Ah, o verão… Enquanto a maioria das pessoas (normais?), ao ouvir a palavra verão podem pensar em calor, praia, animação e até numa recente propaganda de cerveja, existem algumas criaturas conhecidas como “fãs de cinema” que imediatamente pensam no verão americano ao ouvir o termo. Aquela temporada em que os grandes estúdios e produtoras de Hollywood resolvem lançar seus maiores blockbusters, filmes cheios de efeitos especiais e emoções grandiosas destinadas a divertir adultos e crianças em férias.

Pois parece que, este ano, muitos espectadores de cinema preferiram ir mesmo à praia. Uma olhada na safra deste verão nos permite divisar um cenário até um pouco preocupante para a indústria de Hollywood. Foi uma temporada de medo e desilusão, na qual houve poucos vencedores e muitos projetos caros que, na mente dos estúdios de Hollywood, não deveriam ter falhado, mas falharam.  Vamos dar uma relembrada no que aconteceu nos cinemas americanos e mundiais entre esses últimos meses de Maio a Agosto, e tecer algumas considerações sobre para onde vai a indústria hollywoodiana no futuro.


QUEM SE DEU BEM

Na “arena de gladiadores” que vem se tornando a temporada de verão americano, vimos apenas um vencedor claro em 2016: a Disney. Foi o estúdio do Mickey Mouse quem lançou os dois maiores sucessos de bilheteria da temporada: Capitão América: Guerra Civil, em parceria com o Marvel Studios, e Procurando Dory, em parceria com a Pixar. Ambas as produções cumpriram seus objetivos financeiros e também estão entre os poucos títulos do verão que conseguiram uma aprovação quase unânime do público.

O verão de 2016 também apontou uma tendência: o público parece ter preferido ver histórias com criaturas e bichinhos em computação gráfica a ver pessoas de verdade, em muitos casos. As animações em geral se deram bem: Dory, claro, reinou soberano, mas outros títulos como Angry Birds: O Filme, A Vida Secreta dos Bichos e Mogli, O Menino Lobo – este, com apenas um ser humano em cena – fizeram bonito nas bilheterias, seguindo os passos de Zootopia, também da Disney, que arrecadou 1 bilhão no mundo inteiro em março, antes do verão começar.


QUEM SE DEU MAL

Já a lista de quem se deu mal é mais comprida. O verão de 2016 foi uma temporada de continuações, e muitas delas não despertaram muito interesse do público. Algumas apostas foram bem sucedidas, como Invocação do Mal 2 da Warner Bros. e Jason Bourne da Universal, mas em geral as sequências deste ano ou fracassaram, como Alice Através do Espelho da Disney e O Caçador e a Rainha de Gelo da Universal; ou tiveram arrecadações decepcionantes, como As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras e Star Trek: Sem Fronteiras, ambas da Paramount Pictures, e X-Men: Apocalipse e Independence Day: O Ressurgimento, ambas da 20th Century Fox. A qualidade também deve ter a ver com o desinteresse nessas produções: de todos os títulos mencionados neste parágrafo, apenas Invocação do Mal 2 e Star Trek: Sem Fronteiras conseguiram, em geral, avaliações positivas entre a crítica especializada.

Dentre os insucessos, precisam ser mencionados também alguns casos especiais. A Universal tentou lançar uma nova franquia com Warcraft, mas o filme foi destruído pelas críticas e a bilheteria nos EUA foi insignificante. Ainda assim, os planos de franquia permanecem em aberto graças ao sucesso do filme na China – cada vez mais um mercado importante. Já Steven Spielberg pareceu ter perdido seu toque de criador de blockbusters com O Bom Gigante Amigo. E a Sony Pictures apostou alto com sua cara reinvenção de Caça-Fantasmas, mas apesar de toda a polêmica em torno da produção – causada pela presença de um elenco feminino em substituição aos clássicos personagens – os números da bilheteria decepcionaram. O filme até foi elogiado pela crítica, de maneira geral, mas os planos de continuação provavelmente serão descartados.

E por fim, não podemos esquecer-nos do estúdio Warner Bros. O estúdio contava com os filmes dos super-heróis da DC Comics para reverter a sua má fase – sério, o último mega-sucesso da WB foi Sniper Americano no fim de 2014 – mas até agora essa salvação ainda não se concretizou. No começo do ano Batman vs. Superman: A Origem da Justiça foi destroçado pela crítica, dividiu o público e acabou não rendendo tanto dinheiro quanto o estúdio esperava – em parte por ter sido uma produção muito cara – e a reação controversa continuou com Esquadrão Suicida, um dos últimos lançamentos do verão. O filme ainda está indo bem financeiramente, mas o Universo DC nas telas permanece envolto em desconfiança, muito longe do consolidado Marvel Studios. Outra tentativa do estúdio de iniciar uma franquia, A Lenda de Tarzan, rendeu um filme muito genérico que se perdeu na selva do verão. Enquanto isso, os sucessos de produções mais modestas como Um Espião e Meio, Como Eu Era Antes de Você e do já mencionado Invocação do Mal 2 parecem sinalizar um caminho alternativo para o estúdio, e porque não, para toda a Hollywood.

Hollywood_hills_background_1DEPOIS DO FIM DO VERÃO, O QUE FICA?

Embora tecnicamente a temporada do verão americano ainda não tenha acabado – estão por serem lançados, por exemplo, mais uma animação candidata a sucesso, Meu Amigo, O Dragão, e o remake de Ben-Hur, sobre o qual já pinta uma aura de fracasso – podemos tecer algumas considerações sobre o que foi visto este ano.

Primeiro: é impressionante o gasto de alguns estúdios. Caça-Fantasmas? Custou 144 milhões. Esquadrão Suicida? 175 milhões. Tarzan? 180 milhões. O custo cada vez maior de algumas produções significa mais dinheiro para o marketing, a fim de que o filme tenha chance de recuperar o investimento, e assim se entra numa espiral de gastos da qual é difícil sair. A situação da Warner Bros. e da Sony com relação a essas produções seria mais cômoda se os gastos tivessem se mantido sob controle…

Isso leva a outro ponto. Hoje em dia, com possibilidades quase infinitas de entretenimento, está cada vez mais difícil atrair a atenção do público para um filme. Por isso, estratégias como essa – gastar muito, investir no marketing e colocar tudo no trailer para que as pessoas não tenham dúvidas sobre o que irão ver – expõe o desespero de uma indústria cada vez mais afeita a minimizar riscos e a apostar no seguro. Bem, se há uma lição a se aprender do verão de 2016, é que nada é realmente seguro hoje em dia.

Os pais dos blockbusters, os cineastas Steven Spielberg e George Lucas, previram a alguns anos que o fracasso acumulado de gigantescas produções um dia pode levar à uma implosão da indústria. Esta olhada no panorama de 2016 trouxe de volta à minha mente esse comentário deles. Quando Lucas e Spielberg falaram disso, abordaram o risco de se querer fazer filmes para as massas, ao mesmo tempo em que se ignora nichos de público. O certo é que a indústria hollywoodiana está mudando – cada vez mais vemos produções pequenas tendo espaço no streaming e alcançando boa repercussão, enquanto produções genéricas e enormes incrivelmente penam para encontrar espaço. Talvez o verão 2016 sinalize o começo de uma nova tendência, e o público está dando seu recado nas bilheterias. No fundo, a grande maioria das pessoas quer sim ver filmes de qualidade e os estúdios, na ânsia de querer fazer filmes para todos, acabam muitas vezes fazendo filmes para ninguém.

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