Nem faz tanto tempo, mas é uma mentalidade tão remota que parece anterior ao Gênesis: até 1974, quando o sucesso massivo de O Poderoso Chefão: Parte II mostrou o potencial lucrativo de uma franquia, os filmes não ganhavam sequências. As poucas exceções – as várias produções envolvendo os monstros da Universal, na década de 1930, ou a série 007, a partir dos anos 60 – eram mais filmes autônomos, que usavam os mesmos personagens como gancho, do que uma narrativa contínua, como costuma acontecer hoje.

A lógica, pensavam os executivos, era que o público iria se sentir excluído caso não tivesse visto o primeiro filme – o que era uma preocupação justa, mas afinal irrelevante, diante do surgimento dos blockbusters e da formação desse repertório comum chamado cultura pop. Quando outras formas de se inteirar sobre uma franquia vieram – videolocadoras, internet, DVDs piratas, streaming –, o temor na indústria passou a ser o oposto do dos executivos de 1974: o capital mais valioso para um estúdio, hoje, são personagens que conquistaram familiaridade junto à platéia, e que podem ser repisados – e revirados à exaustão – em sequências e spinoffs cada vez mais esdrúxulos e injustificados.

Felizmente, há também gloriosas exceções: as continuações que desenvolvem e ampliam as qualidades de seus antecessores (e às vezes as inventam), a tal ponto que passamos a abraçar uma franquia por causa do efeito duradouro causado por uma grande sequência. Portanto, no Top 5 de hoje, cinco produções que não só ombreiam, mas superam as obras que lhes deram origem.

velozes e furiosos 7 manaus5. Velozes e Furiosos 5: Operação Rio (2011)
A sequência que reacende a chama

Hoje a franquia mais longa e bem-sucedida na história do cinema de ação – já estamos no oitavo filme, e as bilheterias só crescem –, Velozes e Furiosos andava derrapando feio em 2011 (desculpem). O quarto episódio, lançado em 2009, era a repetição cansada de um fórmula que só havia funcionado mesmo no primeiro filme, em 2001, e ninguém mais parecia dar a menor bola para as tretas motorizadas de Dominic (Vin Diesel) e Brian (Paul Walker).

Mas Velozes e Furiosos 5: Operação Rio mostrou com se faz. Com o talentoso diretor Justin Lin (que depois também daria uma força para o reboot de Star Trek, com a ótima sequência Sem Fronteiras) ao volante, um cenário irresistível (o Rio), uma esperta mudança de foco (do submundo das corridas para uma história de roubo) e, principalmente, um novo piloto transbordando carisma na jogada (Dwayne “The Rock” Johnson, a caminho do superestrelato), o quinto capítulo da série prova que uma sequência, quando boa o bastante, consegue até reinventar uma franquia que já se acreditava estar girando em ponto morto (pronto, parei).

4. Toy Story 3 (2010)
A sequência que melhora o que já parecia perfeito

Toy Story 3 está num patamar rarefeito e idealizado onde as sequências gostariam de estar – e onde talvez só O Senhor dos Anéis esteja: a das continuações que só melhoram, uma após a outra – e melhoram não algo mediano ou bonzinho, mas que já era excelente na origem. No caso, a saga dos bonecos Woody e Buzz, que começou em 1995 com um filme que mudou os rumos do cinema, ao lançar a era das animações em CGI. Quatro anos depois, Toy Story 2 (1999) expandiria as premissas do primeiro e conseguiria ser ainda mais pungente em sua meditação sobre a ruptura de laços – feitos que já seriam privilégio de bem poucas sequências.

Ainda assim, nada havia nos preparado para o turbilhão emocional que é Toy Story 3. Indo a alturas surpreendentes de maturidade, pungência e até tragédia – o que é aquele clímax? –, o terceiro (e, por enquanto, último) capítulo na saga dos brinquedos não precisa caber em rótulos de animação, sequência ou trilogia – é grande cinema, com uma verdade emocional que os anteriores, em toda a sua considerável grandeza, ainda não tinham sido capazes de comunicar.

3. Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008)
A sequência que eleva um bom filme a um evento cultural

Eu poderia usar O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991) aqui, já que a obra de James Cameron antecipa muitas das qualidades que fizeram Batman: O Cavaleiro das Trevas ser tão celebrado. Mas a verdade é que o impacto da segunda incursão de Christopher Nolan pela saga do Homem-Morcego foi muito maior, e em vários sentidos.

Ali estava a sequência de um sucesso cult, como Exterminador 2 também o fora. Ali estava um filme muito influente dentro de seu gênero – Exterminador, nesse sentido, praticamente inaugura a era do CGI no cinema de ação, que levaria a Matrix (1999) e a tantos outros. E, principalmente, ali estava um conjunto exemplar de cenas e frases icônicas – “Why so serious?” contra “Hasta La vista, baby”, para ficar só em dois exemplos.

