Existem profissões essenciais em cada segmento, mas que não tem tanto glamour nem atenção. Quando falamos em produção audiovisual, um dos setores cruciais e pouco abordado é o que cuida da sonorização, e aqui, incluímos a vocalização. Seja ela por meio da dublagem ou da fonologia.

Outra questão muito em voga hoje referente às profissões e o mercado de trabalho é o empoderamento feminino. Apesar de todas as lutas e diretos conquistados pelas mulheres no último século, a presença masculina em determinados ambientes mantém-se superior, principalmente, ao observar a distribuição monetária, também. E o pior é que essa dominação masculina se perpetua pela própria cultura, que acaba restringindo o nicho e, involuntariamente, tornando-o bem menos distribuído para mulheres e sexista por excelência. Em muitos segmentos, há a constatação evidente da rejeição a presença feminina e a construção utópica de um verdadeiro “clube do Bolinha”.

A situação se torna mais agravante ao ampliar o contexto e perceber a cultura machista, que, infelizmente, se emprenhou na sociedade contemporânea. Por mais que se levantem bandeiras feministas e pregue-se a desconstrução, o machismo está arraigado a estrutura molecular ideológica da era pela qual passamos. Dessa forma, parece normal, comum, ordinário, que um homem, especialmente que se veja numa posição de maturidade e superioridade frente à mulher, coloque-se como ditador e conhecedor dos preceitos femininos e se sinta desrespeitado e desafiado quando o cidadão do sexo feminino, que julga ser inferior e frágil, alcance um status tão bom quanto o seu. Ou que chegue a igualar-se.

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O mais interessante disso tudo é que Lake Bell, em sua estréia como roteirista e diretora, teve a sensibilidade de utilizar essas temáticas para construir um filme simples, leve e engraçado sem ser forçado ou piegas.

A Voz de Uma Geração (In a World), embora a tradução possa soar um tanto forçada, não deixa de denotar a representatividade que Carol Solomon (Lake Bell) traça em sua trajetória. Bell calcou seu debut sobre o auto-amadurecimento e nuances que envolvem o universo feminino, ao trazer uma treinadora vocal que ao ser expulsa de casa pelo pai (Fred Melamed), um dos ícones do mercado de trabalho, precisa não apenas encontrar seu lugar como profissional, mas também se equilibrar longe das vistas do pai.

Diferentemente do habitual, ao ser expulsa de casa e ir morar com a irmã (Michaela Watkins) e o cunhado (Rob Corddry) é que as coisas começam a fluir para Carol. Invés de se conformar com a situação em que se encontra, ela começa a incomodar o clube seleto dos Bolinhas, fazendo avanços significativos em sua carreira como narradora/dubladora a ponto de tirar seu pai da aposentadoria e colocá-lo contra si e o pupilo mais influente dele.

Carol acaba por representar toda uma geração de mulheres que quanto mais comprometida com suas atividades e focadas em suas metas tem o poder de desestruturar o machismo dominante e abrir espaço para uma prole de mulheres fortes, determinadas e em uma jornada constante de auto-conhecimento e amadurecimento.

Bell capta uma comédia que foge ao habitual romântico, dando toques realísticos a todo o envolvimento amoroso que há na trama. Ela não objetifica o relacionamento como o cerne de sua narrativa, ele é apenas mais um dos itens que a constrói.  Todas as histórias amorosas são traçadas com uma verossimilhança exemplar, tendo, inclusive, um final real para o que se costumeiramente assiste-se nas comédias românticas.

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Conquistando o prêmio de melhor roteiro no Festival de Sundance em 2013, A Voz de uma Geração torna-se espetacular com o aproveitamento de seus personagens e os ótimos diálogos que fluem. Bell trouxe além de elementos atuais e importantes para a discussão que aflora no momento, envolvimento histórico e contextualização. Isto fica claro a homenagem constante que é feita a Don LanFontaine, conhecido nos Estados Unidos como “o homem dos trailers” e/ou “a voz de Deus”. A frase “In a world” é uma referência direta a ele. Outro ponto para a roteirista e diretora é a presença de Geena Davis, ativista declarada da expansão da participação feminina na sociedade, especialmente no cinema. O diálogo entre as duas deixa evidente o que se espera para as gerações futuras: a participação efetiva e engajamento das mulheres na conquista de seus espaços. Claro que para isso ocorrer, vivenciar a sororidade é essencial.

Estando ligada a empatia de mulheres entre mulheres, percebe-se o quanto a obra se alicerça sobre esse princípio em todas as ocasiões. As mulheres estão em constante posição de escutar umas as outras, sem julgamento pelas suas escolhas. Quando se chateiam e em situações de extremismo, nunca se voltam contra as outras, mas aos homens envolvidos na discussão. Bell evidencia o quanto a sororidade deve e está enraizada ao pensamento feminino.

Divertido, leve e cheio de metáforas e situações aplicáveis a vivência cotidiana das mulheres, especialmente no ambiente trabalhista ainda muito sexista, A Voz de uma Geração é a oportunidade para conhecer o trabalho de estréia de Lake Bell e buscar compreender o quanto a indústria pode ser fechada para mulheres, mas que a representatividade e a luta pela conquista do espaço devem ser constantes e uma aquisição de todas.

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