Sérgio Rizzo vive de cinema, um interesse despertado ainda na infância. Quando jovem, começou a escrever sobre filmes para jornais e depois se formou em jornalismo, passando a assinar artigos e reportagens em veículos diversos como O Globo, Folha de São Paulo e Valor Econômico ao longo dos anos. Rizzo também tem uma carreira acadêmica: é professor universitário desde o começo dos anos 1990, mestre em Artes/Cinema e doutor em Meios e Processos Audiovisuais, ministra cursos na Academia Internacional de Cinema e em outras instituições.

E como se não bastasse, escreve críticas e livros, é apresentador do canal Arte 1 e é parte da organização e do comitê de seleção do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Ou seja, Sérgio Rizzo é um estudioso do cinema, que gentilmente concordou em ser entrevistado via e-mail pelo Cine Set. Leia abaixo as opiniões dele sobre o papel do crítico de cinema hoje, a atual produção cinematográfica e outros assuntos que interessam aos espectadores e cinéfilos.

Sérgio RizzoCine Set: Primeiro, queremos abordar a sua trajetória. Fale um pouco sobre como surgiu seu interesse pelo cinema. Algum filme específico o fez se apaixonar pela arte ou querer olhar mais atentamente para o cinema?

Rizzo: Na infância, graças a meus pais, aprendi a gostar de filmes e seriados na TV, muitos dos quais não entendia direito porque lidavam com temas adultos. Depois, na adolescência, passei a ir regularmente ao cinema, fui descobrindo as salas de São Paulo que exibiam filmes alternativos aos do circuito comercial, e a certa altura notei que seria possível me dedicar profissionalmente a isso. Muitos filmes vistos nesse período tiveram importância nesse processo. Citar apenas alguns seria injusto. O que me atraiu nesse universo, em boa medida, foram as “janelas” que o cinema abria (e continua a abrir) para a compreensão do mundo.

Cine Set: E a respeito da sua formação acadêmica: após se formar em jornalismo, como decidiu partir para estudar arte e cinema? Houve apoio da sua família quando o senhor decidiu migrar para essa área?

Rizzo: Não foi bem isso o que ocorreu. Aos 16 anos, quando fazia o curso técnico em Eletrônica na antiga Escola Técnica Federal de São Paulo e já era um espectador/leitor de cinema, surgiu a oportunidade de escrever sobre os filmes em cartaz para o jornal do bairro onde eu morava, a “Gazeta da Vila Prudente”. Pouco depois, passei a trabalhar na redação como repórter, redator e diagramador, ao mesmo tempo em que assinava uma coluna de cinema. Ao fazer o vestibular, optei por jornalismo porque a experiência no jornal era muito positiva. De fato, penso que meu temperamento e meus interesses sempre combinaram bem com as principais características do jornalismo. Mais tarde, quando fiz o mestrado sobre cinema, foi uma forma de me especializar em uma área do jornalismo. E, quando fiz o doutorado, já era um professor em ambas as áreas (cinema e jornalismo) e estava disposto a me aprofundar em um campo que muito me interessa, as conexões entre o audiovisual e a educação.

Não houve, portanto, “migração”; cinema e jornalismo sempre estiverem lado a lado na minha carreira (com o acréscimo, desde o início dos anos 1990, da educação). Minha família jamais interferiu nas minhas decisões e sempre as apoiou. Sou 100% responsável por elas, para o bem ou para o mal.

Cine Set: Quanto ao trabalho do crítico de cinema hoje, realizado na internet e mídias digitais: qual a sua opinião sobre esse processo? Qual o papel do crítico hoje em dia? O senhor acha que a atividade critica se banalizou com tanta gente dando opinião sobre tudo?

Rizzo: Parece-me que o trabalho da crítica, em qualquer área, se tornou ainda mais relevante justamente porque tanta opinião circula sem freios (fenômeno que considero positivo). Entendo o trabalho do crítico como o de um pesquisador, dedicado a estudar e a compreender a área em que atua; a oferecer referências, a propor ideias, a estimular conexões e contrastes. Parte do que encontramos na internet, mesmo que não seja produzido por “críticos”, corresponde a esse perfil.

