Existe um pensamento que ainda é muito comum: o curta-metragem como uma ponte para o longa ou um exercício cinematográfico importante, mas de menor relevo. É claro que isso acontece em diversos casos, mas, ao mesmo tempo, tal ideia está muito distante de ser verdade.

Um curta pode ser tão importante, relevante, influente quanto um longa, evidentemente. É uma janela que oferece incontáveis possibilidades que seriam difíceis de encaixar em maior duração. Depende apenas que haja um diretor que domine as regras específicas dessa linguagem, e que saiba potencializar isso para criar elementos e situações que façam com que, em determinados casos, o curta seja tão ou mais avançado em linguagem cinematográfica que muitos longas elogiados.

Saliva, de Esmir Filho, é um exemplo disso. Junto com o genial Ilha das Flores, de Jorge Furtado, recorrentemente é colocado em listas de melhores filmes brasileiros recentes. Filmes. Não curtas. E acredito que esse reconhecimento é merecido. Há uma qualidade tão extraordinária na decupagem, ritmo, sons, texturas, que para mim este filme virou referência essencial de cinema sensorial, seja em curta ou longa-metragem.

Selecionado para a mostra internacional da crítica do Festival de Cannes de 2007, Saliva tem como premissa uma situação muito específica. Uma menina de 12 anos está prestes a dar o seu primeiro beijo, e isso faz com que todas as inseguranças, as próprias e as projetadas pelas amigas e garoto, venham à tona e torne esse momento repleto de ansiedade e tensão.

O drama da garota pode soar bobo ao se ler a sinopse, mas essa impressão se dilui logo na primeira cena. Saliva é um mergulho psicológico na insegurança de uma pré-adolescente desconfortável com a situação do primeiro beijo, e a partir disso cria uma série de sensações audiovisuais que formam um mosaico do que se passa em sua cabeça. Mesmo que vá por caminhos experimentais, deixando um pouco de lado a narrativa (ou a sugestão de narrativa, se preferir), trata-se de um filme absolutamente humano, bastante hábil na maneira como constrói a identificação do espectador com a garota. Por mais que estejamos distantes daquele conflito, o reconhecemos, e mais ainda, nos identificamos.

Essa base emocional é fundamental para a relação com o filme, pois a partir daí, Filho possui uma liberdade muito grande para criar situações que ilustram o sentimento da garota, ora deixando essas relações mais claras, ora borrando claramente qualquer tipo de naturalismo, investindo pesado nas sensações, em sequências mais líricas e simbólicas.

E é aí que vem o trabalho nada menos que extraordinário de Esmir Filho como diretor. Cada plano de Saliva (e trata-se de um filme com muitos planos) soa inventivo, belo, instigante, soma para o resultado final, mesmo que não necessariamente leve o filme pra frente no sentido aristotélico. A chegada ao shopping, o encontro com o garoto, a lembrança do “ensaio” com a amiga. Cada momento possui sua atmosfera, e Filho sabe que o filme que está fazendo não é sobre se ela beija ou não, se o beijo é bom ou não, mas sim sobre o percurso, a expectativa, o que se sente numa situação assim. E aí, de fato, cada momento é uma eternidade em si. Brilhante!

Há diversos momentos de imagens inspiradas, que denotam capacidade estética evoluída, mas que só chegam de fato a impressionar por conta de também serem eficientes narrativamente. A cena das garotas com o plástico rosa entre elas é o ponto mais destacado, em que todo o jogo fica estabelecido: há desejo, medo, tensão, curiosidade, suspense, além de uma decupagem irretocável, criando uma atmosfera densa, de visual imersivo.

E é fundamental destacar o trabalho de som, que cumpre papel essencial em toda a trama. Sempre é possível perceber o som diegético expandindo o universo da personagem, acrescentando camadas às imagens – que já são capazes de nos transportar pra cabeça da jovem – fazendo com que a entrada no universo da garota seja ainda mais imersiva. Desde o som do elevador do shopping que se transforma em trilha de suspense, a sucção de um canudo num copo de refrigerante que gera desconforto, o som minimalista do vento batendo no plástico (na já citada cena com as garotas) toma conta trazendo um ar intimista à situação, uma torneira ligada durante o beijo sugere a troca de saliva entre eles. Poderia citar cena a cena, praticamente.

Filho realizou uma obra sensorial esteticamente destacada, de visual sofisticado, com transições elegantes e planos ousados claramente com um orçamento bastante reduzido. Sem dúvida isso enaltece ainda mais esse trabalho, que precisou ser criativo em todas as suas etapas para que a sua ideia chegasse com potência máxima, mesmo com as precariedades de estrutura que o cinema brasileiro conhece tão bem.

Deixo aqui o link do filme, e desde já antecipo minha inveja por vocês estarem prestes a viver pela primeira vez as sensações que este filme é capaz de causar.

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