O tempo passa, o mundo gira e braços evoluem… São onze anos desde que David Lynch lançou seus últimos sonhos e pesadelos sobre nós com o filme Império dos Sonhos (2006), e em minha opinião, o cinema como um todo ficou mais pobre por causa disso. Então, alguma coisa aconteceu, uma fenda no espaço e no tempo direto para a mente dele se abriu e eis que Lynch voltou, junto com a sua mais famosa criação: Twin Peaks, a investida dele e do roteirista Mark Frost que provocou um breve abalo sísmico na TV no começo da década de 1990. Twin Peaks foi como um rockstar que brilhou muito e morreu cedo de overdose. A primeira temporada conquistou os Estados Unidos, e depois o mundo, ao propor a pergunta “Quem matou Laura Palmer?”, a popular e perfeita adolescente da cidadezinha do título. Já na segunda temporada a rede ABC exigiu que os criadores do programa resolvessem o mistério e depois disso a série patinou, tanto em termos de qualidade quanto de audiência, e foi cancelada em 1991. Lynch ainda fez um filme para cinema depois, explorando os últimos dias de Laura, e parecia que seria isso.

Mas Laura Palmer (interpretada por Sheryl Lee) prometeu ao agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan), dentro do Black Lodge, que o reencontraria em 25 anos…

Isso foi no episódio final da série em 1991. Com um pouquinho de atraso, Twin Peaks, Mark Frost e David Lynch estão de volta no evento televisivo do ano – desculpe, Game of Thrones – e os primeiros dois episódios do retorno são… Bem… Familiares e estranhos ao mesmo tempo. Assim como no começo dos anos 1990, não há nada igual. Não é igual nem mesmo à velha Twin Peaks.

Aliás, nem todos os acontecimentos se passam na boa e velha cidadezinha da torta de cereja e do assassinato de Laura Palmer. Os episódios fazem paradas em Nova York e Buckhorn, Dakota do Sul. Em Nova York, um rapaz (Ben Rosenfield) é encarregado de vigiar uma caixa de vidro. Ele diz a uma moça curiosa (Madeline Zahn) que “precisa esperar alguma coisa aparecer dentro dela”, e os dois ficam sentados, observando… Como nós, assistindo à TV. É a deixa para Lynch encenar mais um momento de terror marcante em sua carreira.

Em Buckhorn, um diretor de escola (Matthew Lilard) é acusado de assassinato – quem denuncia o crime, a vizinha da morta, é a testemunha mais distraída da História, um breve retorno ao humor bizarro da série. O que isso tem a ver com o resto? Só o tempo dirá…

Ainda na mesma cidade, Cooper aparece. Mas não é Cooper: 26 anos depois, finalmente temos uma resposta para o destino dele após o final da série. O verdadeiro Cooper nunca saiu do Black Lodge, quem saiu foi seu “duplo”, de personalidade violenta e assustadora. MacLachlan compõe um tipo interessante, ameaçador mesmo tendo que usar o mullet e penteado mais ridículos desde Anton Chigurh, e é interessante como a fotografia – do veterano colaborador de Lynch, Peter Deming – sempre escurece seus olhos.

Em meio a cenas em NY, Buckhorn e “Cooper do mal”, aparecem os pinheiros, a cachoeira, o Hotel Great Northern, a Roadhouse e a delegacia de Twin Peaks, e reencontramos alguns dos velhos personagens. É de onde vêm mais alguns (poucos) momentos de humor, com os irmãos Horne (Richard Beymer e David Patrick Kelly, agora com uma grande barba branca) e Lucy (Kimmy Robertson) e Andy (Harry Goaz), cujo penteado o deixa ainda mais boboca. A senhora Palmer (Grace Zabriskie) é mais uma personagem que assista a algo, no caso uma TV de verdade. E uma mensagem da Senhora do Tronco nos leva de volta à floresta – a aparição de Catherine E. Coulson é o momento mais tocante dos dois episódios, a atriz já estava doente quando gravou sua participação e aparece quase sem cabelo e com uma sonda nasal. Ela faleceu em 2015.

No Black Lodge, o verdadeiro Cooper reencontra Laura Palmer, e o que acontece com ele já coloca o retorno de Twin Peaks como obra de destaque do surrealismo cinematográfico/televisivo, um milagre visual e auditivo (o som desses episódios!) que só Lynch poderia criar. A magia da velha Twin Peaks se deu, em grande parte, devido ao casamento da imaginação do diretor com a narrativa, digamos, mais acessível, porém rica, divertida e inteligente, de Frost. A nova Twin Peaks parece mais Lynch que Frost, pelo menos neste início.

Afinal, ambos os episódios possuem momentos que remetem a obras do diretor. Um segmento em preto e branco e o “braço” remetem imediatamente a Eraserhead (1977). A investigação policial lembra momentos do começo de Cidade dos Sonhos (2001). E o clima de medo e pesadelo filmado remete tanto a Cidade quanto a Império dos Sonhos. E outros momentos não se parecem com nada que o espectador já tenha visto.

Em meio à cultura da nostalgia, vemos marcas e franquias do passado sendo trazidas de volta. Pelo menos neste começo, Lynch e Frost chutam para longe esse sentimento nostálgico – há palavrões, sangue e violência e quase nada da leveza da versão antiga; vemos pequenos segmentos de velhos e queridos personagens, mas não nos detemos muito neles. A nova Twin Peaks parece ser isso mesmo, um produto novo e que aparentemente não vai se curvar às exigências nostálgicas de um público desejoso de ver de novo o que já viu antes. A caixa de vidro, aquela da qual sentamos em frente, está de novo sob o comando de um maluco, e ele vai fazer o que lhe der na telha. É muito difícil prever para onde a série vai, ou mesmo se a jornada será satisfatória, por estes dois primeiros episódios. Mas para aqueles que, como eu, sentiram falta de David Lynch, do seu inconsciente, das suas visões, e da sua capacidade de coloca-los na tela, por hora só resta dizer: Bem-vindo de volta a Twin Peaks.

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