Outro dia conversando com um amigo, ele relatou que a filha de 3 anos adorava Branca de Neve e os Sete Anões, mas sentia medo do desenho animado por um único motivo: A Bruxa. Mais do que aterrorizar apenas as crianças, as bruxas sempre estiveram presentes no nosso imaginário popular, aterrorizando os nossos maiores pesadelos e medos. Acredito que a atração e medo sempre caminham juntos, o que talvez explique os motivos de uma figura sinistra como a Bruxa, mexer com tanta facilidade, com nossos fascínios e temores ao mesmo tempo.

O fato de imaginarmos uma mulher que lida com o oculto, magia negra, adora o Diabo (a visão clássica e conservadora da personagem) e lida com as energias da natureza (a versão mais moderna voltada para as Wiccas), mexem com nossas crenças e superstições pessoais, de saber que estamos perto do desconhecido e sobrenatural, frente a qual nossa racionalidade não serve para justificar nossa existência. Um ponto interessante em observar no universo de terror, é que a Bruxa é a principal figura feminina. Nele, temos mulheres que precisam se ajustar ao mundo misógino e a magia ganha a representação simbólica não apenas da posição da sua liderança como do seu empoderamento frente a este meio.

Na minha formação cinéfila tive o privilégio de assistir no cinema, dois filmes fundamentais em desenvolver o mito das bruxas: A Bruxa de Blair (1999) e o recente A Bruxa (2016). Sem contar as incontáveis vezes que me divertir de frente para tela de TV com a bela e desastrada Elvira – A Rainha das Trevas e A Bruxa do 71 enquanto assistia respectivamente, a Sessão da Tarde e Chaves – que mostra que estas figuras demoníacas também eram “pessoas do bem” e nos divertiam com suas situações. Só que este é um Especial de Horror, correto? Precisamos indicar filmes aterrorizantes e não os mais fofinhos. Logo, nada mais justo que no Halloween, conhecido tradicionalmente como o Dia das Bruxas, fazer uma lista com os filmes mais assustadores sobre elas, obras que inclusive “tocaram” bastante terror na minha mente antes de dormir, gerando aquela fixação em olhar para janela e conferir se não tinha nenhuma bruxa numa vassoura me observando. Por isso, boa diversão e sustos neste Top 7 Melhores Filmes aterrorizantes de Bruxa.


A Bruxa do Horror Gótico – A Maldição do Demônio (1960)

Começamos este ensejo assustador sobre elas, com este clássico em preto e branco, filme de estreia do Mestre Mario Bava. Depois de ser queimada na fogueira juntamente com o seu servo, Asa (a bela Barbara Steele), uma bruxa vingativa, retorna 200 anos depois para espalhar terror nos descendentes da sua família que a traíram. A Maldição do Demônio é sem dúvida o grande expoente do horror gótico italiano pelo texto repleto de elementos do gênero – bruxaria, inquisição, superstição e rituais.

A cena inicial é incrível, de mexer com nossos calafrios ao acompanharmos Asa sendo condenada à morte e tendo o seu rosto cravado por uma máscara de pregos. Tem várias cenas deslumbrantes e a presença onipresente de Steele que ficaria marcada como a grande Scream Queen do cinema de horror. No geral, A Máscara do Demônio é um magistral conto de horror sobrenatural, com Bava abusando da sofisticação visual barroca. Um preto e branco de clima surreal bruxuleante.


A Bruxa do Folclore Europeu – Viy – O Espírito do Mal (1967)

Nem só de Whisky, Comunismo e Guerra Fria vive a terra de Putin. Dirigido pela dupla Konstantin Ershov e Georgi Kropachyov, esta produção russa é baseado no conto folclórico escrito por Nikolai Gogol – que serviu de inspiração também para o filme de Bava. Nele, um seminarista está retornando para casa quando se perde e acaba pedindo abrigo na casa de uma velha senhora, uma Bruxa na realidade. Depois de ser espancada pelo seminarista, ela volta na forma de uma bela moça para se vingar do seu algoz evocando o demônio Viy.

Apesar de não ter envelhecido muito bem, em virtude dos efeitos e qualidades técnicas retrógrados, Viy é ousado tanto pela sua estética visual como pelos elementos satânicos – as criaturas são realmente impressionantes, ainda mais o espírito que dá nome ao título do filme. A cena de vingança da bruxa na terceira noite é espetacular: todo o cenário é captado em preto e branco – as forças das trevas inundam a tela – enquanto o seminarista é filmado em cores, tudo dentro de uma câmera que gira 360 º. Viy é um casamento perfeito entre exuberância e horror.


A Bruxa do Subúrbio Americano – Estação das Bruxas (1972)

Logo depois de lançar a Noite dos Mortos-Vivos (1968), George Romero voltou ao gênero fantástico com um filme de bruxas. Joan Mitchell é uma mulher de classe média alta, casada, que sofre com seu marido opressivo e ausente. Ela começa a ter pesadelos nos quais é caçada por uma figura demoníaca. Os seus únicos momentos de relaxamento são as reuniões com uma moradora das redondezas que é praticamente de wicca.