André BazinCine Set: Fale sobre seu método de trabalho. Quais os aspectos que o senhor busca observar quando analisa criticamente um filme?

Rizzo: Depende muito do filme e da circunstância (se é texto ou aula, onde, para qual público-alvo, com quais objetivos). Gosto, de maneira geral, do método consagrado pelo crítico francês André Bazin, que consistia inicialmente em “perguntar” ao filme o que ele gostaria de ter sido, e a partir da “resposta” examiná-lo à luz do que ele se propôs a fazer.

Cine Set: O trabalho de um crítico envolve assistir a muitos filmes, bons e ruins. O senhor faz crítica de muitos filmes atualmente? Existem filmes pelos quais o senhor não tem interesse algum em ver?

Rizzo: Escrevo ainda para jornais diários (“O Globo” e “Folha de S. Paulo”), mas em um ritmo bem menos intenso do que nas décadas de 1980, 1990 e 2000, quando cobria de maneira sistemática os lançamentos semanais. Essa condição atual propicia que eu seja mais seletivo, sim. O que, admito, me satisfaz profissionalmente; sinto não ter muito a dizer a respeito de boa parte da produção contemporânea, aquela que me parece simplesmente explorar formatos e fórmulas já consagrados.

Cine Set: O que acha, em termos gerais, da atual produção cinematográfica, tanto nacional quanto internacional? Quais diretores o senhor mais admira na atualidade? Neste ano, qual filme (ou filmes) o senhor destacaria pela qualidade? Ou até agora, nenhum se destacou?

Rizzo: Como disse na resposta anterior, parte da produção nacional e internacional não me desperta mais interesse. Parece-me muito presa a formatos e fórmulas exaustivamente repetidos. Mas tive prazer nos últimos meses ao assistir a filmes americanos que disputaram o último Oscar (como os de Wes Anderson e Alejandro González Iñarritú) e também, no campo oposto, a produções que entraram discretamente em cartaz e passaram despercebidas (como “O Segredo das Águas”, de Naomi Kawase).

Cena de O Menino e o MundoCine Set: Qual a sua opinião sobre as campanhas de filmes brasileiros em busca de uma indicação para o Oscar? Essa busca por uma premiação e validação internacional é algo sem importância ou o cinema brasileiro poderia mesmo se beneficiar com esse prêmio?

Rizzo: Não me parece que os desafios a enfrentar na produção, distribuição e exibição de filmes no Brasil tenham a ver com ganhar esse ou aquele prêmio internacional, por mais importantes que esses prêmios sejam para dar visibilidade à carreira dos profissionais envolvidos em sua realização. Note-se, neste momento, a brilhante carreira internacional de “O Menino e o Mundo”, o que sem dúvida tem contribuído para apresentar o trabalho de Alê Abreu a pessoas que, sem isso, não saberiam que ele existe. Mas os prêmios não apagam o fato de que o público desse filme no Brasil foi irrisório diante da sua qualidade, e isso se deve a aspectos de distribuição e exibição.

Cine Set: O que acha da questão das cotas para garantir a exibição de filmes nacionais nas salas de cinema? Acredita que essa é uma boa estratégia para tentar trazer ou formar publico para os filmes nacionais?

Rizzo: É uma estratégia para assegurar mercado à produção doméstica. Formar público envolve uma série de outros aspectos, em geral relegados a segundo ou terceiro plano.

Cine Set: E do atual predomínio dos filmes dublados sobre os legendados nas salas brasileiras? Qual pode ser o impacto dessa prática sobre o espectador, em longo prazo?

Rizzo: O Brasil é um país de telespectadores e não de espectadores; a maior parte da população que consome audiovisual o faz pela televisão, e não pelo cinema. Ao adotar uma prática consagrada pela televisão, o cinema tende a se aproximar ainda mais dela. Deveria se esperar o contrário, que se afastasse dela para firmar-se como um meio de outra natureza, que propicia experiências bem diferentes daquelas que experimentamos ao assistir à TV.

Cine Set: O senhor conhece a produção audiovisual amazonense? Se sim, o que acha dela?

Rizzo: Infelizmente, não conheço. Apenas curtas-metragens vistos esporadicamente em festivais.

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