Quem acompanhou o Festival de Varilux deste ano, percebeu número considerável de filmes que traziam ótimos olhares sobre o a emancipação feminina em diferentes épocas – do presente ao passado – e, nas diversas esferas da sua vida pessoal, familiar, profissional e sexual. Um Instante de Amor, de Nicole Garcia, adaptado do best-seller de Milena Agus, é um bom exemplar disso: tecnicamente bem realizado, atuado, de material sólido instigante e sensível em estudar à psique e desejos femininos, ainda que se mostre preso as ferramentas narrativas clássicas que impedem o filme de sair do seu “quadrado” argumentativo e arriscar em explorar melhor, o universo em torno da sua história.

Nela, temos a grande Marion Cotillard como Gabrielle Rabascal, mulher de uma pequena aldeia na França rural da década de 40, época que o papel feminino era limitado a se dedicar ao marido e família. Apaixonada por um homem casado que a rejeita – seu professor – Gabrielle é vista com uma mulher instável emocionalmente pelos pais que a resolvem casá-la como forma de “segurar” seu ímpeto sexual devido seus desejos femininos. O escolhido é o pedreiro José (o ótimo Alex Brendemuhl) que trabalha para família Rabascal e na qual a moça não nutre qualquer amor e desejo, mesmo ele sendo devoto a ela. Sofrendo de dores renais, Gabrielle é internada em uma clínica, onde conhece André Sauvage (o astro francês Louis Garrel), combatente da segunda guerra à beira da morte, por quem ela se apaixona.

Um Instante de Amor segue praticamente a tradição dos melodramas clássicos, revestido por Garcia com camadas e olhares psicológicos instigantes em torno da sua protagonista, que fazem Gabrielle se aproximar das clássicas personagens femininas literárias como Emma Bovary de Madame Bovary de Gustave Flaubert e Anna Karenina de Liev Tolstói. Aqui a principalmente virtude da produção é seu olhar essencialmente feminino, de mostrar o desejo feminino em desacordo com uma Europa conservadora, onde expressar sentimentos e emoções eram vistos como inadequados, principalmente naquilo que tange à sexualidade.

A primeira meia hora do filme é bem complicada devido os convencionalismos do enredo e uma protagonista que não ganha dimensionamento humano por parte do roteiro, ainda que, a atuação intensa e intimista de Cotillard evite que o público se distancie dela. Mesmo com a entrega da atriz, o roteiro não permite nesta primeira fase uma fonte de entendimento sobre as motivações e frustrações emocionais de Gabrielle, mantendo-a de forma fria e distante do público. Em certos momentos, você até se questiona quais os motivos da frustração emocional que ela carrega na vida.

Passado esta parte inicial, Um Instante de Amor engrena quando Gabrielle chega ao local para fazer o tratamento e conhece André de Louis Garrel. Nesse momento, o longa mostra-se sensível no seu olhar feminino sobre as abnegações das emoções. A doença que dá o título original do filme (Mal de Pierres) serve como uma ótima metáfora para a repressão dos desejos femininos. Garcia também, aos poucos, explora a complexidade da protagonista ao mostrar uma mulher movida pela paixão ao invés do racional, ganhando um ótimo verniz psicanalítico.

Esse estudo de personagem mais voltado a reflexão emocional, permite o roteiro adaptado da diretora, faça discussões interessantes sobre a equação amor x loucura, onde o aspecto feminino ganha força através da patologia física de Gabrielle (sua doença renal), uma mulher que se vê em conflito por ter que domar (ou melhor repreender) sua essência feminina em virtude do sentimento de medo em expô-lo em uma sociedade que não permite o desejo.

Não à toa que estas dores físicas são minimizadas à medida que a personagem consegue expressar suas emoções e o seu amor para André, indicando o quanto o traço físico da doença é apenas uma consequência da sanidade mental da sua personagem – absorvida pela depressão e frustração – sendo condizente com revelação emocional surpreendente no ato final, um digno plot-twist, que mesmo soando como recurso manipulativo por parte do roteiro, não deixa de ser coerente com a proposta do longa.

E por mais feminino que o longa se manifeste, outro ponto de destaque é o tratamento coerente e complexo que ele dá a figura masculina de José, jamais vista como estereotipado, mostrando que suas atitudes com a esposa são de grande sensibilidade e comoção, o que difere do machismo da época. Assim como Gabrielle, José é outra figura que praticamente abnega de suas emoções, para fazer a esposa feliz. Neste ponto, o desconhecido ator espanhol Alex Brendemuhl mesmo sem ter a pompa dos seus dois companheiros franceses, entrega uma atuação humana e delicada como esposo, personagem que poderia ser facilmente rejeitado pelo público, porém, se torna relevante para a transformação da protagonista na parte final.

No aspecto técnico, a direção de Garcia é segura e aposta no estilo clássico, ainda que longe de ser ousada. Contudo, ela cria alguns planos bonitos ressaltados pela charmosa fotografia de Christophe Beaucarne, entregando um ótimo momento na belíssima cena de sexo entre dois personagens, filmada com sensualidade pela diretora.

Cotillard mais uma vez nos brinda com uma atuação intensa. Se há momentos que o filme realmente brilha, não é pela sua história em si e sim pela atriz que alavanca a produção a outro nível, permitindo que até a falta de complexidade da sua personagem no início, não se torne um grande problema no contexto da obra. Sua Gabrielle é construída com muita sutileza e entrega, próxima da Sandra de Dois Dias, Uma Noite. Já seu parceiro romântico, Louis Garrel tem um papel diferente dos personagens repletos de sexy appeal que até hoje realizou, se despindo da vaidade de astro, entregando um personagem fantasmagórico em razão da sua doença, que mesmo frágil, revela-se empático em suprir à carência de Gabrielle.

Um Instante de Amor é digno por oferecer um olhar humano e delicado sobre seu estudo de personagem em abordar a questão feminina da expressão do próprio desejo e sexualidade frente as imposições sociais da época que frequentemente tolhia estas necessidades. É uma pena que Garcia nunca dê um passo mais adiante para deixar um envolvimento emocional mais significativo para sua obra, tanto que o desenvolvimento mediano e razoavelmente interessante, jamais se torna fascinante e inquietante como seu desfecho.

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