Os anti-heróis e as histórias adultas ditaram o tom da revolução dos seriados da TV americana nas ultimas décadas, mas com o tempo a “nova era de ouro” da televisão passou a adentrar com força em outros territórios, os de gênero, até então quase exclusivos do cinema. Tanto que, hoje em dia, dois dos maiores sucessos televisivos pertencem a tradições nos quais o cinema detinha monopólio, como a fantasia épica – é o caso de Game of Thrones, da HBO – ou o terror de zumbis com The Walking Dead, do canal AMC.

No caso de The Walking Dead, sua inspiração é claramente cinematográfica. A série é descendente direta da obra do diretor americano George A. Romero, que efetivamente inaugurou o gênero zumbi da forma como o conhecemos hoje com seu seminal filme de estreia, A Noite dos Mortos-Vivos (1968). Este pesadelo em preto-e-branco que chocou as plateias do fim dos anos 1960 tornou-se o farol para nortear a criação de Robert Kirkman, idealizador de The Walking Dead, primeiro nos quadrinhos.

Kirkman era roteirista de HQs e trabalhou na Marvel até se fixar na Image Comics, onde teve a ideia de publicar uma série sobre um grupo de sobreviventes vivendo num mundo apocalíptico dominado por mortos-vivos. Isso foi em 2003, e no cinema o mito do zumbi passava por uma ressurreição. Sucessos como Extermínio (2002), Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002) e Madrugada dos Mortos (2004) trouxeram de volta essas criaturas ao imaginário popular e, em alguns casos, até os reinventaram – os infectados de Extermínio, produção britânica do diretor Danny Boyle, não eram zumbis no sentido estrito do termo, mas se comportavam como tal e agora corriam em disparada atrás das suas vítimas, ao contrário dos desmortos lentos do passado.

Porém, Kirkman era um admirador irredutível dos zumbis à moda antiga, e na HQ de The Walking Dead ele seguiu à risca os mandamentos de George Romero. Em A Noite, mais perigosos que os mortos-vivos eram os seres humanos, incapazes de abandonar suas características mesquinhas e destrutivas para sobreviver à ameaça. Porém, no cinema nós nunca acompanhamos os mesmos personagens por muito tempo. Esse era o diferencial de The Walking Dead: ao longo das edições veríamos as mudanças ocorridas naqueles sobreviventes. Nós os veríamos ora tentando conservar a sua humanidade, ora regredindo ao estado mais básico de sobrevivência, o “cada um por si”. No fim das contas, quem seriam os “mortos que caminham”, os zumbis ou os personagens da série? Essa era a pergunta na mente dos leitores e que, agora, está presente na dos espectadores.

The Walking Dead aos poucos começou a fazer sucesso – a arte em preto-e-branco, a violência e o próprio ressurgimento do interesse do publico nos zumbis chamaram a atenção para a HQ. Logo se começou a cogitar uma adaptação para a TV, onde o formato episódico manteria o diferencial da série em quadrinhos. No final de 2009, a versão televisiva de The Walking Dead encontrou seu lar no AMC, que já estava consolidado como fonte de programação de qualidade após os sucessos de Mad Men, iniciada em 2007, e Breaking Bad, iniciada em 2008. O canal aprovou uma primeira temporada curta sob os cuidados de Frank Darabont, roteirista e diretor indicado ao Oscar por Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de Um Milagre (1999), adaptações de livros de Stephen King.

Por esses trabalhos ninguém diria, mas Darabont é um aficionado por terror e lutou para levar The Walking Dead das páginas para a TV. Poucos anos antes ele fez o magnífico exemplar do gênero O Nevoeiro (2007), também baseado numa história de King, e levou vários atores e membros da equipe técnica do filme para o seriado. Em maio de 2010 Darabont dirigiu o piloto de The Walking Dead, que é o melhor “filme” de zumbis desde Extermínio…

No início do fantástico episódio piloto vemos o oficial Rick Grimes (Andrew Lincoln), um patrulheiro da Georgia, sendo ferido no cumprimento do dever. Rick passa algumas semanas em coma e quando acorda, desperta para um pesadelo. O hospital está deserto, exceto pelos mortos-vivos presos atrás de uma porta – alguém rabiscou nesta porta “Não abra, mortos aqui dentro”. Ele encontra Morgan (Lennie James) e Duane (Adrian Kali Turner), pai e filho refugiados numa casa, e eles lhe explicam que, enquanto Rick esteve inconsciente, os mortos ressuscitaram, começaram a devorar os vivos e o mundo basicamente acabou. Rick então veste seu uniforme de xerife, pega umas armas e parte à procura da sua família.

