Começando com os dois pés na porta, O Silêncio do Céu nos mostra a calmaria de um céu com algumas nuvens vagarosas sendo abalada por um estupro. A mulher violentada, Diana (Carolina Dieckmann), tenta desesperadamente se desvencilhar de dois homens, e o diretor (através de um belo trabalho de câmera) nos apresenta essa situação de maneira incômoda, com o som desencontrado, cheio de ruídos incômodos, planos desfocados em partes dos rostos dos agressores, e um momento de fuga analisando uma parede (azul, como o céu que acabáramos de contemplar) logo é refutado com a brutal violência a que Diana é constrangida pelos dois homens.

Só que Diana logo depois do ocorrido liga para o marido, Mario (Leonardo Sbaraglia), e em vez de contar o ocorrido pede que ele pegue os filhos na escola e leve-os para a aula de tênis, e o faz como se nada tivesse acontecido. O mesmo se sucede quando ela os recebe no jantar. Nem uma palavra a respeito do ocorrido. O que ela não sabe é que Mario presenciou a situação, e não interveio por medo da reação dos criminosos. Essa ação faz com que ele não saiba como tocar no assunto sem que ela descubra a sua omissão, então ambos seguem numa relação silenciosa. Porém essa situação perturba a cabeça de Mario, que decide tomar uma atitude, e vai em busca dos agressores confrontando assim todos os seus medos.

Terceiro longa de Marco Dutra, o segundo sem a companhia de Juliana Rojas, sua parceira habitual, O Silêncio do Céu é também o seu melhor resultado, o filme no qual o estilo do diretor parece encontrar um equilíbrio muito interessante do drama com o suspense, e onde os costumeiros flertes do diretor com questões metafísicas, espirituais, fantasmagóricas – que nem sempre funcionavam bem, principalmente no seu anterior Quando Eu Era Vivo (2014) –, dão espaço aos conflitos com os fantasmas interiores de Mario, os seus medos, demônios, inseguranças manifestados em todas as suas fobias e incapacidades.

Lembrando o ótimo Para a Minha Amada Morta (2016), de Aly Muritiba, a busca de Mario para encontrar e se vingar dos estupradores da sua esposa é antes de mais nada uma maneira de superar os seus bloqueios interiores, de buscar respostas para a sua conturbada relação com Diana.

Através de uma tensão constante, Dutra habilmente transita pelos pontos de vista de Mario e Diana, apresentando uma complexa relação onde aquilo que não está presente nas palavras tem um peso grande nos atos e silêncios presentes na casa. Em um momento específico no início do filme, quando observa a mulher sendo estuprada pela janela, Mario pega uma grande pedra e entra na casa, pensando em usar isso como uma arma para ameaçar os estupradores, e acaba deixando-a em cima da mesa, e esta fica lá por um bom tempo, sem que ninguém comentasse, representando as barreiras que existem naquela relação que são notadas, mas não comentadas.

Por conta do constante silêncio, porém, Dutra parece se sentir obrigado a utilizar uma constante narração em off, expondo os pensamentos e ideias dos personagens em diversas situações, mostrando derivações interessantes daquelas pessoas, mas não acertando sempre, ilustrando em palavras ideias que já poderíamos compreender intuitivamente através apenas das imagens.

O som é utilizado de maneira muito inteligente e vale um destaque. Além da sequência inicial, podemos entender através dessa ferramenta a verdadeira natureza de algumas situações, como na cena em que o casal tenta conversar no banheiro, enquanto Diana toma banho, e o barulho da água impede que se compreendam mesmo estando a centímetros um do outro, ou ainda numa cena importante do filme, em que o som de um carro ligado, enquanto um personagem observa Diana com um teor de iminente ameaça, ressalta a tensão que está presente entre aquelas pessoas.

O dois atores principais também são parte importante para que o filme alcance os seus objetivos. Dono de uma expressão contida, mas sem receio de demonstrar inseguranças e fraquezas, característica fundamental para que consigamos compreender bem a natureza do personagem, Sbaraglia conduz o filme com o olhar sempre perdido, constantemente em dúvida se está indo longe demais com as suas atitudes que são opostas a maneira mais pragmática que tomava suas ações.

Já Dieckmann surpreende, e pela primeira vez na carreira parece capaz de criar uma personagem madura, fora das facilidades e cacoetes a qual os atores são impelidos a seguir pelo ritmo industrial das produções envolvendo as novelas. Diana sempre esconde o que sente de verdade, e está tão decidida a não externar seus sentimentos que isso já começa a ficar preso na sua expressão, sempre cansada, exaurida, prestes a ter um baque e desabar. Sem dúvida o trabalho mais interessante da carreira da atriz, que pode ter demonstrado capacidade para iniciar uma nova e promissora fase na sua carreira.

Um grande trauma faz com as pessoas reajam de maneiras completamente diferentes, e compreender isso é o grande trunfo do filme de Dutra. Não há manual, e isso faz com que a busca por respostas e ações seja intensa, mas como o filme nos diz no seu ótimo desfecho, certas coisas não tem cura, nem resposta.

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