“Wonderstruck”, novo filme de Todd Haynes, é um filme de mistério, mas provavelmente não o tipo de mistério que seu realizador gostaria: baseado no livro ilustrado de Brian Selznick (que também escreveu o material-base de “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese), o grande mote do longa (e do livro) é acompanhamento de duas histórias paralelas e correlatas.

A que abre o filme começa em Minnesota em 1977, com o menino Ben em busca de seu pai, do qual sua mãe (uma subaproveitada Michelle Williams) evita falar. A outra, se passa em Nova Jersey cinquenta anos antes, nos apresenta Rose, uma menina que busca a sua mãe.

Já sacou o paralelo, não? Pois é, grande parte do apelo do filme de Haynes – e isso é algo que ele comentou na coletiva de imprensa no Festival de Cannes, onde o filme estreou – é justamente a dúvida quanto ao porquê o espectador está assistindo a essas histórias um tanto similares, porém desconexas.

Essa dúvida, no entanto, não sustenta o filme e, quando recebemos a resposta (relaxa, sem spoilers), ela fica parecendo um artefato que serve de razão, e não de apoio, ao filme. Em essência, não há muito de novidade nas histórias dos meninos, e por melhor que tenham sido realizadas, permanece um ar de pieguice que ultrapassa os flertes prévios de Haynes com a cultura popular (em especial, as novelas e os filmes americanos dos anos 1950, que deram a filmes como “Longe do Paraíso” e “Carol” muito do seu charme).

O que não quer dizer que o filme não tenha suas qualidades: nesse vácuo, o que realmente se destaca é a direção de arte. Você pode notar o entusiasmo de Haynes e da equipe técnica ao trazer à vida a Nova York dos anos 1970, toda com cores quentes e extremamente baseada na cultura de rua, e a dos anos 1920, completamente estilizada como um filme mudo para remeter tanto aos filmes da época quanto à surdez de Rose.

Para além da superfície, porém, encontramos pouca coisa: Julianne Moore faz o que pode com um personagem raso, mas a surpresa fica por conta do ator mirim Jaden Michael, que apresenta um dos arcos narrativos mais interessantes do longa, com uma atuação empática que permite uma identificação menos nos momentos menos lisonjeiros de seu personagem.

A edição do brasileiro Affonso Gonçalves, apesar da expertise na hora de alternar as duas histórias, poderia ter contribuído para um tempo de duração mais curto: com duas horas, a fábula infantil desgasta muito de seu impacto inicial e se arrasta até o fim.

Haynes mencionou que vê “Wonderstruck” como uma homenagem aos trabalhos manuais, e você pode notar a natureza palpável de tudo o que está em cena (especialmente em uma montagem toda feita em miniatura que é um dos triunfos visuais do filme), trazendo à mente os melhores momentos de Michel Gondry ou mesmo da nacionalíssima série “Hoje é Dia de Maria”.

Para o que vos escreve, contudo, o longa é uma reflexão sobre a atividade da curadoria, com museus, baús e diários desempenhando um papel importante na narrativa.  “Wonderstruck” é, acima de tudo, uma análise sobre o que escolhemos guardar e preservar na estrada da vida – uma pena que, na seleção para este filme, Haynes escolheu manter apenas o estilo, mas não a substância.

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