Quando ele finalmente os encontra, sua esposa Lori (Sarah Wayne Callies) e filho Carl (Chandler Riggs) estão vivendo com um grupo de sobreviventes e sob os cuidados do ex-parceiro de Rick, Shane (Jon Bernthal). Achando que Rick estivesse morto, Lori e Shane iniciaram um relacionamento, cujas repercussões explodem na segunda temporada… Antes disso, porém, Rick se torna o líder do grupo e resolve partir com eles em busca de ajuda. Mas o único cientista que eles encontram, refugiado no Centro de Controle de Doenças de Atlanta, revela ao protagonista um segredo sobre a infecção zumbi no final da primeira temporada, um segredo capaz de mudar para sempre as vidas de todos.

The Walking Dead foi um enorme sucesso de audiência desde sua estreia, no Dia das Bruxas de 2010 – e essa audiência só aumentou, hoje em dia é o seriado de maior sucesso da história dos canais a cabo americanos. Mesmo assim, a vida por trás das câmeras foi quase tão tumultuada quanto à história em frente delas. No início da produção da segunda temporada, Frank Darabont foi sumariamente demitido pelo AMC. Até hoje não se sabe direito o que aconteceu: alguns dizem que Darabont, acostumado ao trabalho no cinema, nunca conseguiu se adaptar ao ritmo mais rápido e intenso da televisão; outros dizem que sua demissão se deveu a uma disputa por maior orçamento para a série…

Em todo caso, o roteirista e produtor Glen Mazarra o substituiu e coordenou a produção durante a segunda e a terceira temporadas. No segundo ano o grupo se refugia na fazenda de Hershel (Scott Wilson), completando a homenagem a A Noite dos Mortos-Vivos, que também se passa numa fazenda. Os primeiros episódios deste ano foram fracos e meio monótonos, talvez refletindo a saída de Darabont e a turbulência nos bastidores da série. Porém a segunda metade da temporada se recuperou com força e muito suspense.

Já o terceiro ano foi a temporada da prisão – com os heróis se refugiando numa penitenciária abandonada – e do conflito com o Governador (David Morrisey), o maior vilão do seriado. O Governador administra uma comunidade próxima da prisão, onde os zumbis não adentram e as pessoas vivem em relativa normalidade. Mas ele é também um homem instável que entra em confronto com Rick e seu grupo. Foi uma temporada mais sólida que as anteriores, boa do início ao fim, e que se livrou de alguns personagens problemáticos e introduziu outros, mais interessantes – a mais marcante foi Michonne (Danai Gurira), cuja arma preferida para matar zumbis é a espada.

A partir da quarta temporada, o novo showrunner da série passou a ser Scott M. Gimple e a equipe do seriado conseguiu manter a tensão, trazendo de volta o Governador para seu confronto definitivo com Rick. E com novos episódios sendo exibidos, fica claro que The Walking Dead conseguiu superar os problemas e exibir uma qualidade cada vez maior.

Hoje em dia a série já segue um caminho independente do seu material-fonte, apenas de vez em quando tomando emprestadas algumas ideias das HQs. Porém, em ambas as encarnações, The Walking Dead é sinônimo de sucesso – a audiência na TV continua expressiva e, nos quadrinhos, em determinados meses a publicação vende mais do que os heróis pesos-pesados das editoras Marvel e DC. A saga dos sobreviventes do apocalipse zumbi parece longe de acabar: o produtor-executivo David Alpert afirmou que a produção possui ideias, tanto das HQs como próprias, para chegar até as temporadas 11 e 12! Embora essa declaração pareça exagerada, não se pode subestimar o apetite do publico por histórias de zumbis, e o seriado vem conseguindo aliar cada vez mais a ação e o terror a momentos de genuíno drama humano que fazem valer a pena assistir. Zumbis andam devagar, mas de forma firme e contínua – The Walking Dead tropeçou algumas vezes, mas também conseguiu seguir no seu passo firme e inexorável, e apresentando uma “mordida” cada vez mais forte.

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