Quando pensam em David Lynch, a maioria das pessoas lembra imediatamente da esquisitice, das cenas que remetem a sonhos e à loucura particular do cineasta. Nem todo mundo lembra, por exemplo, das vezes em que ele fez as plateias de cinema chorar litros de água salgada, com seus dramas muito humanos O Homem Elefante (1980) e A História Real (1999). Pois bem, para quem se lembra com carinho de ambos os filmes, a Parte 15 da nova Twin Peaks trouxe de volta algumas das características do Lynch humanista, com duas cenas de cortar o coração, uma no começo e outra no fim do episódio.

Na primeira, Nadine anda uma longa distancia a pé – remetendo ao velhinho Alvin de A História Real? – e com uma pá dourada do Jakoby na mão. Ela libera o Big Ed para ir, enfim, atrás do grande amor da sua vida, a Norma, um dos relacionamentos mais tocantes da série original. E Ed vai, Lynch nos mantém em suspense por longos momentos, mas no fim as rugas nos rostos dos atores Everett McGill e Peggy Lipton trazem uma ternura tão palpável à cena que já a torna um dos momentos favoritos da TV em 2017. E Lynch ainda sonoriza a cena com “I’ve Been Loving You Too Long” de Otis Redding. Assim fica difícil evitar o cisco no olho…

E perto do final do episódio, Margaret Lanterman, a Senhora do Tronco, finalmente se despede – “A morte não é o fim, apenas uma mudança”, cena duplamente mais potente porque a atriz Catherine E. Coulson estava mesmo às portas da morte quando a gravou. A despedida respeitosa de Hawk – “Adeus, Margaret” – e o xerife Truman tirando o seu chapéu são mais dois momentos de cortar o coração neste que foi o episódio mais tocante da nova temporada. Um relacionamento enfim floresce, mesmo que as pessoas envolvidas nele já estejam entrando no crepúsculo de suas vidas; no outro momento, penumbra e sobriedade. Luz e escuridão, as duas contradições que sempre alimentaram a arte de David Lynch.

No miolo do episódio tivemos mais esquisitices: Cooper do Mal visita a Loja de Conveniência e fala com Phillip Jeffries – o único jeito de trazer David Bowie de volta é transformá-lo numa… Torre da qual sai fumaça? Uma chaleira gigante? Além disso, um casal se desfaz: Gersten (Alicia Witt), que na velha série era uma menininha tocando piano para Leland dançar, presencia o suicídio de Steven (Caleb Landry Jones). E Dougie liga a TV, vê uma reprise de Crepúsculo dos Deuses (1950), ouve o nome “Gordon Cole”, e enfia um garfo na tomada. Isso significa que Cooper estará de volta no próximo? Num episódio com tantas cenas impressionantes e tocantes, a possibilidade do retorno do herói do seriado pode até ficar em segundo plano. É a imprevisibilidade de Twin Peaks.

Considerações sobre o chihuahua mexicano:

  • Cooper do Mal encontrou… Seu filho?
  • Audrey realmente começa a parecer presa… Seja lá onde estiver.
  • O bolo de chocolate que o Dougie come parece delicioso.

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