O nome Todd Solondz não raro é associado à misantropia; afinal, sua filmografia é marcada por personagens de uma contraditória classe média americana colocada à prova em dilemas tragicômicos e, quase sempre, sem final feliz. Assim como outro diretor-autor-comediante, Woody Allen, Solondz alimenta a inventividade de seus roteiros no cotidiano, mas dá um passo além quando pontua neles críticas sociais ácidas e um profundo desprezo pela hipocrisia.

Estreante no terreno dos longas com Fear, Anxiety & Depression (1989), é com seu segundo filme, Bem-vindo à casa de bonecas (Welcome to the dollhouse, 1995), que o diretor de New Jersey coloca o nome no mapa. A comédia dramática centrada na pré-adolescente brega, feia e gente boa Dawn Wiener (Heather Matarazzo) recebe prêmios em festivais como o de Berlim, o Independent Spirit e Sundance. Também entra instantaneamente para o hall de filmes cult essenciais a todo bom cinéfilo, ainda que nunca tenha alcançado a popularidade de longas independentes do mesmo ano, como Se7en – Os sete crimes capitais (Se7en, David Fincher) ou Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, Woody Allen).

Em Bem-vindo à casa de bonecas, as marcas do cinema de Solondz já estão bem cimentadas. Temos, por exemplo, uma protagonista injustiçada que não recebe nenhum tipo de recompensa do destino por ser uma boa pessoa. Pelo contrário: quanto mais a menina Dawn tenta ser gentil, mais ela é vítima de bullying e do desprezo da própria família, que só tem olhos para a bela e irritante filha mais nova, Missy (Daria Kalinina). Nas tentativas de se corromper e “dar a volta por cima”, tudo que Dawn recebe são mais problemas.

No universo da classe média abarcado por Solondz, não há espaço para boas intenções. Todas as dinâmicas são demarcadas por posições de dominância, seja na escola, com os colegas mais agressivos ou populares mostrando quem é que manda; seja em casa, ambiente de relações superficiais no qual a adequação aos moldes dos pais é mandatória, e a formação de caráter, opcional. Não por acaso, a iniciação “romântica” de Dawn se dá com um garoto agressivo de baixa renda, Brandon (Brendan Sexton Jr.), que demonstra sua atração por ela com ameaças de estupro. Ainda que num outro extremo, esse personagem acaba se mostrando como outra vítima das circunstâncias, ganhando uma multidimensionalidade que nos incomoda na medida em que se abrem brechas para nos identificarmos com ele.

EXPANDIDO AS ESTRUTURAS DO ROTEIRO

No filme seguinte de Solondz, Felicidade (Happiness, 1998), essas características narrativas atingem a primazia. O diretor, que também assina o roteiro, conduz uma história com múltiplos personagens, outra marca que ele desenvolve ao longo de sua filmografia. Assim, o longa foca na família formada pelas irmãs Joy (Jane Adams), Helen (Lara Finn Boyle) e Trish (Cynthia Stevenson), além do marido desta última, o pedófilo Bill (Dylan Baker), dos pais das mulheres, Mona e Lenny (Louise Lasser   e Ben Gazzara), e o vizinho de Helen, Allen (Philip Seymour Hoffman).

Visualmente, Felicidade não tem características marcantes para além da fotografia de tons pastel (ou, para casar com a vibe do filme, tons desbotados). É na condução do roteiro que ele realmente atinge a genialidade. Por tocar em temas pesados como pedofilia e estupro, a comédia de humor negro chegou a ser recusada para exibição no festival de Sundance. A crítica também sentiu o incômodo com a obra na época de seu lançamento, o que não abafou a voz de defensores do porte do crítico Roger Ebert.

O ataque à hipocrisia da classe média, em especial dos valores norte-americanos acerca do sucesso, volta à tona nesse filme. Ao mesmo tempo, ele reforça uma inquietação ao colocar o espectador num jogo dúbio, a partir do qual detestamos os personagens na medida em que identificamos nossas próprias falhas neles: odiamos a passividade de Joy, o vazio de Helen, o jeito ardiloso de Trish, a mente perversa de Bill e a autopiedade de Allen, mas o roteiro (sempre ele), com o suporte de um elenco bem direcionado, nos faz ver o mundo a partir desses olhares imperfeitos. Em Bem-vindo à casa de bonecas e Felicidade, a moralidade vil dos adultos contrasta com a inocência das crianças, que amadurecem na medida em que aprendem a ser não autônomas, mas sim preparadas para serem inevitavelmente frustradas. De certa maneira, a construção os personagens infantis de Solondz dialoga com as criadas pelo escritor J.D. Salinger, mais conhecido pelo clássico da literatura “O apanhador no campo de centeio” e o livro de novelas “Franny & Zooey”.

