Fabio Grassadonia e Antonio Piazza fazem em O Fantasma da Sicília.

Ambientado na terra natal dos diretores, O Fantasma da Sicília se inspira na história real de um jovem sequestrado pela máfia siciliana. O sequestro ocorreu em represália às delações do pai do garoto, Santino Di Matteo. Durante 25 meses, o adolescente foi mantido em cárcere e perto de seu aniversário de 15 anos foi estrangulado e dissolvido em ácido. Essa foi apenas uma das histórias relatadas do terror da máfia siciliana na década de 90. O ocorrido marcou a jornada dos realizadores que dedicam o filme ao garoto e procuram dar um tom metafórico e poético a tragédia.

Este é um dos filmes que tornam a experiência cinematográfica única, mesmo que nem sempre ela seja agradável. Piazza e Grassadonia conseguem transformar a tragédia em um conto poético, arrebatador e lindo visualmente, sonoramente e audiovisualmente. A começar pela temática que gira em torno da obra, apesar das ações da máfia firmarem as relações delineadas dentro da obra, são os questionamentos que ela aflora no decorrer da projeção que dão o tom marcante ao filme. Afinal de contas, estariam todos os adultos letárgicos a situação que Luna (Julia Jedlikowska) e Giuseppe (Gaetano Fernandez) se encontravam? Que tipo de pai permite que seu filho seja levado sem tomar nenhuma medida a não ser o isolamento e o silêncio? Até onde uma lembrança pode manter uma alma ferida viva?

Essa última colocação é algo que me questiono particularmente. Lembranças. Memórias. Essas duas palavras têm pesos inquestionáveis sobre os seres humanos, assim como seu oposto – o temível esquecimento. É encantador o modo como O Fantasma da Sicília consegue transpor tantas insinuações polares, com resoluções que subvertem as expectativas. Se por um lado, Luna está ali, presente, viva, altiva em seu sofrimento ao passo que Giuseppe sufoca e assiste tudo que um dia foi ir embora, em meio a crises de desespero e esperança, os adultos parecem estar numa realidade paralela aos adolescentes e a partir de então entram duas representações fortes dentro da trama que é a da figura materna.

Não se pode dizer que a obra tenha essências femininas, mas é fato que ela apresenta mulheres fortes e que estão sob a ótica da câmera constantemente. Mais uma vez, a dualidade polar se mostra, embora a relação de Luna com o pai seja mais forte, a fotografia sempre o coloca na penumbra e em grau de inferioridade fotográfica a mãe da menina. Isto se evidencia nas tomadas em que a voz dela é mais altiva que a dele, nas sombras em seu rosto quanto a dureza das expressões dela são nítidas e mesmo no silêncio que os passos e decisões firmes dela impõe sobre a família. O que a coloca sempre em confronto a filha que possui o mesmo gênio dominante.  Por outro lado, a mãe de Giuseppe é passiva, mantém as vestes escuras conforme o luto do desaparecimento do filho se alastra sobre ela e parece ausente para lutar pela sobrevivência dos seus. Ambas zelam pelo afastamento dos filhos. Dando a película um tom shakespeariano.

É assim que o filme passeia por vários gêneros cinematográficos e de maneira funcional. Se por um lado, o pavor que a máfia siciliana impõe nos transporta para filmes nessa linha, a relação alimentada pelos jovens enamorados passeia entre o romance, a fábula e o drama. Sendo acompanhado constantemente pelo bosque que permeia a cidade e que encaixa o tom onírico e perturbador a narrativa. As sombras, a paleta de cores escolhidas, a câmera da altura do chão ou os seguindo de costas remetendo a presença de alguém acompanhando os passos da menina. É também nesta profusão técnica que vários outros simbolismos enriquecem a trama.

A presença constante da natureza, seus sons, textura, em especial a água, que dentre suas tantas funcionalidades audiovisuais, aqui, coloca-se como um quadro onde está pintada a mente de Luna – seus delírios de resgate a Giuseppe, os obstáculos que a família e todos os outros que se mostram inerte ao garoto desaparecido -, a própria história de amor intocada, irrealizável se transpõe sobre as águas. Nela está um dos momentos mais emocionantes e tensos de toda a película, regado a um primor estético que remete ao surrealismo e a toda arte que se sobrepõe quando bem utilizada o jogo de cores, a textura, a trilha sonora, enfim, a mise-en-scène. Esses são alguns dos elementos que compõe a aura simbológica da narrativa que lhe emprestam o tom ao passeio entre gêneros cinematográficos. Essa atmosfera também é alimentada pela trilha sonora assinada por Soap&Skin – projeto experimental da artista Anja Plaschg – e do compositor austríaco Anton Spielmann.

Em meio a tudo isso, retorno a pergunta que tantas vezes me tolhe: até onde uma lembrança pode manter uma alma ferida viva? Enquanto todos tocavam suas vidas e estavam dispostos a ignorar a tragédia que os abatia, as lembranças da gentileza e das pequenas demonstrações de afeto de Giuseppe fizeram com que Luna não desistisse de querer encontrá-lo, que não permitisse que as pessoas que os cercavam esquecessem o menino que foi esquecido por sua própria família, e em meio a tantas batalhas, tentativas de se juntar a Giuseppe na união mórbida, ela amadureceu. O rito de passagem da moça é marcado por simbolismo como todo o restante do filme, passeando entre a fúria, decisões e situações que embalam tudo isso. Jedlikowska traz aos olhos e as expressões corporais a força que a máfia impôs para o amadurecimento dos afetados por suas ações.

As mesmas lembranças, que permearam Luna, permitiam que o garoto sequestrado não se esquecesse de quem era e tivesse uma motivação para continuar lutando por sua vida, mesmo que tivesse que amassar e enterrar o único vestígio do que lhe mantinha são. Era o desespero de nunca viver aquilo que se escreveram e a esperança de um dia reencontrá-la, nem que fosse em seus sonhos, que mantinha a sanidade de Giuseppe. Fernandez também consegue transpor a tristeza e o pesar da tragédia que abarcou os Di Matteo por meio de seus grandes olhos verdes. É importante o trabalho feito no corpo do ator para compor a passagem de tempo dentro da obra.

É essa força de Luna e Giuseppe e a forma como Grassadonia e Piazza decidiram contá-la que torna o filme quase etéreo e com capacidade de mexer e levantar inúmeros questionamentos dentro do espectador desde os primeiros momentos de exibição e tirar o fôlego ao término. É verdadeiramente uma experiência cinematográfica única.

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