Se há uma expressão que vem sendo debatida nas últimas semanas, é “cultura de estupro”. Um dos casos recentes que impulsionaram essa discussão, inclusive, surge no universo do cinema, com as acusações de agressão física e psicológica feitas pela atriz Amber Heard contra o agora ex-marido Johnny Depp. Ainda que Heard não tenha acusado o ator de estupro, a expressão dá conta de abarcar a reação do público e da grande mídia ao relato: a descrença na fala da atriz e o discurso (às vezes implícito, às vezes, nem tanto) de que, de alguma maneira, ela mereceria esse tratamento por ser bissexual assumida e/ou muito mais jovem que o ator (o que a colocaria como interesseira do dinheiro e fama de Depp).

Outro debate recente sobre a cultura de estupro que surgiu no mundo do cinema partiu da atriz e diretora Jodie Foster. A oscarizada deu um puxão de orelha nos diretores que usam o estupro como único motivador para personagens femininas, ao passo que outras complexificações possíveis para aprofundar essas personagens nunca são expostas, o que seria resultado de certa “preguiça” de seus colegas homens no processo de criação. A declaração foi bastante discutida, pois a própria atriz ganhou seu primeiro Oscar em 1989 em “Os Acusados”, filme em que interpreta uma vítima de estupro.

Por conta disso tudo, o Cine Set decidiu trazer então a discussão para o terreno do cinema, já que este tanto influencia quanto é influenciado pelo contexto social em que se apresenta. Para tanto, começaremos relembrando como a própria expressão “cultura de estupro” se populariza graças ao cinema, para depois olharmos como ela se expressa em vários dos filmes que conhecemos. Senta que lá vem problematização!

Cultura de estupro: como surgiu e o que o cinema tem a ver com isso?

Para entender o que casos como o de Amber Heard e as narrativas de vários filmes tem a ver com cultura de estupro, precisamos ir às origens da expressão. Curiosamente, sua popularização remete ao cinema, mais especificamente, a um documentário chamado “Rape Culture”, realizado por Margaret Lazarus e Renner Wunderlich em 1975 (e atualizado em 1983). O filme foca na questão do estupro tanto a partir da atuação de um grupo de apoio de presos e ex-presos que cometeram esse crime ou dele foram vítimas no decorrer da vida carcerária quanto do debate mais amplo de como a mídia (cinema, publicidade e música, principalmente)  incentivam aos homens uma cultura de não consentimento do ato sexual para com as mulheres.

Esse ambiente de permissividade seria, então, o invólucro da tal “cultura de estupro”, na qual atitudes explícitas ou sutis de agressão seriam normalizadas contra as mulheres. Nela, os homens são educados e incentivados a serem “garanhões”, enquanto cabe às mulheres serem pudicas. Sendo assim, a recusa da mulher ao sexo seria apenas um artificio de charme, que deveria ser ignorado pelo homem pra expressar o domínio e desejo dele, domínio este que se estende para além da esfera íntima do sexual, mas também para o social e o político. Partindo dessa perspectiva, a culpabilização da vítima de estupro, assédio ou agressão (como, por exemplo, justificar automaticamente a agressão sofrida por Heard por conta da possibilidade de ela ter casado com Johnny Depp por interesse financeiro) é uma forma de manutenção de poder masculino.

O primeiro registro da expressão “cultura de estupro” tenha surgido em 1974, com o estudo “The first sourcebook for women”. Porém, foi o documentário de Lazarus e Wunderlich que o trouxe à tona, popularizando a expressão a partir desse e outros estudos gerados no contexto da segunda onda do feminismo nos anos 1960-1970. Mas o mesmo cinema que ajudou a botar o assunto na roda de discussão tem culpa no cartório ao trazer romantizações não muito saudáveis em relação ao descrédito dado às mulheres no que diz respeito às questões de não consentimento e desvalorização do feminino no geral.

Quando o cinema tem culpa no cartório

Olhar para trás na história do cinema é também olhar para reflexos da sociedade na qual os filmes foram criados. Por conta disso, nada mais natural que ver um filme como “Aconteceu naquela noite” (1934), no qual os protagonistas Ellie (Claudette Colbert) e Peter (Clark Gable) passam quase todo o filme se agredindo verbalmente e desprezando um ao outro, sendo que o filme é uma comédia romântica que, aliás, popularizou essa dinâmica de casal na tela grande. No entanto, muita coisa mudou dos anos 1930 para cá, e ainda vemos esse padrão se repetir à exaustão.

Entrando num terreno mais explícito, filmes populares como “A vingança dos nerds” (1984) trazem uma permissividade negativa no que diz respeito à questões de consentimento. Nessa comédia besteirol, temos a personagem Betty Childs (Julie Montgomery), que, ao longo do filme, é perseguida por um dos nerds, Lewis (Robert Carradine), para quem ela expressa claramente seu repúdio; tem imagens íntimas sendo captadas e divulgadas sem permissão; e é enganada para fazer sexo com Lewis, achando que ele era outra pessoa. Detalhe: Lewis é o protagonista, a pessoa com que os espectadores devem desenvolver toda a sua empatia. Difícil imaginar um plot como esse nos anos 2000? Nem tanto.

