A turma do Cine Set escolhe filmes que merecem ser redescobertos após pouco destaque pelo público.

Caio Pimenta

a conversaçãoAntigo: A Conversação

Francis Ford Coppola é o maior responsável por tornar “A Conversação” um filme menos conhecido do que merece. Afinal de contas, a obra estrelada por Gene Hackman foi lançada no meio dos dois “O Poderoso Chefão”. O longa reflete bem o período conturbado da história americana ao trazer a paranoia da espionagem em um momento pós-Watergate. A obra ainda conta com uma reviravolta excelente, o jovem e iniciante Harrison Ford, além da melancólica tomada final capaz de mostrar a grandeza do cineasta ao definir o estado de espírito do protagonista.

tudo acontece em elizabethtownRecente: Tudo Acontece em Elizabethtown

Pode ser mais longo que o necessário, mas essa comédia romântica de Cameron Crowe está no mesmo nível de “Quase Famosos”. O filme traz a melhor atuação de Orlando Bloom e Kirsten Dunst, fora ser um road movie sobre o reencontro das raízes, não apenas de um personagem, mas de um país em crise após um choque violento. Assista o filme e compre a trilha sonora!

Diego Bauer

filhos da esperançaAntigo: Filhos da Esperança

Tento encontrar alguma justificativa, algum motivo estranho que possa explicar por que este filme é tão esquecido, mas juro que não consigo encontrar uma explicação. Filhos da Esperança é um filme que, mesmo que seja considerado forte por mostrar a violência de uma sociedade sem perspectiva de forma crua e naturalista, não possui nenhum tipo de experimentalismo aguçado, e nem é de difícil compreensão. Trata-se de um trabalho explosivo, de um apuro técnico espetacular, com um bom elenco, e uma direção nada menos que fantástica de Alfonso Cuarón, que com os seus inacreditáveis planos-sequência nos insere com força naquele universo inóspito, mas que nos incomoda da forma que toda obra de arte de qualidade deve fazer. Obrigatório!

férias frustradas de verãoRecente: Férias Frustradas de Verão

Não se deixem levar pelo título” despretensioso”. Férias Frustradas de Verão é um filme adolescente meio depressivo da melhor qualidade. Greg Mottola, anos antes, dirigiu o grande sucesso Superbad, e tudo indicava que o seu caminho seria os das comédias adolescentes americanas. Porém, o que veio na sequência foi este filme estrelado por Jesse Eisenberg, que tem uma maturidade surpreendente, uma trilha sonora depressiva milimetricamente pensada, e atuações ótimas do trio Eisenberg, Kristen Stewart e Ryan Reynolds, sendo que no caso dos dois últimos, talvez os melhores trabalhos de suas carreiras. Capaz que o filme não tenha a mesma profundidade de As Vantagens de Ser Invisível, mas certamente está entre os melhores trabalhos adolescentes dos últimos anos. Um filme pouco visto, que com certeza vai tocar muita gente, como foi no meu caso.

Gabriel Oliveira

o poderoso chefão parte iiiAntigo: O Poderoso Chefão – Parte III

Convenhamos, o epílogo da saga de Michael Corleone é sim ligeiramente inferior aos dois primeiros filmes. Mas isso não justifica a recepção negativa por grande parte da crítica, que considerou o filme simplesmente ruim, apontando problemas como uma narrativa mais lenta, atuações ruins e uma obra que não sustentaria sozinha. Eu acho justamente o contrário: assim como seus antecessores, O Poderoso Chefão – Parte III possui uma narrativa intensa, com uma trama corajosa que envolve até mesmo um escândalo real da Igreja Católica (a misteriosa morte do Papa João Paulo I). Além disso, a obra fecha de vez o arco dramático de Michael Corleone, e os sacrifícios e arrependimentos do personagem estão presentes no decorrer de todo o filme, culminando numa sequência final poderosa, imersa numa atmosfera de ópera e tragédia. E sim, a atuação de Sofia Coppola é realmente terrível, e somos todos gratos a seja lá quem for que a convenceu a abandonar essa carreira e se tornar diretora, mas ainda assim ela não é capaz de sabotar o filme. Pelo contrário: ainda que não seja uma obra-prima, o longa se sustenta como um desfecho digno e belo para uma das maiores trilogias do cinema.

stardust o mistério da estrelaRecente: Stardust – O Mistério da Estrela

Um filme de fantasia que tinha tudo para ser um sucesso, mas passou batido pelo público e pela crítica, sabe-se lá por que motivo. Em tempos de franquias e adaptações literárias que se levam a sério demais com muito pouco a oferecer, Stardust possui um roteiro esperto e irreverente, adaptado de um romance de ninguém menos que Neil Gaiman, além de um elenco bem afinado desde os protagonistas até os personagens secundários, e uma direção de arte que compõe bem o universo mágico em que a história se passa. Com tudo em seu devido lugar, e às vezes apropriadamente fora de lugar, é difícil entender porque o filme acabou sendo meio esquecido. Afinal, além de tantas qualidades, Stardust ainda traz aquele que deve ser um dos momentos mais impagáveis da carreira de Robert De Niro, o que por si só já valeria a experiência. Para fãs de fantasias como eu, é uma boa pedida.

