Em Twin Peaks, assim como na maioria dos trabalhos de David Lynch, quase sempre a imaginação e a visão do diretor tomam precedência sobre os aspectos, digamos, mais “convencionais” de uma narrativa. Nem sempre o evento A leva ao B que leva ao C e assim por diante. Nesta Parte 11, acontecem muitas coisas esquisitas. A mais significativa delas explica, de certa forma, a filosofia e a abordagem de Lynch. Vimos no episódio anterior que dois mafiosos estavam a fim de acabar com um dos personagens. Mas neste, um deles desiste do assassinato por causa… De um sonho que teve. E por causa disso, por não matar e seguir sua intuição, os benefícios para ele e alguns outros personagens são significativos. E de quebra, esse momento ainda diverte o espectador por fazer uma referência bem humorada ao final do sombrio Se7en (1995), dirigido por outro David, o Fincher.

O episódio também trouxe outros eventos de destaque. Uma briga entre Becky e seu marido revela a dinâmica familiar entre ela, a sua mãe Shelley e seu pai Bobby. É um momento no qual a atuação sutil e muito boa de Dana Ashbrook revela a evolução de Bobby da série original até agora. No espaço de poucos minutos, ele passa de pai companheiro a marido arrependido, e a policial seguro e confiante.

Em Buckhorn, Gordon, Albert, Tammy e Diane vão até o local descrito pelo prisioneiro Hastings, e o nosso bom e velho diretor regional surdo do FBI tem uma visão… De alguma coisa. Um vórtice no espaço-tempo. Diane também vê algo. Inicialmente com uma atmosfera de terror, a cena se encerra com um momento de humor negro. A progressão é quase como a de um sonho: Começa de um jeito, termina de outro. Embora seja menos maluco que alguns episódios anteriores, esta Parte 11 de Twin Peaks mantém-se firme na sua lógica interna, até o fato de às vezes os acontecimentos não terem lógica. Mas têm consistência interna. A consistência de um sonho. E sonhos, para Lynch, são tão poderosos que às vezes salvam vidas.

Considerações sobre o chihuahua mexicano:

  • No mapa do policial Hawk, milho (o alimento das criaturas do Black Lodge) mais fogo leva a um fogo preto. Olha aí a consistência de novo, com o retorno de elementos da série antiga e do filme. E o que será esse fogo preto?
  • A Shelley continua gostando dos caras maus… Sério, o olhar do Bobby naquele momento é de cortar o coração.
  • A mulher apressada buzinando sem parar é uma figura digna de pesadelos.
  • Diane é sempre mostrada à parte do grupo, separada. A personagem, até agora, é imprevisível e nem um pouco próxima do que os fãs imaginaram por anos. Acho isso bom.
  • Rodney Mitchum diz: “Essa torta de cereja é muito boa!”. Dougie responde: “Muito boa…”. Mais um momento de cortar o coração.