Estação das Bruxas funciona como a liberação feminina e emancipação da mulher, que utiliza a figura da bruxa para representar a alegoria da alienação mental enraizada nos subúrbios americanos.  Mesmo valorizando a atmosfera de horror psicológico, Romero cria momentos aterrorizantes que são apresentados nos sonhos sinistros da protagonista.


A Bruxa do Horror Tétrico e Visual – Suspiria (1977)

Considero Suspiria a grande obra-prima de Dario Argento. Para os fãs de bruxa, temos o filme obrigatório para se assistir. Uma estudante de balé (a bela Jessica Harper) vai para uma elegante academia de balé e, aos poucos, nota que a escola é na verdade uma fachada para um mundo da bruxaria. Aqui o mundo tétrico das cores fortes de Argento ajuda no clima de mistério, sufocante e assustador. É praticamente um fetiche pelas imagens que explora a violência dentro de um conto macabro.

A figura da bruxa Mater Suspiriorium, uma das três mães das trevas, é criada de forma hipnótica e genial. Não é à toa que o Status sobrenatural faz um belo par romântico com a figura bruxuleada que temos no nosso imaginário. Serviu de inspiração para vários trabalhos, incluindo Cisne Negro (2010) e Demônio de Neon (2016). Típico filme para ver as 2 da manhã – horário macabro – em uma madrugada chuvosa e com todas as luzes apagadas.


A Bruxa do Cinema B de Horror – Superstição (1982)

Antes de conhecer Suspiria, este pequeno filme de horror oitentista me gerou vários pesadelos com sua bruxa maléfica e violenta que não poupava nem criança do seu itinerário de vingança. Uma família se muda para um casarão no interior ao lado de um grande lago. Não demoram a descobrir que nele ocorreu a execução por afogamento de uma bruxa, 300 anos antes, e ela está de volta para concretizar sua vingança.

Dirigido por James W.Roberson –  seu único filme na direção – esta produção B é surpreendemente assustadora: ótima atmosfera, bons sustos e uma magistral trilha instrumental que lembra bastante o cinema italiano de horror da década de 70. Por sinal, Roberson presta um belo tributo a Dario Argento, criando um dos filmes mais assustadores de bruxas, graças a ambientação de horror e olhar pessimista. No geral Superstição é um daqueles que faz parte do seleto grupo da época de ouro das videolocadoras “filmes esquecidos que mofavam nas prateleiras, mas tinham capinha chibata”. Merece ser redescoberto.


A Bruxa do Humor Negro – As Bruxas de Eastwick (1987)

Mais do que reinventar o cinema de ação com o novo Mad Max e ser lembrado pelos filmes da franquia, George Miller dirigiu essa célebre obra sobre bruxas com toques de humor negro assustadores. O elenco por si só já vale o ingresso: Michele Pfeiffer, Cher, Susan Sarandon e Jack Nicholson, este no papel do tinhoso em carne humana. Alexandra Medford, Jane e Sukie são três mulheres que vivem entediadas, na cidade de Nova Inglaterra. Esta rotina é abalada com a chegada de Daryl Van Horne que vai a satisfazer os desejos das três e as iniciar no mundo da magia.

Ainda que não abuse do terror puro, mesclando-o com o humor negro, tem cenas horripilantes como da histérica esposa vivida por Verônica Cartwright desanda a vomitar a torto e a direito e o marido resolve a “liberar” do sofrimento. Me gerou por alguns meses imaginações nada adequadas durante as refeições alimentares. As Bruxas de Eastwick não foge de ser uma fábula sobre a repressão sexual americana com vários elementos góticos do mundo das bruxas.


A Bruxa do Feitiço – Arraste-me Para o Inferno (2009)

Depois de se aventurar pelo mundo dos super-heróis com a saga do Homem-Aranha, Sam Raimi retorna as raízes do cinema trash de horror que ajudou a fomentar com o clássico Evil Dead (1981), neste divertido conto horripilante. Tudo bem que a produção não é totalmente centrada em bruxaria, e é mais voltada ao gênero de espírito demoníaco, porém o diretor – que presta uma bela homenagem ao cinema de horror da década de 80 – cria uma das bruxas mais arrepiante deste século: a idosa cigana Sylvia Ganush.

Depois de recusar a dar empréstimo no banco onde trabalha para uma idosa, Christine Brown, recebe um feitiço de maldição da referida, na qual será atormentada durante três dias por um espírito maligno antes de ser levada para o inferno. Arraste-me Para o Inferno é diversão do início ao fim, zoando o público em certos momentos e causando arrepios em outros. Daqueles filmes para gente lembrar que nunca se deve brincar com o povo cigano, ainda mais com uma bruxa idosa.