É meio raro no cinema americano de hoje ver um romance entre pessoas de meia-idade. Uma Nova Chance para Amar é exatamente isso, afinal as rugas dos protagonistas Annette Bening e Ed Harris, dois veteranos de Hollywood, os diferenciam em meio aos tantos filmes para jovens vistos no mercado atual. Mas esse romance tem um diferencial, um elemento meio fantástico não muito diferente daquele do clássico Um Corpo que Cai (1958) de Alfred Hitchcock. É uma ideia sempre intrigante, mas não desenvolvida a contento, e o filme acaba parecendo um daqueles dramas independentes destinados a sair direto para o DVD – é possível que apenas a presença no elenco do recém-falecido Robin Williams, neste que foi um dos seus últimos trabalhos, tenha animado a distribuidora Califórnia Filmes a lança-lo nos cinemas brasileiros.

Na história, Annette Bening vive Nikki, uma mulher que tinha um relacionamento apaixonado e feliz com seu marido Garett, interpretado por Harris. O diretor Arie Posin e seu montador Matt Maddox já começam errando ao mostrar cenas desconexas no inicio do filme, que prejudicam nosso entendimento da situação e também a nossa conexão emocional com o dilema da protagonista. Vemos Nikki relembrando seu marido e então descobrimos que ele morreu durante uma viagem do casal ao México.

Cinco anos depois, reencontramos Nikki em Los Angeles onde trabalha, e ela acaba dando de cara com um homem idêntico ao seu falecido marido ao visitar o museu – numa exposição intitulada “Em busca do passado”, ainda por cima. Ela o procura e acaba descobrindo que ele se chama Tom, é professor de artes, e também é vivido por Harris. Os dois iniciam um romance, porém Nikki tenta esconder Tom de todos: do seu amigo Roger (Williams), que tem uma quedinha pela viúva, e da sua filha Summer (Jess Weixler). Mas, obviamente, chegará a hora dessa revelação, capaz de alterar a vida de todos.

Pena que essa revelação chegue tarde demais no filme e, mesmo assim, suas consequências não são tão bem exploradas. Mesmo curto, com apenas uma hora e meia de duração, Uma Nova Chance para Amar é bem monótono e nunca empolga, apesar dos esforços dos atores. Bening e Harris são dois atores incapazes de entregarem performances sem dedicação e entusiasmo, e aqui de novo eles fazem de tudo para que o material funcione. Bening, em especial, possui duas cenas nas quais ela nos relembra a grande atriz que sempre foi: a cena em que Nikki se emociona ao ficar cara a cara com Tom pela primeira vez, e a cena no museu, próxima ao final.

Os maiores problemas do filme se devem mesmo ao roteiro, que parte dessa premissa intrigante e já tão bem explorada por outros cineastas – no início do filme são vistos os pôsters de Um Corpo que Cai e Nostalgia (1983) de Andrei Tarkovsky, além disso, a cena de Uma Nova Chance para Amar na qual Nikki vê Tom pela primeira vez é uma homenagem obvia a Um Corpo que Cai. A premissa toca em questionamentos com os quais qualquer espectador consegue se identificar: Como se faz para deixar o passado realmente para trás? A partir de que ponto o amor começa a se transformar em obsessão, prejudicando as vidas das pessoas envolvidas? O personagem de Robin Williams – que, aliás, aparece no filme apenas por poucos minutos e não tem muito a fazer na história – menciona a ideia de que “todos temos um duplo em algum lugar”, outra noção intrigante jogada no roteiro.

Porém, o filme não se aprofunda nessas questões nem faz nada de interessante com nenhuma dessas ideias. Nikki não está nem um pouco interessada na louca noção da existência de alguém idêntico ao seu marido morto, ela só o quer de volta – e o fato dela parecer simpática e trágica aos olhos do espectador, ao invés de esquisita e desonesta, é mérito de Bening, porque o roteiro não cria realmente uma simpatia pela sua personagem. Já o personagem de Williams, quando vê Tom de longe, apenas dá de ombros. A única que reage de acordo à situação é Summer, mas a cena na qual ela descobre o namorado da sua mãe é encenada de maneira pobre, como se os atores estivessem num exercício de improvisação teatral.

Consequentemente, o filme parece novelesco e vazio, apesar dessas boas ideias presentes na sua construção. E Posin também se atrapalha novamente no final, com outro salto temporal que deixa muitas perguntas no ar e torna o desfecho anti-climático. Uma Nova Chance para Amar, na teoria, devia funcionar: tem dois grandes atores nos papeis principais, é um drama sobre (e para) pessoas adultas e por isso mesmo se destaca no cenário atual do cinema americano, e tem uma interessante premissa. Porém, só isso não é o suficiente para torna-lo um bom filme.

Nota: 3,0

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