Avaliar filmes enquanto crítico cinematográfico não é uma ciência exata. Alguns filmes sobem no conceito por conta do uso de aspectos técnicos, enquanto que outros se superam por sua temática. Há ainda aqueles com premissas tão instigantes que tem nisso a sua força. “Une vraie jeune fille” (1976), filme de estreia da diretora francesa Catherine Breillat se destaca justamente nesse último quesito. É uma obra que, sob certos aspectos, envelheceu mal, mas que possui pontos absurdamente atuais e que casam como uma luva com o fato de que só foi lançado várias décadas depois de produzido.

O longa é uma adaptação de um dos livros escritos por Breillat, “Le soupirail” (posteriormente editado com o mesmo título do filme). Nele, acompanhamos os devaneios de uma adolescente de 14 anos, Alice Bonnard (Charlotte Alexandra), que sai do internato para passar as férias de verão de 1963 com os pais no campo. Ali, ela experimenta tanto um despertar de sua sexualidade quanto dá continuidade a estranhos hábitos e fantasias.

A barreira entre o que é real e o imaginado é a primeira marca do filme. Alice realiza várias atividades corriqueiras como tomar sol, andar de bicicleta ou ir a um parque, e nesse entremeio, ficando a cargo do espectador identificar ou interpretar, em muitos momentos, o que de fato acontece na linha do tempo da vida da jovem e o que ela apenas fantasia. Dessa maneira, fotografia e som dão as pistas principais ao mudarem de forma mais ou menos demarcada quando, por exemplo, Alice imagina-se nua e envolta de arame farpado, entregue ao jovem trabalhador da serraria da família, Jim (Hiram Keller), o objeto de seu desejo.

Holden Caulfield de saias?

As questões inerentes do despertar sexual feminino são exploradas por Breillat de maneira marcante em “Une vraie jeune fille”. Ao mesmo tempo em que a narração em off da personagem principal denuncia a consciência das curvas proeminentes (“Meu corpo é bem desenvolvido”, fala claramente Alice), temos uma relutância da jovem em relacionar-se inteiramente com esse corpo, demandando seu próprio tempo de assimilação do que pode fazer com e através dele. É o que vemos nas cenas em que ela troca de roupa para dormir, quando ela informa ao espectador como prefere colocar uma nova pessoa de roupa antes de se despir da próxima, pois não quer se ver completamente nua, ou na cena em que diz que “não aprecia a proximidade entre sua face e sua vagina”.

Momentos como esses permitem a leitura de que a personagem se encontra em maturação, ainda inexperiente para encarar, conhecer e usufruir de seu próprio corpo, por conta da idade e psique um tanto atordoada. Isso vai diretamente de encontro ao olhar superficial dado à obra nos anos 1970, quando foi banida (o filme só conseguiu estrear de fato em 2000) por ser considerada pornográfica: a sensualidade passa à margem de quase todo o filme, e a ampla nudez que ele apresenta pouco pertence ao campo do erótico, ainda que vejamos no filme nudez frontal masculina e feminina, com direito a um close na vulva da protagonista (lembrando que a atriz tinha 20 anos na época das filmagens).

As imagens fortes de “Une vraie jeune fille” são muito mais simbólicas que puramente sexuais, traçando um paralelo claro com obras como “O cão andaluz” em algumas sequências dos delírios de Alice. A menina aventura-se em suas fantasias, na masturbação e em outras atividades que podemos classificar como escatológicas: em uma cena, banha-se no próprio vômito; em outra, escreve o nome num espelho com os dedos encobertos de secreção vaginal; mais a frente, imagina seu candidato a amante tentando introduzir um verme na vagina dela, para depois picar o ser e espalhar os pedaços nos pelos pubianos.

Imagens como essas aproximam o despertar do desejo de Alice com elementos que remetem a morte, ao sujo e, ao mesmo tempo, à continuidade da vida através dos dejetos que alimentam a terra e a renovam. A adolescente corporifica de forma altamente simbólica Eros e Tânatos, a pulsão sexual de vida e de finitude. Não por acaso, vemos ao longo do filme cenas como a da mãe de Alice degolando uma galinha para uma futura refeição, como a de um estranho que se masturba ao lado da menina num brinquedo de parque de diversões ou como a de Alice de pernas abertas para sentir as ondas do mar em sua genitália.

A crueldade, dor e mesmo sujeira envolta nessas cenas reforça a todo momento que o foco de Breillat não necessariamente é o sexo. A alienação de Alice em relação aos adultos comprova isso. Ela observa o falso moralismo da senhora da venda, a sede por dinheiro que motiva o ciúme da mãe, preocupada com as amantes do pai da menina, e os olhares dos trabalhadores da serraria para o corpo dela, mas nada disso realmente lhe importa, já que Alice é uma espécie de Holden Caulfield, o protagonista depressivo e misantropo do clássico da literatura “O apanhador no campo de centeio”. Ela quer sua própria liberdade, o entendimento de si e a concretização de seus desejos num tempo que é só seu, e não a partir do que o outro almeja. Da mesma maneira, os corpos nus de Breillat não são anúncios que gritam “sexo” ao espectador que vai além da instantaneidade da imagem.

Meu corpo em meus próprios termos

Outra pista que a diretora traz em “Une vraie jeune fille” é o desconforto de Alice na interação com outros homens. Especialmente nas cenas em que ela interage com o pai (Bruno Balp), vemos que a maneira como ele a toca e olha é um tanto dúbia, estendendo o incômodo expresso na linguagem corporal da menina ao espectador. Quando o objeto do desejo de Alice, Jim, entra em cena, algo da mesma natureza acontece. Ela quer que ele a olhe e deseje, mas sente repulsa a manter relações sexuais com Jim e dá mais sinais de satisfação quando eles se masturbam juntos que quando ele tenta penetrá-la.

Novamente, surgem em cena as relações de poder inerentes à relação heterossexual, na qual é socialmente incentivado que o homem seja dominante (escolhe quando e onde a relação ocorre) e a mulher é submissa (entrega-se, pronta ou não). Alice, no entanto, subverte isso através de sua própria falta de maturidade e pouca idade, demandando só posteriormente que seu amante lhe consiga anticoncepcionais. “O desgosto me deixa lúcida”, ela diz, e é esse dissabor o mecanismo de proteção através do qual ela pode, em seus próprios termos, descobrir sua sexualidade.

A menina-mulher, ainda que sem levantar bandeiras feministas de forma explícita, exige para si o controle de seu corpo e prazer. Breillat, ela sim feminista, inteligentemente apresenta no filme essa que é a proposta que faz com que a obra permaneça atual, ainda que elementos da montagem ou da trilha sonora tenham claramente ficado datados. Como um prenúncio do chamado Cinéma du corps francês, ao qual se associam os filmes não só de Breillat como os de Gaspar Noé e François Ozon, “Une vraie jeune fille” é uma obra curiosa dentre as filmografias de diretoras mulheres.