Gus Van Sant é um cineasta com conflito interno ainda indefinido entre o popular e o cult. Quando está no primeiro time trabalha com astros do cinema americano e produz filmes ou muito bons (“Gênio Indomável”, “Milk”) ou bombas e longas sem muita relevância (“Psicose”, “Encontrando Forrester”, “Terra Prometida”). Já a versão mais alternativa parece ter mais conteúdo e ousadia (“Garotos de Programa”, “Elefante”, “Paranoid Park”). “O Mar de Árvores” fica no meio do caminho desse terreno da carreira do diretor.

O longa acompanha o professor norte-americano Arthur Brennan (Matthew McConaughey) em uma viagem sem volta a uma floresta no Japão após uma experiência traumática. A missão dele no local é cometer suicídio. Porém, ao encontrar um outro sujeito na mesma situação, Takumi Nakamura (Ken Watanabe), ele passa a rever a ideia e enfrentar os próprios fantasmas.

A ideia pretendida por Gus Van Sant era ser uma produção palatável para o gosto hollywoodiano com toques existencialistas. Infelizmente, “Mar de Árvores” não consegue passar do superficial. O roteiro de Chris Sparling (do bom “Enterrado Vivo” e do desastroso “Armadilha”) não parece compreender as próprias discussões místicas entre razão e fé propostas pelo argumento inicial – algo que até mesmo “Lost” com o antagonismo entre Jack (Matthew Fox) e Locke (Terry O’Quinn) atingiu nos melhores momentos da série.

Ao expor didaticamente tudo o que acontece em tela, o filme impede qualquer aspecto de subjetividade, tão necessário para criar a dualidade e o embate crítico na mente do espectador e dos personagens sobre os acontecimentos vistos em cena. Isso quando não estraga possíveis reviravoltas ao trazer, logo de cara, o conceito de que a região pode ser encarada como um purgatório ou inventa convenientemente um bizarro acidente de trânsito para fazer a trama seguir adiante.

Para piorar, as soluções visuais ou sonoras como um facho de luz que corta a floresta e as vozes místicas soam clichês e a inserção de flashbacks se dá de maneira seca sem uma transição ou ligação eficiente com o tempo presente, o que choca se pensarmos se tratar de um diretor capaz de oferecer muito mais como Gus Van Sant. Matthew McConaughey luta para entregar uma atuação decente, o que consegue fazer apenas em um singelo momento de desabafo em frente a uma fogueira. De resto, parece em estado moribundo. Ken Watanabe, coitado, talvez tenha encontrado o pior trabalho da carreira, enquanto Naomi Watts faz o que pode no pouco tempo em cena para sair com dignidade.

A missão de conciliar a objetividade americana com o mítico do Oriente parecem tão intransponíveis para “O Mar de Árvores” quanto a busca pelo autoral com o popular no cinema de Gus Van Sant. Sendo assim, por mais “Elefante” e menos “Encontrando Forrester”.

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