O senso de determinismo é mais um foco das narrativas de Solondz, como bem vemos em Histórias proibidas (Storyteling, 2001) e Palíndromos (Palindromes, 2004). Ditada a norma de que viver é sofrer, o diretor encontra escape em experimentações narrativas. Começa pela ordenação de Histórias proibidas em dois blocos, “ficção” e “não ficção”, com histórias independentes. Em Palíndromos, a experimentação fica por conta dos ares de fábula para a história da menina Aviva, interpretada por nada menos que oito atores, homens e mulheres, das mais variadas raças e idades. Solondz também inicia as interconexões de sua filmografia, citando nesse filme personagens de Bem-vindo… Esses filmes de início de anos 2000 hoje ganhariam ares de problemáticos por questões de representação racial, mas, em termos de forma, resultaram em obras curiosas, embora não tão marcantes quanto seus predecessores.

Talvez na tentativa de retomar um pouco desse brilho, mas também para expandir o universo de sua obra, surge A vida durante a guerra (Life during wartime, 2009). Trata-se de uma continuação de Felicidade, ainda que com atores diferentes. Trish (a hoje oscarizada Allison Janney) toca a vida com seus três filhos e namora o pai da Dawn de Bem-vindo…, Harvey Weiner (Michael Lerner). O ex-dela, Bill (Ciarán Hinds), saiu da prisão após ser preso por abuso de menores. Timmy (Dylan Riley Snyder), o filho do meio de Trish com Bill, descobre a verdade sobre o pai, enquanto que o filho mais velho, Billy (Chris Marquette), tem um reencontro tenso com o ex-detento. Nesse meio tempo, Joy (Shirley Henderson) vive seus próprios dilemas amorosos e existenciais.

O resultado dessa mistura fica aquém dos filmes referenciados, mas tem momentos memoráveis e muito emocionais, como na cena da conversa entre Billy e o filho de Harvey. O desfecho de A vida durante a guerra que comprova que, para Solondz, o mundo está permanentemente mergulhado na melancolia – e que mesmo que possamos rir disso, nada muda o que ele é.

DE VOLTA À SIMPLICIDADE

O cinismo é utilizado mais claramente a serviço da comédia em Dark Horse (2011). Com um tema um pouco mais leve – sem menções a abuso sexual de menores ou masturbação, por exemplo –, a comédia dramática acompanha a relação entre o fracassado e imaturo Abe (Jordan Gelber) e a escritora depressiva Miranda (Selma Blair, reprisando a personagem que interpretou em Histórias Proibidas). Com coadjuvantes do peso de Mia Farrow e Christopher Walken e um roteiro simples, mas afiado e cáustico como sempre, Dark Horse conseguiu mais simpatia de críticos e público. Parte disso se dá porque não há nele as estripulias narrativas vistas nos filmes do diretor no início dos anos 2000. O final feliz, no entanto, continua sendo um item praticamente inexistente em seu cinema.

É o que bem comprova o último longa lançado por Solondz, Wiener Dog (2016), obra que melhor equilibra a pegada literária de condução do roteiro e a fácil fruição pelo espectador. Junto com Palíndromos, é também um filme no qual os aspectos visuais se destacam, a começar pela sequência em que o cão daschund (conhecido popularmente como salsicha, o wiener dog do título) deixa um rastro de fezes ao som da “clair de lune” de Claude Debussy. Os donos do animal são o casal Danny (Tracy Letts) e Dina (Julie Delpy) e o filho Remi (Keaton Nigel Cooke), que trazem novamente o microcosmo doentio de pais neuróticos e/ou omissos, e uma criança aprendendo sobre as agruras da vida.

Wiener Dog ressalta novamente as ideias obsessivas no cinema de Solondz: a noção de que somos determinados à corrupção moral, e que a vida adulta é formada basicamente pela reprodução de hábitos hipócritas que levam à dor e muito pouca reflexão real sobre a vida. Assim, vemos Dina superprotegendo Remi quando este pergunta sobre a castração da cadela e sobre a morte, inventando uma história absurda e levemente racista para explicar os dois tópicos, ao passo que Danny opta pelo insensível descarte do animal quando ela adoece. Por sorte, Dawn Wiener (agora interpretada por Greta Gerwig) ressurge no universo de Solondz como uma veterinária que sequestra o bichinho, que passa a ser o fio condutor de outras narrativas com personagens sem ligação entre si. A história centrada em Dave Schmerz (Danny DeVito) é a mais engraçada, e a da idosa Nana (Ellen Burstyn, excelente) figura como a mais amarga.

Ainda que nunca tenha ganhado a notoriedade de outros diretores focados em comédias dramáticas como Woody Allen e Noah Baumbach, Todd Solondz imprime ao seu cinema uma identidade própria tão bem demarcada quanto eles. Ao contrário deles, seus contos tragicômicos ainda encontram dificuldade de financiamento, o que torna sua filmografia também um trabalho de resistência artística mesmo quando consegue estrelas do calibre de Seymour Hoffman, Gerwig, Delpy, Walken ou Burstyn. Para seu próximo filme, Love Child, previsto para este ano, Solondz terá Penelope Cruz como principal nome, no papel de uma mãe de aspirante a estrela da Broadway que traça um plano macabro para assassinar o pai e se livrar do amante dela. Alguém duvida que o humor negro será o tom dessa nova empreitada?