Oh Dae-Su, protagonista de Oldboy interpretado pelo extraordinário Min-sik Choi, diz na sua cena introdutória que seu nome significa “Aquele que convive bem com os outros”. Estranho, pois nessa mesma cena ele é visto bêbado e preso numa delegacia. Irritando os guardas, as pessoas em volta e demonstrando um comportamento praticamente insano, ele parece tudo menos um cara legal, com quem seja fácil conviver. Era o aniversário de sua filha e ele foi preso por bebedeira e perturbação. Ao sair da delegacia, entretanto, ele é subitamente sequestrado… e deixado num cativeiro pelos próximos 15 anos.

Ele nunca conhece seus sequestradores. Sua única companhia é o aparelho de TV. Passa anos e anos comendo a mesma coisa: bolinho frito. Então, Oh Dae-Su acaba fazendo o que qualquer homem faria em circunstâncias semelhantes: tenta se matar algumas vezes, se imagina coberto por formigas, se masturba, cava um buraco na parede para tentar fugir… Ele começa a fazer uma lista dos seus prováveis inimigos e das pessoas ofendidas por ele ao longo dos anos e se surpreende ao ver que a lista é bem longa. Durante seu cativeiro, Oh Dae-Su vê na TV a notícia da morte de sua esposa e que a culpa recaiu sobre ele. Ah, ele também começa a se exercitar e a treinar para quando finalmente escapar, num sonho de acertar as contas com quem o prendeu lá.

Até que um dia, 15 anos depois do seu aprisionamento, ele é libertado num terreno. Graças ao cativeiro, o homem passa a demonstrar uma determinação quase animalesca de se vingar. Na verdade, ao sair Oh Dae-Su é praticamente um monstro, segundo sua própria definição, e quase incapaz de funcionar em sociedade. Tornou-se também uma máquina de lutar. Ele faz amizade com a jovem Mido (Hye-jeong Kang) – embora primeiro tente agarrá-la no banheiro – e logo conhece o seu algoz, Woo-jin (Ji-tae Yu, excelente). Woo-jin dá a Oh Dae-Su cinco dias para descobrir porque foi preso, caso contrário Mido será morta, e faz com que o protagonista embarque numa jornada para o seu passado com terríveis consequências para todos.

Vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes em 2004 – não por coincidência, o ano em que Quentin Tarantino foi o presidente do júri – Oldboy conseguiu, graças à sua força e sua criatividade, transcender as fronteiras do cinema asiático e fazer grande sucesso no Ocidente. Trata-se de um filme vibrante, sem igual e inesquecível. O diretor Park Chan-Wook confere à experiência uma energia e um estilo únicos, além de usar e abusar de um criativo sistema de imagens e rimas visuais para enriquecer o filme e deixa-lo o mais cinematográfico possível.

Por exemplo: Oldboy abre com Oh Dae-Su segurando um homem pela gravata no alto de um prédio. Mais tarde, vemos Woo-jin segurando outra pessoa na beirada de uma ponte num flashback (até a composição é igual). Além disso, fotos permitem a Oh Dae-Su descobrir o passado de Woo-jin; depois este também mostra fotos para despertar lembranças na mente do protagonista. Todo esse sistema de repetições presente na narrativa tem o objetivo de mostrar como o herói e o vilão se tornaram parecidos ao longo do tempo – um se torna o espelho do outro e a vingança de Woo-jin contra Oh Dae-Su espelha momentos de sua própria vida.

Adotando um estilo completamente “irreal”, Park Chan-Wook cria vários momentos de puro impacto visual, como a “trajetória do martelo”, uma linha pontilhada que indica para o espectador onde o martelo na mão de Oh Dae-Su irá atingir um de seus oponentes (dica: na testa). Outro grande momento é a cena mais famosa do filme, quando Oh Dae-Su enfrenta dezenas de capangas do administrador de sua “prisão” usando apenas o referido martelo – a luta é filmada numa só tomada sem cortes, num travelling lateral ao longo de um corredor. Aliás, a violência em Oldboy pode chocar os mais sensíveis: os dentes do martelo são usados numa operação odontológica sem anestesia e mais tarde, uma língua é cortada com uma tesoura…

E ao final, quando o plano de Woo-jin é finalmente revelado, temos um dos momentos mais chocantes do cinema recente. E é curioso notar como a simpatia do espectador parece flutuar entre Oh Dae-Su e Woo-jin – muitas vezes Woo-jin parece mais sensato e digno de admiração que Oh Dae-Su e, de forma comovente, ele até parece se apiedar do tormento causado ao protagonista durante o confronto final entre os dois, o que o torna um personagem ainda mais fascinante e bem distante do estereótipo do vilão unidimensional.

O final ambíguo toca num dos temas mais interessantes da narrativa de Oldboy: até que ponto o ser humano pode ser condicionado? A hipnose tem um papel importante na trama do filme, mas até onde ela funciona, o diretor deixa em aberto. Podemos perder nossa humanidade e nos tornarmos animalescos ao passar por uma experiência de confinamento como a que Oh Dae-Su experimentou? Podemos ser condicionados a amar ou a esquecer algo traumático? Se sim, até que ponto? A estranha pintura no cativeiro de Oh Dae-Su trazia a citação “Ria, e o mundo rirá com você. Chore, e você chorará sozinho”. Na comovente tomada final de Oldboy (em outra elegante rima visual, bastante parecida com a pintura do início), Oh Dae-Su está rindo ou chorando? A resposta fica por conta de cada espectador.

 Nota: 10