Aproximando nossa linha do tempo ao século XXI, temos filmes extremamente populares como a saga “Crepúsculo”. Nela, a clássica metáfora do ser bestial que é transformado pelo poder do amor é repaginada. Já vimos história similar na animação “A Bela e a Fera”, por exemplo. Em ambos os casos, temos uma figura agressiva (a besta/o vampiro) que cria uma relação um tanto obsessiva com seu objeto feminino de desejo (as mocinhas), cujo papel é suportar as disfuncionalidades das figuras masculinas de maneira resiliente ao adentrar no mundo deles. Ainda que de maneira sutil, é possível a interpretação de que esse padrão de narrativa reforça a insistência em se manter numa relação abusiva na esperança de que a “fera” vire um “príncipe”, o que na vida real é muito mais difícil.

Relações com desequilíbrio de poder e manipulações sutis são também colocadas como norma e modelo em filmes como “Diário de uma paixão” (2006). Achou estranho? E se relembrarmos que o personagem de Ryan Gosling ameaçou se suicidar caso seu interesse amoroso não aceitasse ficar com ele mais de uma vez no filme? E se associarmos isso ao fato de que tal tipo de ameaça é comum em abusos domésticos diversos, nos quais o homem não dá espaço para que a mulher escolha, de livre e espontânea vontade, o início ou a manutenção de um relacionamento? Se ficar mais fácil, substitua o rosto de Gosling por algum que não lhe atraia e tente recriar essas cenas do filme mentalmente.

Entrando novamente do terreno das sutilezas no século XXI, temos filmes como “Spring Breakers” (2013). Nele vemos mulheres jovens e seminuas que se envolvem em atividades ilegais, capitaneadas por um James Franco com um senso de moda mais que duvidoso. O caráter duvidoso das personagens femininas pode muito bem ser visto como uma saída para a complexificação da representação dessas mulheres no filme, mas olhando em perspectiva, o olhar por trás da câmera é masculino, vindo do diretor Harmony Korine, que foca a câmera nas curvas de corpos 100% dentro dos padrões de beleza atuais e reforça não tanto o empoderamento moralmente dúbio das jovens através do crime, mas sim a sensualidade delas e prazer estético masculino ao vê-las em tal situação, o que, por sua vez, só tende a reforçar o quanto mulheres não pudicas podem e devem ser rebaixadas e punidas no final das contas, pois estão “pedindo por isso”. Tal interpretação fica em aberto, no entanto, pois em tempos líquidos, contos morais não combinam com o senso de atualidade, apesar de pairarem sobre filmes como “Spring Breakers” algo de muito conservador nas entrelinhas.

Quando o crime é o mote do filme

Alguns filmes podem ajudar a entender a questão da cultura do estupro e os efeitos diretos do crime. Temos, por exemplo o filme de Jodie Foster citado no início deste texto, “Os Acusados” (1988). No longa, Foster interpreta Sarah Tobias, vítima de um estupro coletivo que segue em busca de justiça para a punição dos homens que a violentaram, mas não sem enfrentar os percalços de como a polícia lida com a situação e a culpabilização da vítima. Trata-se de um filme mediano, que cresce pela relevância do tema (que, infelizmente, continua atual) e pela performance de Foster, o que até hoje o ajuda a não ser esquecido.

Também podemos relembrar aqui um filme cujo foco é a questão da transexualidade, mas que tem no estupro um ponto significativo de sua narrativa. Trata-se de “Meninos não choram” (1999), no qual Hillary Swank interpreta Brandon Teena. Biologicamente tido como mulher, o personagem de Swank esconde sua condição e se identifica como homem. Quando isso é descoberto, ele é estuprado por dois “colegas”, numa espiral de violência que leva ao trágico fim do longa. Simbolicamente, o entendimento de que Brandon seria uma mulher o coloca, aos olhos dos agressores, numa situação na qual pode ser usado e agredido. A condição feminina é, então, exposta ao espectador como denúncia: enquanto “mulher”, Brandon sofre o que qualquer mulher está predisposta a sofrer.

Outro longa baseado em fatos reais que tem a faceta mais literal da cultura de estupro em voga é “Terra fria” (2005). Ele conta a história de Josey Aimes (Charlize Theron), mãe solteira tida como promíscua em sua comunidade por ter tido seus filhos muito jovem (que foi fruto de um estupro) e por ter fugido dos abusos do ex-marido. Ao trabalhar em uma mina, ela é alvo de preconceito, principalmente por parte de um ex, que a desmoraliza para que as exigências de Josey quanto ao ambiente de trabalho para ela e outras mulheres não sejam ouvidas. A maneira como a personagem de Theron é tratada do filme exemplifica bem como a cultura de estupro se estende para além do ato em sim, permeando a construção dos papeis sociais num determinado contexto.

Curiosamente (ou seria tristemente?) esses filmes são todos baseados em fatos reais. No campo do documentário, temos várias obras atuais que abordam como essa cultura do estupro se constrói, incluindo longas como “India’s daughter” (2015), “Miss Representation” (2011), “The hunting ground” (2015), “Slut: a documentary film” (2015) e “Killing us softly” (1979), para só citar alguns. Para conferir um pouquinho mais sobre a perspectiva das mulheres em relação as representações do feminino no cinema, pode começar por navegar um pouco na coluna O Segundo Sexo no Cine Set.

De maneira geral, percebemos como o cinema, enquanto uma forma de representação social, apresenta muito de como as mulheres são vistas em dado momento na história. Por sua vez, o reforço colocado nessas abordagens deve ser visto com atenção e senso crítico pelo público, cabendo a cada um avaliar, tanto quanto qualquer crítico de cinema, o que há de interessante e de problemático na forma como as mulheres são expostas no cinema.

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