Participante de boa parte dos principais festivais brasileiros em 2017 e 2018, Vaca Profana, de René Guerra, trata-se de um delicado filme sobre maternidade a partir do ponto de vista de duas personagens discrepantes: Nádia, uma travesti (Roberta Gretchen) que sonha em ser mãe, e tem esse instinto muito forte em si; e sua vizinha (Maeve Jinkings) que possui uma filha recém-nascida, mas que não se identifica com essa nova responsabilidade, tendo a cabeça voltada para outros objetivos que não incluem a criança. Aparentemente a situação de uma surge como solução para a outra, o que as aproxima, mas traz consequências futuras dolorosas.

Guerra apresenta o cotidiano de Nádia informando nas entrelinhas que a sua identidade de gênero é uma questão para a sociedade, mesmo que ela seja uma pessoa de bom relacionamento com os vizinhos, e demonstre ter o genuíno interesse e aptidão para ser mãe. A maternidade que se quer, que se busca e é dificultada pelo preconceito. No comentário debochado dos adolescentes, no clima tenso de um local violento para mulheres. Nas questões que são invisíveis aos desatentos, mas determinantes para as minorias.

A narrativa não-linear é uma boa ferramenta da montagem de Eva Randolph, não para deixar o filme imprevisível – afinal, seu arco dramático é relativamente previsível – mas para dar subtextos mais densos a cenas que sugerem determinados rumos que, a partir das informações que recebemos, sabemos que estão destinados a não se concretizar, ou se concretizar de outra maneira. O filme, assim, torna-se muito mais do que o que está na tela, ganha desdobramentos que vão além das imagens.

Imagens, aliás, marcantes. Guerra, a partir do ponto de vista de Nádia, cria situações visuais com soluções simples e eficientes do ponto de vista narrativo, estético e simbólico. A boneca desmembrada que se transforma num delicado bebê, e o “parto” na repartição pública são exemplos desses signos criados por Guerra, que ainda presentifica o bloco de apartamentos em que acontece a trama, e seus arredores, como cenário do drama de Nádia, mostrando que mesmo que a protagonista possua um olhar que ressignifica as coisas, ainda assim vive num local de questões duras e reais, principalmente para uma travesti.

Mas todos esses elementos só se tornam potentes dessa maneira devido a atuação de Roberta Gretchen, o verdadeiro centro do filme, que cria uma personagem complexa, com ambições, inseguranças, dignidade, em 16 minutos. Não é tão simples de ver exemplos assim. Nádia almeja uma vida cotidiana comum, ter um filho, trabalhar, ir ao bar no fim da tarde, mas que vê a oportunidade surgir através de uma ideia inesperada. É tão genuíno o instinto materno de Nádia. E é tão reconhecível a sua dor pela incapacidade da sociedade de aceitar o diferente de maneira menos traumática. Como a criança que se diverte no seu colo brincando com seus brincos.

Vaca Profana é um filme de debates complexos e humanos, e que se classifica como um raro exemplar de curta-metragem potente como narrativa e proposta estética. Guerra é um nome pra ser observado de perto.

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