Há quem diga que os cinco primeiros minutos de um filme são decisivos para se compreender o que será acompanhado em tela. Difícil é, então, quando durante toda a projeção você tenta assimilar e engolir a mensagem que a obra te passa.

A primeira impressão que “Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos”, filme de Paulo Nascimento com Edson Celulari no papel principal, passa é que algo de sensível e sensorial vem a caminho. Digo isso, porque os nomes nos créditos iniciais surgem duas vezes seguidas: no primeiro momento de forma corriqueira e na repetição com efeitos de surgimento de letreiro e com um pouco mais de tempo de percepção. Isso captou a atenção por se tratar de uma obra cuja sinopse aponta para recomeços, aceitação e sensibilidade. Entretanto, nem é preciso chegar à primeira virada no filme para perceber que há um ruído de comunicação tanto na sinopse quanto na intencionalidade da estética utilizada nos créditos iniciais.

A ideia da produção de Nascimento é abordar um homem que perdeu a visão ainda na primeira infância e, portanto, adaptou-se para viver segundo a condição que lhe fora imposta. Anos depois, ele descobre que existe a possibilidade de voltar a enxergar e isso cria um conflito interno e familiar. Dentro deste conceito há inúmeras oportunidades de tratar a deficiência visual e, principalmente, sua relação com o campo sensorial. Tudo de forma respeitosa e eficiente para alcançar o mais variado tipo de público, como já visto em filmes recentes como “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e “O Homem nas Trevas”. Infelizmente o diretor optou por ir pelo caminho mais fácil e piegas.

O sensório se torna presente por meio das palavras de Vittorio (Celulari), entretanto, o cinema é um produto integramente audiovisual, o que lhe confere poderes para suscitar os sentidos de uma maneira quase completa. E os elementos cinematográficos são responsáveis por atuar nesses campos e trabalhar nas reações necessárias. Talvez este seja um dos principais motivos que tornam o filme enfadonho e uma insatisfatória experiência nos seus quase 90 minutos de duração.

Para destacar o trabalho inequívoco dos elementos cinematográficos em “Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos”, o texto e a fotografia são dois itens que mais sofrem. Os diálogos são pobres, carregados de clichês maçantes e piadinhas politicamente chatas e inaceitáveis para deficientes visuais. Isso torna os conflitos intangíveis, irreais e com soluções que não fazem sentido. O que não acrescenta em nada para os momentos que deveriam ser tensos, já que um dos picos de problemas do filme está na falta de tensão e emoção dos personagens, até mesmo para chamar um palavrão.

Assim, os personagens cumprem sua função em cena, apesar de serem mal desenvolvidos. Todos possuem um quê de maniqueísmo, colocando sempre a figura de Vittorio como o bem e aqueles que oferecem qualquer visão diferente dele, nem que seja por ir ao estádio e torcer de maneira diferente, como o mal. Isso até confere o único momento cômico do filme, quando seu empregado (Machado) esconde o pôster do Internacional que ele insiste em contar ao patrão que é do Corinthians. Tal desenvolvimento arrastado é uma mostra para o que público consiga aceitar o conformismo de Vittorio como algo positivo.

O desenvolvimento falho é mais sentido na química entre Celulari e Villamil, que interpreta a esposa. É praticamente inexistente. Os dois andam em vias diferentes e o texto que não ajuda no desenvolvimento da obra é ainda pior para a personagem da argentina, que constantemente é humilhada pelos rompantes de machismo do filme, que querem colocar os conflitos que a compõe como fúteis diante de qualquer opinião que venha de Vittorio. Dessa forma, a falta de independência que há da mulher e do homem cego são esquecidos, juntamente com os questionamentos que envolvem a pressão que a situação levantada no filme quer abordar. Essas duas temáticas, cuja abordagem poderia enriquecer o roteiro de Nascimento, são vistas como mesquinhas e tirânicas.

A fotografia também não traz nenhum suspiro de inovação ao filme ou que ele tenha os pés no território sensorial. Pelo contrário, os planos e enquadramentos utilizados são os mesmos vistos nas novelas globais. Com repetição excessiva de movimentos de câmera, especialmente travelling, sem nenhuma informação a acrescentar a trama. Nem tampouco visuais ou estéticas. Infelizmente, essa opção fotográfica prejudicou bastante o filme, especialmente nas sensações que ela poderia auxiliar na criação. É inadmissível, para mim, que uma cena cujos olhos são os principais protagonistas não haja um close-up deles ou uma mínima menção fotográfica a eles. É decepcionante, no mínimo.

Outro elemento mal trabalhado é o uso da trilha sonora. Ela deveria auxiliar na carga emocional, mas ao contrário disso contribuiu para que os momentos emotivos se tornem tediosos. Sua inserção não é assertiva e nem as escolhas são.

Como se pode perceber, Vittorio até tenta ser sensorial, mas isso não se expande para a experiência audiovisual. As temáticas são apenas embrionárias, não conseguem se desenvolver no roteiro monótono. Nem mesmo os momentos cômicos conseguem alcançar uma risada sincera e natural da platéia. E para piorar toda essa situação, o filme estaciona num conformismo barato e incomum, que chega a ser decepcionante, mesmo que o título seja o maior spoiler que você pode pegar da obra.

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