A abertura de Toque de Mestre parece anunciar um suspense com a presença de um personagem incomum, visto enquanto acompanhamos seu percurso de um depósito a um caminhão e, depois, em detalhes que percorrem todo seu “corpo”, enquanto os créditos surgem ao som de uma trilha instigante: um piano. Porém, o que poderia ser um thriller diferente e enérgico acaba sendo um mero exercício de gênero e estilo, que é prejudicado por um roteiro que, quanto mais se pensa sobre ele, menos sentido faz.

Tom Selznick (Elijah Wood, o Frodo de O Senhor dos Anéis) é um pianista magistral, que retorna a Chicago para uma apresentação especial, cinco anos depois de ter se afastado dos palcos por travar durante seu último concerto, e assim se tornar motivo de chacota. Como se não bastassem o medo, o nervosismo e a pressão imposta pelo seu retorno, organizado pela sua esposa Emma (Kerry Bishé), uma atriz hollywoodiana célebre, Selznick se vê numa situação muito mais assustadora quando, no começo da apresentação, ele descobre, através de anotações em sua partitura, ser o alvo de um atirador (John Cusack), que ameaça matá-lo caso ele erre nem que seja apenas uma nota de uma música considerada “intocável”, composta pelo falecido mestre do pianista.

A fórmula é, basicamente, a mesma de filmes como Por Um Fio, de Joel Schumacher, ao manter o protagonista diante do piano enquanto conversa com o atirador através de um fone e tenta barganhar sua salvação. Na direção, o espanhol Eugenio Mira consegue manter um bom ritmo de suspense até certo ponto, quando o roteiro de Damien Chandelle sabota a obra apostando em clichês e irracionalidades, levando a um terceiro ato problemático e a um final insatisfatório. Assim, surgem elementos como um assistente do atirador que certamente garantiria seu lugar em listas de auxiliares mais incompetentes do cinema; um casal de amigos da esposa de Selznick, inserido como um alívio cômico forçado que protagoniza alguns dos momentos mais constrangedores do filme (além de atuações risíveis); e uma série de diálogos expositivos sem fim. Tudo isso leva a um desfecho cheio de furos, como a motivação do assassino e seu plano. Por exemplo, como ele poderia ter planejado tudo durante três anos se nem ao menos sabia que Selznick voltaria aos palcos?

Apesar disso, Mira pelo menos consegue apresentar planos elegantes e soluções estilísticas interessantes em certos momentos, como o uso do vermelho e dourado sempre realçados, o raccord que transforma um caco de espelho em um arco de violoncelo e uma cena, particularmente interessante, em que duas ações paralelas ocorrem no que pensamos se tratar de um mesmo plano, até sermos surpreendidos por um zoom in que revela que o que se via era uma tela dividida. Embora haja um uso excessivo de ângulos inclinados para enfatizar a situação de urgência do protagonista, não há como negar que cada quadro das cenas do concerto é meticulosamente composto e eficiente, até por conta do trabalho de fotografia de Unax Medina.

O trabalho também apresenta atuações eficientes: na pele do pianista amedrontado, Elijah Wood traz medo e fragilidade necessários ao papel, além de poder mostrar parte de seus talentos ao piano – sim, é ele mesmo quem toca em algumas cenas. Já John Cusack consegue imprimir frieza o suficiente com sua voz para aterrorizar o outro, pelo menos até o momento em que entra fisicamente em cena e vai perdendo cada vez mais força. E se comentei no início que o piano seria um outro personagem, isso se dá por conta da música de Victor Reyes, que conduz bem as ações dos outros dois.

Assim, em meio a tantos méritos que podem ser pontuados, é uma pena que mesmo assim Toque de Mestre se perca por conta das decisões estúpidas do seu roteiro, que transforma o que poderia ser um bom suspense em uma experiência monótona e aborrecida, ao optar por abandonar toda e qualquer coerência. Toque de Mestre pode não ser um filme de todo ruim, mas é apenas uma obra mediana com momentos inspirados de execução técnica, um desfecho frustrante e uma sensação de mais do mesmo.

toque de mestre elijah wood

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