Há uma razão para que a maioria das paródias de terror modernas – O Segredo da Cabana, Tucker e Dale Contra o Mal 2 – sejam ambientadas na floresta: tentam resgatar o brilhantismo do terror da última década, que alcançaram o auge com o enredo começando em “uma noite escura e tempestuosa” num bosque sinistro de árvores. Fazem parte desse horror sob as folhas filmes como “A Bruxa de Blair” e o popular “Pânico na Floresta”. Desde então, muitos foram as tentativas de fazer a floresta se tornar um local de pânico novamente – misturando as mais diversas referências e fórmulas. O original da Netflix, “O Ritual” é um desses filmes que tentam “fazer a floresta acontecer” no cinema de streaming e trazer para essa nova geração a maravilha dos filmes em VHS numa noite sombria.

Baseado em uma obra de 2011 do escritor britânico, Adam Nevill, “O Ritual” tem sido elogiado por ambientar a história num espaço claustrofóbico e gerar um terror psicológico ao invés do horror escrachado. No entanto, o filme tende a cair nessa reincidência – mesmo que não seja proposital. Esse é mais um dos “Originais Netflix” para colocar em xeque. Depois de várias tentativas, poucos são os filmes que valem a assinatura do serviço de streaming –  as séries permanecem carregando nas costas o brilho da assinatura.

O Ritual é um filme que parece um projeto de conclusão do curso de cinema. É bobo, sem muita novidade. Não que todos os filmes de conclusão sejam bobos, mas esse parece ter sido feito pelo grupo de amigos héteros (animado demais) confiantes de que serão a próxima revolução do cinema. Mas a gente tem que agradecer à Netflix pelo suporte à novos projetos, sem dúvidas.

A narrativa não nos dá muito.  Vemos cinco britânicos que discutem muito sobre onde eles estão querendo viajar para o próximo passeio em grupo. Enquanto a maioria deles prefere seguir o seu caminho através de qualquer região em que decidam, Robert (Paul Reid) sugere que eles façam um “mochilão” pelas montanhas suecas. Mais tarde, quando uma tragédia se abate sobre ele, o grupo se aventura por aí como um meio de recordação. Infelizmente, nenhum deles é tão bem equipado para lidar com os sentimentos dessa perda. Nesse sentido, o diretor David Bruckner, provou que pode trabalhar com um certo tipo de desespero solitário gerado pela culpa – que talvez seja o único lado psicológico realmente forte no filme.

No quesito terror, o máximo que temos é um suspense – que é até bem feito. Me senti atraído nos momentos tensos, mas o desfecho cai na repetição de fórmulas desse gênero. Além disso, o roteiro tenta fazer uma própria análise do filme com piadas bobas, forçando uma metalinguagem que deveria ser natural. Como quando os amigos entram numa cabana abandonada no meio da floresta e decidem passar a noite lá – quem em sã consciência entraria numa floresta à noite, na chuva, e decidiria dormir em uma casa de madeira cheia de símbolos satânicos?. “É aqui que a gente vai ser assassinado”, um dos amigos ironiza, numa forma de piada digna de filmes da Marvel.

É impressionante, então, as maneiras pelas quais Bruckner, Nevill e o roteirista Joe Barton são capazes de reconciliar de maneira inteligente os temas da história de luto, culpa e covardia. O final, embora seja totalmente esperado, é estranhamente satisfatório, mesmo que seja potencializado pelas mesmas razões dos filmes de horror antigos. Mas “O Ritual” não tem nenhum horror digno de veemência – apesar de suas voltas e reviravoltas, oferece um equilíbrio emocionante de suspense e repulsa física. Seu brilhantismo e resgate de uma floresta maldita, no entanto, pode ser esquecido.

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