Mas Cavaleiro eleva esses trunfos a uma escala muito maior, e impensada, porque inesperada – o mundo em 2008 não era esse playground de super-heróis, Homem-Aranha e X-Men vinham conquistando espaço aos poucos, e Batman era a sequência de um sucesso modesto por um diretor ainda pouco conhecido – Cameron, pelo menos, já era o campeão de Aliens: O Resgate (1986). E o modo como a cultura pop e o próprio cinema foram atropelados pela obra de Nolan é algo inédito: pela primeira vez, um filme baseado em quadrinhos, concebido como um grande espetáculo, provou ser também uma reflexão poderosa sobre a condição humana; pela primeira vez, um filme com esse perfil chegava ao Oscar – mérito da interpretação assombrosa de Heath Ledger como o Coringa; e não sei de outro filme, sozinho, tão influente na consolidação dos quadrinhos como matéria-prima para Hollywood, o que, para o bem ou para o mal, alterou a paisagem cinematográfica de forma irreversível. Batman: O Cavaleiro das Trevas é tudo isso.


2. Star Wars: O Império Contra-Ataca (1980)
A sequência que criou a febre das sequências

O Poderoso Chefão: Parte II pode ter sido o começo desse fenômeno das sequências – mas o filme que as tornou uma necessidade tem de ser O Império Contra-Ataca. Antes de Indiana Jones, Rocky, Rambo, De Volta para o Futuro, Os Caça-Fantasmas e todos os nomes familiares com os quais passamos a nos habituar, estava o segundo filme da saga de Luke Skywalker – hoje ajustado para o quinto capítulo de uma série que já está caminhando para sua nona investida, sem contar os spin-offs.

Se o primeiro Star Wars é um marco na inovação dos efeitos especiais, do marketing através de brinquedos e da renovação do cinema de aventura, Império mostrou como expandir e aprofundar os melhores elementos da franquia – e, no processo, firmar seu nome de vez na memória do espectador. Tudo era melhor: o roteiro, os cenários, os efeitos, as atuações. George Lucas não mediu esforços para aperfeiçoar a sua criação: botou um diretor mais experiente, para produzir um filme mais maduro e homogêneo (Irvin Kershner) – mesmo que os dois tivessem uma relação profissional mais adequada a cães e gatos –, e foi inflexível na obtenção dos melhores técnicos e equipamentos (com dinheiro do próprio bolso, por sinal). Acima de tudo, ele não teve medo de desafiar expectativas: bancou o tom sombrio do roteiro de Leigh Brackett e Lawrence Kasdan, que termina com um dos personagens principais com a mão decepada, o outro congelado, e o vilão mais poderoso e triunfal do que nunca – e intuiu, com toda a razão, que isso só iria aumentar a empatia da plateia.

Em tudo o que era possível melhorar a matriz, O Império Contra-Ataca o fez. A bilheteria recorde e a entrada maciça de seus personagens no panteão pop só provaram o quanto os instintos de Lucas estavam certos. E estabelecer uma franquia de sucesso passou a ser a nova galinha dos ovos de ouro em Hollywood – um mundo em que ainda vivemos, aliás

1. Blade Runner 2049 (2017)
A sequência que faz o impossível: desbancar um clássico absoluto do cinema

Polêmica!

Geralmente, uma boa sequência é aquela que pega um início ruim e o melhora, ou então a que consegue superar algo que, em si, já era bom. Tivemos exemplos de ambos ao longo dessa lista. Mas não conheço nenhuma sequência que opere na região superlativa de Blade Runner 2049: um filme que expande, enriquece e aprofunda incomensuravelmente as qualidades já extraordinárias da matriz, que costura à perfeição todas as mudanças e inovações, e que faz o impensável: ser talvez ainda mais perfeita do que o filme que lhe deu origem – que vem a ser um daqueles clássicos incontestáveis do cinema.

Incrivelmente, Blade Runner 2049, graças à visão e empenho de seu diretor, o canadense Denis Villeneuve, faz todas essas coisas. Sou admirador de longa data da obra-prima de Ridley Scott, uma das ficções mais originais e intrigantes do cinema, e não pude deixar de ficar estatelado com a qualidade do que Villeneuve fez. A fidelidade ao universo do filme original é absoluta, mas não canina – Villeneuve não está interessado em fanservice, e sim em elaborar tudo o que fazia da obra de Scott especial. Os novos elementos – entre os quais os personagens fabulosos de Ryan Gosling, Jared Leto e Ana de Armas – têm plena função dentro da narrativa estabelecida no clássico de 1982, enquanto os antigos – Harrison Ford como Rick Deckard, sim! – soam mais pungentes e sombrios do que nunca. Em suma, algo virtualmente inédito no cinema aconteceu, e somos gratos por isso ter se dado em 2017.

Pensei em incluir outros dois filmes aqui: Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater, pode ser melhor do que o antecessor, Antes do Amanhecer (1995), mas não enfrenta o mesmo peso da responsabilidade, nem é uma conquista tão absoluta quanto o feito de Villeneuve com 2049.

E Mad Max: Estrada da Fúria (2015) é um triunfo comparável, mas está mais para uma reinvenção, ou reboot, da saga do guerreiro das estradas, do que para a continuação direta proposta pelo canadense. Blade Runner 2049 é especial: uma categoria à parte, própria.

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