Qualquer pessoa que já tenha adentrado um pouco na casa dos trinta – como eu – testemunhou grandes mudanças na forma como o cinema é apreciado e consumido nestas ultimas décadas. Afinal, o cinema é a mais tecnológica das artes, e a tecnologia só vai para a frente.

Às vezes o ritmo dela nos deixa desnorteados e/ou nostálgicos, por isso juntem-se a mim numa breve viagem ao passado não muito remoto para lembrarmos algumas coisas que perdemos e outras que ganhamos com as modificações tecnológicas do cinema.

1. O FIM DO VHS

Ah, aquele barulhinho do videocassete quando começava a funcionar após a fita ser inserida. O ajuste de tracking. A raiva que dava quando o aparelho mastigava a fita com aquele precioso episódio daquele seriado que você gostava. O cheiro da fita alugada na locadora – acompanhada do aviso “Favor rebobinar”.

Quem não conhece essas sensações não sabe o que é viver…

Brincadeira: o VHS chegou ao seu merecido fim e a grande maioria dessas coisas não faz realmente muita falta. Mas vocês, filhos do século XXI, vocês nunca saberão o que é colocar no videocassete alguns “crássicos” da América Vídeo num domingo à tarde, aquela das capas nas cores da bandeira americana, estrelados por figuras como Charles Bronson e Chuck Norris.

Perderam um prazer oculto e estranho da vida.


2. A VIDA LONGA E PRÓSPERA DOS DVDs

As fitas VHS sumiram porque surgiu o DVD. Difícil esquecer, no começo dos anos 2000, a emoção de se assistir a Matrix no DVD – garanto que muita gente comprou um só por causa do filme.

Nos países desenvolvidos, o DVD e seu primo rico Blu-ray já são vistos como relíquias do passado: o streaming veio para ficar, e as pessoas, de modo geral, não têm mais saco para comprar e guardar um monte de discos. O fim da mídia física está próximo.

Mas, aqui no Brasil, o DVD ainda vende bem, resiste e tem força.


3. O ÚLTIMO SUSPIRO DAS VIDEOLOCADORAS

O DVD também representou o início do fim das videolocadoras. No início, muita gente comprava seus filmes, e a pirataria e a internet mais tarde mataram o negócio.

Eu ainda sou sócio de uma das últimas sobreviventes da nossa cidade e faço questão de ir lá de vez em quando. Passar horas olhando os títulos e escolhendo o que se vai levar…

Essa sensação inesquecível a respeito do cinema, curiosamente, possui um análogo hoje: quem nunca ficou horas procurando algo para ver no Netflix?


4. O FIM DAS REVISTAS DE CINEMA

Da minha época, me lembro de SET, Revista de Cinema, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema… As fofocas e notícias de produção hoje estão ao alcance de um clique, mas as revistas eram ótima fonte de pesquisa e alguns dos artigos delas ajudaram a dar foco na minha visão de cinéfilo em formação.


5. E AS CHAMADAS DE COMEÇO DE ANO DA REDE GLOBO?

Há algumas décadas, a TV aberta também era uma grande alternativa para se assistir a filmes. E todo começo de ano, vinha aquela chamada, anunciando quais filmes iriam passar na Globo, na Tela Quente ou no Supercine. Invariavelmente, filmes lançados a uns cinco anos atrás, mas a gente ficava ansioso mesmo assim!


6. CINEMA EM CASA

Não me refiro à sessão de filmes do canal do Silvio. Me refiro ao fato de que as plataformas domésticas se sofisticaram a ponto de que muita gente passou a nem querer ir mais ao cinema. Com os anos, as TVs ficaram maiores e com melhor definição, e qualquer pessoa passou a poder comprar um home theater decente.

E na TV por assinatura? Dava para perder as estreias, no sábado à noite, do Telecine ou da HBO?

Balada? Para quê?


7. A INTERNET

A rede mundial de computadores chegou para mudar para sempre a relação entre o público e a arte do cinema, e não falo apenas do aspecto da pirataria e da possibilidade de se baixar filmes e trailers.

Lembram quando se demorava quase dias para fazer isso?

A internet também tornou possível ler e estudar sobre cinema de uma forma inédita até então: teorias acadêmicas, críticas e discussões sobre filmes de repente estavam ao alcance de um clique.


8. NAS SALAS, IMAGEM E SOM ERAM RUINS COM FREQUÊNCIA

Nunca me esqueci da minha sessão de Onde os Fracos Não Têm Vez nos cinemas locais. O filme, claro, demorou um tempão para chegar aqui. Por isso, quando veio, a cópia já estava com a aparência de gasta e com som baixo, e para completar ainda havia um grupinho pentelho próximo, comentando o filme – digamos que não perderam nenhuma oportunidade de rir do penteado do Javier Bardem.

Essa foi a minha primeira experiência com um filme que, hoje em dia, eu simplesmente adoro, mas só vim a apreciar quando o vi em casa. E essa foi só a experiência mais memorável – cansei de ver filmes mal projetados, desfocados e com som baixo nas telas de Manaus.

Hoje, com a projeção digital, esses problemas acabaram ou foram, pelo menos, bastante minimizados.


9. POUCA GENTE FALAVA PORTUGUÊS NOS FILMES

Lembram-se da época em que, tirando animações, quase todos os filmes passavam no som original com legendas?

Eu lembro.


10. A ESPERA

Como mencionado no item 8, alguns filmes fora do esquema “blockbuster americano/comédia Globo Filmes” tradicionalmente demoram para chegar aqui na nossa cidade, isso quando vêm.

A diferença é que hoje não precisamos esperar: o filme ausente das salas de Manaus está disponível na internet, de formas legais ou não. Com o tempo, isso vem levando as pessoas a terem hábitos mais “seletivos” na hora de resolverem pagar um ingresso de cinema.

O que essa seletividade vai provocar, no futuro, é algo a se pensar.

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