Um dos elementos mais interessantes do cinema francês é como grande parte dos seus filmes trabalham temas pesados de forma espirituosa e que permitem o espectador se envolver com o que vê, seja para sofrer com seus personagens, seja para dar ótimas risadas com eles. Os cineastas franceses neste ponto, são peritos em pontuar este “olhar” em relação a vida, algo que provém muito das aulas dadas por François Truffaut e Eric Rohmer, verdadeiros mestres em retratar a realidade cotidiana dentro das suas peculiaridades.

Estes elementos estão mais do que presentes numa escala de satisfação em A Viagem do Meu Pai, um drama com toques de comédia que aborda uma das temáticas mais cruéis da vida: a perda da memória. Nas mãos de um diretor eficiente como Phillipe Le Guay, este enredo pesado que fala sobre as fragilidades dos laços afetivos, do tempo e das reminiscências da nossa própria identidade em decorrência de uma doença degenerativa, ganha um toque leve para emocionar ou fazer o público rir com a sua história.

Nela, Claude Lherminier (interpretado magistralmente por Jean Rochefort) é um senhor octogenário de presença marcante, uma pessoa dona do seu próprio domínio. Sua simpatia e extroversão é perceptível na sua autoestima forte e no modo como se relaciona com as pessoas. Porém, para seu contragosto, ele apresenta sinais iniciais do Mal de Alzheimer, uma demência senil que o leva a ter esquecimentos sobre situações da sua vida pessoal, perdendo a noção entre a realidade e fantasia. Logo, certas dificuldades surgem no convívio com as pessoas a sua volta, uma delas na figura da filha mais velha, Carole (Sandrine Kiberlain, também roubando a cena) que sente o peso da responsabilidade em cuidar do progenitor cada vez mais adoecido, ao mesmo tempo que têm que lidar com os conflitos profissionais e amorosos.

A Viagem de Meu Pai mostra que a perda da memória por si só, não deixa de ser um processo doloroso ao ser humano, pois retira da sua subjetividade, os seus bens mais preciosos: sua identidade e as lembranças da sua trajetória de vida. Le Guay compreende muito bem um tema delicado como este e o conduz com sensibilidade e elegância. Retira belos momentos de humor a partir de situações prosaicas no comportamento excêntrico e obsessivo de Claude quando por exemplo, ele resolve implicar com as enfermeiras contratadas pela filha ou quando ele vai ao enterro de um antigo desafeto apenas para convencer a família do defunto a mudar o corpo de cemitério em razão de uma briga que os dois tiveram no passado. São momentos como estes, que evidenciam a inteligência do texto em explorar o seu humor negro.

Lógico que este humor não funcionaria, se não fosse seu o grande trunfo: Jean Rochefort. Se a personagem já é especial por excelência na sua construção, o ator a veste com enorme talento e encanto. Permite que o público ria, sofra e sinta ódio de Claude, tudo graças a sua atuação impecável que constrói um protagonista inesquecível que vale cada momento do filme. Ao mesmo tempo que ficamos encantado pelo velhinho de 80 anos, ficamos comovido pela a desorientação mental que vai se apoderando dele durante o filme. Inclusive Claude é o último papel do ator no cinema que durante as entrevistas de lançamento do filme, anunciou sua aposentadoria.

Parte deste humor funciona quando contrabalanceado com os elementos dramáticos propostos pelo longa-metragem. A relação conturbada entre pai e filha é o ponto mais firme e consolidado da narrativa. O alicerce dos conflitos e sentimentos ambivalentes que ambos demonstram entre si durante o filme, pontuam os efeitos que a doença provoca nos laços afetivos, criando desconforto e insegurança nas relações. Isso é evidente na cena que Carole precisa despir o pai para limpá-lo. É nítido o seu constrangimento, que revela a fragilidade emocional de uma filha que se encontra no seu limite pessoal, de lidar com suas próprias angústias frente a doença do pai. Neste aspecto, a atuação de Sandrine se destaca por apresentar um belo contraponto com a de Rochefort: longe da extroversão de Claude, Carole é uma personagem contida, de sentimentos confusos entre escolher o pai que ama ou a sua vida pessoal. A atriz confere uma segurança dramática que permite o público ter compaixão da sua personagem, até porque nos identificamos com suas dúvidas e questionamentos.

Amparado por estas duas grandes atuações, Le Guay utiliza sua direção discreta na busca do equilíbrio entre o humor e o drama. Os usos de recursos técnicos principalmente na montagem desconexa, casam bem com uma história onde o lapso de memória é o mote principal. No início, o público fica perdido e com dificuldades de assimilar certas subtramas de Claude – uma voltada para flashbacks na infância e outra dentro de um avião -, mas este tipo de montagem serve para ilustrar o estado de confusão mental do personagem. Ainda assim, o roteiro assinado por Le Guay e Florian Zeller comete alguns deslizes. A maioria das subtramas jamais ganha um escopo narrativo eficiente. É difícil entender a relevância dos flashbacks infantis de Claude durante a Segunda Guerra para a compreensão da sua dinâmica no presente e também qual é a funcionalidade das cenas do avião (elas existem ou são frutos da imaginação de Claude?) que existe no roteiro apenas como muleta para um humor mais rasteiro, sem qualquer outra finalidade narrativa, ocupando um espaço além do necessário e que poderia ser substituído por mais situações da relação entre pai-filha. Inclusive é uma pena que Carola no ato final do filme, tenha uma participação reduzida exatamente no arco mais dramático dele.

Como um bom filme francês na sua essência, A Viagem do Meu Pai transborda olhar humano e solidário sobre a vida. Um drama que mesmo pesado sobre o envelhecer e a doença, oferece aquele toque humano leve e sofisticado. Não deixa de ser curioso numa produção que trata sobre a perda da memória e das emoções, o paladar é utilizado como ponto chave para vários questionamentos. Nele, Claude só gosta de um suco produzido na Flórida, encontra-se “brigado” com um vinho que leva o seu sobrenome e tem um trauma com o arroz-doce em virtude de uma vivência desagradável durante a Segunda Guerra. Desta forma, Le Guay utiliza uma metáfora interessante que define bem o olhar da sua obra: mesmo quando as nossas memórias e emoções encontram-se fragmentadas pelas dores e conflitos, a vida ainda nós oferece muitos sabores e paladares agradáveis para ajudar na superação de nossos obstáculos emocionais e seguir em frente.