Ivanildo Pereira

o inquilinoAntigo: O Inquilino

Em se tratando de Roman Polanski, a disputa sobre qual é o seu melhor filme, para a maioria dos espectadores, fica entre Chinatown (1974), ou O Pianista (2002). Alguns também mencionam O Bebê de Rosemary (1968) como candidato, mas para mim O Inquilino (1976) o supera nos quesitos suspense e estranheza. O próprio Polanski o estrela, fazendo o papel de Trelkovski, um cara tímido que aluga um apartamento em Paris. A inquilina anterior tentou se matar, jogando-se pela janela, e não demora muito para Trelkovski começar a pensar que seus vizinhos querem que ele faça o mesmo. É um filme fascinante por mostrar o quão fácil pode vir a loucura, e o suspense provém das pressões sociais – para se enquadrar aos regulamentos do prédio e aos desejos das pessoas ao seu redor, Trelkovski aos poucos perde sua personalidade. Estranho e assustador, O Inquilino não é tão famoso quanto outros trabalhos do diretor, mas é um dos filmes mais malucos e perturbadores do cinema dos anos 1970.

a última noiteRecente: A Última Noite

A Última Noite (2002) é um dos melhores trabalhos do diretor Spike Lee e traz também uma das melhores atuações de Edward Norton. No entanto, ainda é um filme pouco visto e pouco apreciado. Norton interpreta Monty, um traficante que é descoberto pela polícia e recebe um dia para resolver seus assuntos – ao final desse prazo ele será mandado para a prisão. Inspirado pelas circunstâncias – o atentado de Onze de Setembro de 2001 aconteceu pouco antes das filmagens – Lee traça um paralelo entre a perda de Monty, que literalmente relembra sua vida enquanto seu dia passa, com a perda da cidade de Nova York. O filme ainda conta com ótimas atuações do resto do elenco: Brian Cox, Philip Seymour Hoffman, Barry Pepper, Rosario Dawson. Realmente é um filme um pouco triste demais para o grande publico, e talvez Lee o deixe um pouco mais longo do que deveria ser, mas a cena de Norton no espelho e seu discurso “Dane-se o mundo” é um dos mais incríveis momentos de atuação dos últimos anos do cinema americano.

Renildo Rodrigues

o rei da comédiaAntigo: O Rei da Comédia

Martin Scorsese tem tantos clássicos na carreira que é difícil acusá-lo de ser subestimado em alguma coisa. Até o Oscar, que por muito tempo o ignorou, já entregou os pontos. Mas há um filme pouco citado até hoje como um dos melhores trabalhos do diretor. Eu próprio, quando vi “O Rei da Comédia” a primeira vez, não me empolguei: sem a tragédia social de Taxi Driver, ou a familiar de Touro Indomável, o filme não oferece muitos pontos de contato com a experiência do espectador. Mas talvez seja isso que torne o filme o mais puro dos ensaios do diretor sobre a obsessão: na pele de um comediante determinado a ser conhecido nacionalmente, não importa o preço, Robert De Niro nunca soou tão sinistro quanto aqui. Com Jerry Lewis como parceiro de cena, e uma ponta especialíssima do The Clash, temos uma comédia de humor negro impagável – e um filme indispensável para a sua coleção.

jovens adultosRecente: Jovens Adultos

Um diretor que começou bem (Obrigado por Fumar), estourou com um trabalho mais ou menos (Juno) e provou o talento com um filme extraordinário (Amor Sem Escalas), Jason Reitman parecia fadado à consagração. Mas alguma coisa não deu certo nessa trajetória. O revés começou com Jovens Adultos. Outro caso incompreensível: com uma atuação brilhante de Charlize Theron, um roteiro muito mais franco e agudo de Diablo Cody (Juno) e um tema que parecia perfeito para a sensibilidade atual – os adultos infantilóides (ou young adults, o título original do filme) que vivem presos à atitude e aspirações da adolescência, algo muito comum hoje em dia, o filme tem todas as qualidade de Amor Sem Escalas, e é talvez ainda mais bem amarrado. Mas Jovens Adultos passou em branco pelo público e até pela crítica. Será que os young adults atacados no filme perceberam a ironia e não gostaram? O fato é que o filme não foi indicado a nenhuma das dezenas de prêmios de Amor, e o novo filme de Reitman – Refém da Paixão, com Kate Winslet – estreou de forma modesta, algo bem distante da consagração prenunciada pelo filme de 2009. Eu, que admiro o diretor, torço para ver o seu talento reconhecido novamente.