Um tema em especial percorre toda a terceira temporada da série “Game of Thrones”. É o tema da parceria – ao longo dos episódios vemos personagens se juntando, constituindo alianças impensáveis há algum tempo atrás, mas que se tornaram necessárias para a sobrevivência no universo da série. E que fique claro: a vida em Westeros sempre foi difícil, mas nunca tão brutal quanto nesta altura da série. É um “lugar perigoso, com pessoas perigosas”, e é pior ainda quando se está sozinho.

Enquanto a guerra continua, essas alianças se tornam cada vez mais importantes. Em King’s Landing, por exemplo, a chegada providencial da família Tyrell ajudou na sobrevivência dos Lannisters. Agora, a família pretende consolidar o seu poder nos Sete Reinos através do casamento do rei Joffrey (Jack Gleeson) com Margaery Tyrell (Natalie Dormer). Além disso, Tywin Lannister (Charles Dance) tem planos de casar também seus filhos, Cersei (Lena Headey) e Tyrion (Peter Dinklage). E a escolha dos futuros cônjuges surpreende a todos, especialmente Tyrion.

O outro Lannister, Jaime (Nikolaj Coster-Waldau), está voltando a King’s Landing escoltado pela gigantesca guerreira Brienne de Tarth (Gwendoline Christie). A princípio eles não se dão nada bem, mas ao passarem um tempo nas brutais estradas interioranas de Westeros, um estranho elo começa a se formar entre os dois personagens. Outro elo inesperado se forma entre a pequena Arya Stark (Maisie Williams) e o assustador Sandor Clegane, o “Cão” (Rory McCann). Detalhe: Ele é um dos nomes da “lista negra” dela, e a garota desejaria apenas uma chance de matá-lo. Mesmo assim, é o Cão quem estará ao lado de Arya quando a coitada novamente passar por maus bocados.

No front dos Stark, Robb (Richard Madden) sofre reveses na campanha e precisa armar o casamento do seu tio, Edmure Tully (Tobias Menzies), assegurando assim o muito necessário apoio de um antigo aliado, Sor Walder Frey (David Bradley). Do outro lado da muralha, Jon Snow (Kit Harrington) inicia seu relacionamento com Ygritte (Rose Leslie), enquanto se infiltra entre os selvagens comandados por Mance Rayder (Ciáran Hinds). E finalmente, do outro lado do oceano, Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) é outra personagem que aprendeu na prática a formar alianças, e agora busca um exército para invadir os Sete Reinos. Seus dragões também estão um pouco maiores agora…

De fato, são tantos personagens e tramas que os primeiros episódios se movem num passo lento, até o espectador voltar a se situar. Ao longo das três temporadas, a teia de relacionamentos entre os personagens ficou tão intrincada, e a serialização tão intensa, que “Game of Thrones” se tornou um seriado “caótico”. Mas é um caos muito bem administrado pelos produtores-executivos David Benioff e D. B. Weiss – além disso, eles sempre contam com a colaboração do criador desse universo, o escritor George R. R. Martin, autor dos livros nos quais a série se baseia. Martin também retorna como roteirista do programa, escrevendo (de maneira soberba, por sinal – que diálogos!) o sétimo episódio da temporada.

Esse caos é ditado pelos personagens, e são eles que movem a trama da série. Mesmo sendo muito bem caracterizados, na maior parte do tempo, eles ainda surpreendem o espectador. Por exemplo, quem poderia adivinhar que nesta temporada Jaime seria quase redimido aos olhos do espectador, após praticar alguns atos realmente hediondos nas temporadas passadas? E quanto ao crescimento de Daenerys, que poderia ser mais uma tirana, mas aos poucos surpreende como libertadora? O amoral e lascivo Tyrion do começo do programa deu lugar a um homem que se importa com as pessoas e demonstra uma força de caráter insuspeita ao ser forçado a se casar.

Para aumentar ainda mais o escopo do seriado, surgem novos personagens, dentre os quais a que mais chamou atenção foi a velha matriarca da família Tyrell, Olenna, interpretada pela veterana dama da TV e do teatro britânico Diana Rigg. Sempre irônica e com a língua afiada, ela parece a versão “Game of Thrones” da Condessa vivida por Maggie Smith em “Downton Abbey”. Já Ciáran Hinds, ainda lembrado dentro da HBO como o Júlio César de “Roma”, ainda consegue causar impressão como Rayder embora apareça pouco – certamente seu personagem será mais importante no futuro.

Esses personagens são colocados em situações incríveis, e a essa altura a produção já funciona tão bem que consegue retratar essas situações de forma impressionante. É impossível não vibrar, por exemplo, com o destino final da cidade de Astapor ou com a escalada da muralha, encerrada com uma impressionante visão do mundo do alto da massiva estrutura de gelo – cenas que não ficam devendo, em termos técnicos e de escala, a grandes espetáculos do cinema recente. Mesmo que o espectador consiga adivinhar o desfecho desses momentos, eles ainda conseguem impressionar, para o grande mérito do seriado.

E os personagens são também responsáveis por deixar claro como “Game of Thrones” é uma visão diferente desse tipo de história. Apesar dos contornos fantasiosos, com direito a dragões e magia, “Game of Thrones” foge do velho conflito “bem contra o mal” visto tradicionalmente nesse tipo de produção. Aliás, nem se pode dizer que esses conceitos existam, de forma maniqueísta, no seriado. Ninguém é realmente bom ou mau. No sétimo episódio, não por coincidência aquele escrito por Martin, um dos personagens diz que “as pessoas fazem o que lhes convém”. Apesar dessa fala, a série não endossa completamente esse pensamento, pois os atos de Jaime no final do episódio meio que o desmentem. Às vezes, as pessoas fazem o bem, mesmo quando a saída fácil é apresentada.

Porém, pouco depois surge o contraponto disso no penúltimo episódio da temporada, “As Chuvas de Castamere”. É o melhor e mais dramático episódio da série até então, também envolvendo um casamento. É difícil pensar num momento mais niilista e sombrio na TV recente, no qual a série mostra o outro lado do que mostrou anteriormente: Embora as pessoas possam fazer o bem, são também capazes do mal absoluto.

Esse é o aspecto mais fascinante de “Game of Thrones”. Seus autores (Martin, Benioff, Weiss) tentam fazer da história que contam algo que englobe as várias facetas da experiência humana, e não mostram interesse em repetir clichês e conflitos dramáticos já vistos. É um programa às vezes até difícil de assistir, devido ao grande número de detalhes e à sua disposição de mergulhar no lado negro do seu universo. Mas ao mesmo tempo, é incrivelmente recompensador e viciante. Essas contradições deixam a série muito mais interessante, assim como vários dos seus personagens.

NOTA: 9,0

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