Vingança é um daqueles raros filmes que sentem um prazer malicioso de subverter convenções cinematográficas, reunindo no seu escopo fílmico tanto referências/homenagens quanto desconstruções de gêneros e seus respectivos subgêneros. A produção francesa da estreante Coralie Fargeat é inusitada por resgatar ideais do contexto cinematográfico historicamente sexista e misógino do cinema exploitation – caracterizados por thrillers de vingança controversos e provocativos que proliferam no cinema de terror da década de 70 – ao virtuoso movimento francês da década passada, o New French Extremity, canonizado por momentos transgressores na violência física, psicológica e sexual de seus enredos como também pelo choque de suas imagens.

Fargeat abraça estas convenções para encorpá-las com uma cínica perspectiva feminina de empoderamento, dentro de um contexto feroz, oferecendo uma abordagem diferenciada. O curioso é que a cineasta não fica apenas na esfera macro de gêneros, e como um parasita voraz, devora as camadas micros e as respectivas sub-camadas que fazem parte do ciclo maior.

Um deles é o subgênero polêmico do rape-revenge film, produtos dotados de doses cavalares de violência explícita contra mulher, com cenas de estupro que duram quase uma eternidade, impactando o espectador. Filmes como A Vingança de Jennifer – um dos mais abusivos nesta vertente – Aniversário Macabro e Sedução e Vingança sempre ofereceram um olhar “masculinizado”, onde a vingança feminina foca-se mais no fetichismo e voyeurismo. Vingança neste aspecto, é um manjar dos deuses prazeroso, afinal é dirigido por uma mulher que invade e toma posse de um terreno monopolizado por homens, para estabelecer sua própria identidade, sem desrespeitar o que veio antes no gênero. Ela está mais preocupada em ressignificar ideias e códigos deste subgênero, sempre apostado em um cinema dúbio, por apresentar situações e elementos machistas e feministas ao mesmo tempo.

Isso fica evidente na sua própria introdução que abre o longa: Jen (Matilda Lutz, do tenebroso O Chamado 3) está em uma viagem romântica com Richard (Kevin Janssens), sujeito casado que leva a jovem a uma isolada casa no deserto escaldante para usufruir de sua companhia para uma noite sexual. Porém, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), sócios e parceiros de caça de Richard, chegam antes do previsto. Na manhã seguinte, na ausência do empresário na casa, Stan estupra Jen. O retorno de Richard piora a situação, que tenta eliminar Jen para que ela fique de boca calada. Ela sobrevive ao acidente e se reestabelece para colocar em prática sua vingança contra os três.

Vingança se destaca deste os seus primeiros minutos, pelo seu visual e pela forma que Fargeat administra suas imagens, através da fotografia saturamente rica de Robrecht Heyvaert, que utiliza os filtros de cores vivas e quentes para reproduzir a tensão sexual do longa, que é muito bem demarcado pela câmera que utiliza os corpos como instrumento de sedução junto ao público no primeiro ato, um prazer estético masculinizado na sua superfície, que se aproxima ao soft-pornô. É um toque moderno que se distância da roupagem crua e rústica dos filmes populares dos anos 70.

Porém, é dentro do seu verniz narrativo que o filme encontra sua ambiguidade, seja para o bem ou para o mal. Fergeat está mais preocupada na exposição de temáticas, de jamais deixa-las reféns do apelo moralmente gratuito – ainda que há cenas que realmente soam desta forma – e isso é observado no terror feminista que passa um claro recado, na era dos movimentos Me Too e Time´s Up, que predadores sexuais não serão aceitos, escancarando a arrogância masculina frente a sexualidade. É, de fato, um filme-manifesto sobre o direito feminino de esbanjar sua sensualidade sem que isso dê motivo para o homem fazer o que acha de seu direito.

Isso é também observado nos planos detalhes das ações dos personagens como alimentos sendo mastigados de forma grotesca, funcionando como uma metáfora da brutalidade masculina, enquanto uma maçã mordida representa tanto o desejo sexual quanto o pecado e adultério, e o fato de Gorgeat mostrar a fruta apodrecida logo em seguida, evidencia uma bela tipologia sobre a violência.

Encontrar estas metalinguagens visuais e simbolismos textuais em um rape-revenge film aponta algumas subversões praticadas pelo filme. A própria cena do estupro de Jen se distancia de outros trabalhos do gênero que nestes momentos sentiam um grande prazer em sexualizar a imagem da mulher, enquanto Gorgeat prefere dar foco na vingança da personagem, deixando que o estupro passe longe da repugnância visual esperada e na qual o mal-estar provocado se dá pela tensão gerada pelo estuprador momentos antes. Tanto que é o último ato, aquele regado a sangue, feridas e cortes, que revela Vingança como um filme bem resolvido na sua ação/vingança.

As sequências viscerais no duelo de Jen com seus opositores ganham um ótimo formato na encenação através de planos-sequências que elaboram o suspense para deixar o público apreensivo, assim como o uso do plano e contra-plano na última batalha dela com seu ex-príncipe encantado – digna de um confronto cartunesco visceral entre Papa-Léguas e Coiote -, facilitam o ritmo intenso de brutalidade para gerar remorso no espectador, e que não deve nada a outros filmes pesados do terror francês como Martíres, A Invasora e Alta Tensão que elevaram a violência a uma onda extrema.

É claro que devemos reconhecer as saídas absurdas que o roteiro escolhe e que, ao passar por cima da lógica das situações e personagens, abusa do fator de suspensão da descrença e cria um grande empecilho para que o espectador acredite no seu realismo. O acidente que Jen sofre é um grande exemplo disso, pois parece mais uma cena saída de uma animação de Comichão e Coçadinha dos Simpsons, do que a cena aceitável de um filme de vingança. Há também a questão da visualidade que se torna excessiva em determinados momentos, como quando a heroína toma a droga peyote (um alucinógeno) e o filme embarca numa viagem lisérgica que atrapalha as questões de gênero até então bem trabalhadas pelo seu texto.

É fato é que Vingança é um trabalho importante por dar uma recalibrada ao cinema extremo francês, ao mesmo tempo que o incorpora as ideias do cinema exploitation e do rape-revenge americano setentista à sua fórmula. Coralie Fargeat refina a brutalidade das suas imagens com pretensões artísticas que vão de uma direção e fotografia bem estilizada que não deve nada as vinganças pops dos filmes de Tarantino como ao hype refinado de franceses como Luc Besson e Gaspar Nóe – que adora uma polêmica vide Irreversível, que estupra qualquer resquício de humanidade no ser humano.

De certa maneira, é um tour de force sobre a vingança que é mais relevante do que necessariamente bom. Mesmo assim é um filme que chega aos cinemas para dar uma boa sacudida no público, charmoso na sua mescla interessantíssima de Looney Tunes com Desejo de Matar, Rambo e Macgyver (é difícil você não associar a cena do isqueiro com o celebre personagem do seriado clássico da década de 80). Entre situações de humor negro, absurdos e jogo de gato e rato sangrento, Vingança segue bem a cartilha francesa de ode à violência. Assim como os asiáticos, os franceses mostram que são peritos em misturar terror e violência, e que o ditado popular “a vingança é um prato que se come frio” é regurgitado não apenas uma, mas sim várias vezes. Se possível com tripas e vísceras a mostra para apimentar o produto.

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