Ao final de cinebiografias, é quase obrigatório que a última cena se dissolva num fade out que dá lugar a uma breve explicação sobre o destino do personagem principal. No caso de “Yves Saint-Laurent”, explica-se que ele revolucionou o mundo da moda. Escolha curiosa essa. O diretor Jalil Lespert parece ter sentido a necessidade de frisar tal informação ao público que não necessariamente entende de moda, pois é essa a dúvida que fica ao fim da projeção: afinal de contas, qual a grande relevância da produção do estilista?

Mas vamos começar pelo começo. A trama de “Yves-Saint Laurent” acompanha o personagem-título em seus primeiros anos desenhando roupas para a Maison Dior, uma das casas de alta costura mais tradicionais e respeitadas do mundo. Lá o estilista é considerado um pequeno prodígio, e as cenas que explicitam as ideias curiosas e inovadoras do jovem Saint-Laurent são bem integradas ao desenrolar inicial do filme e não carregam de forma alguma o ar de “curso de corte e costura para espectadores iniciantes”.

Com a morte de Christian Dior, Yves é catapultado a posição de diretor de criação, e é aí que seus conflitos internos se intensificam. Fica claro desde o início do filme que o jovem vive para suas criações e não tem tino para lidar com questões políticas e empresariais. É nesse momento que seus problemas psicológicos são pincelados no filme, mas não bem explicados, e é aí que começam as pontas soltas de “Yves Saint-Laurent”. O personagem elegante vai se distanciando do público, mais que por causa do roteiro que por culpa da atuação de Pierre Niney. Com a narração da cinebiografia sendo feita por Pierre Bergé, o companheiro e empresário de Yves (belamente interpretado em suas nuances por Guillaume Gallienne), essa sensação de distanciamento entre público e personagem principal só aumenta. Só de lembrar que Gallienne interpretou recentemente a si mesmo e à própria mãe na comédia autobiográfica “Eu, Mamãe e os meninos” (2013), o foco na versatilidade do ator faz com que nos concentremos ainda mais em sua interpretação ímpar de Bergé.

Regra geral, restam às cinebiografias duas alternativas: se jogar de cabeça na vida íntima do biografado ou focar em seus feitos profissionais. “Yves Saint Laurent” segue a primeira opção, mas a apatia impressa ao personagem no roteiro faz com que o público não crie uma conexão tão forte com o personagem, que por muitos momentos se mostra passivo perante os fatos que o rodeiam. Com Bergé guiando-o a todo momento para produzir modelitos de forma a atender a demanda do mercado ou para livra-lo das drogas, essa resignação perante tudo se agrava a níveis altíssimos, o que bem poderia ser justificado por sua dedicação ao trabalho.

Aí surge o segundo problema do filme. Se “Yves Saint-Laurent” contasse com mais cenas similares as que o início do filme mostra, com o estilista produzindo e surpreendendo os superiores e as modelos, ficaria claro ao público a intensidade de sua paixão pelo trabalho. Excetuando o momento em que Saint-Laurent se inspira em quadros do pintor Piet Mondrian para uma nova coleção, essas cenas praticamente desaparecem. Resta ao público não entendido de moda ver um homem dependente lutar para não se perder no mundo da alta sociedade e das drogas de uma maneira pouco marcante enquanto obra cinematográfica.

Para a sorte do filme, Guillaume Gallienne dá o contraponto necessário à figura de Saint-Laurent. Se este último é sensível, doce e de ar quase infantil, o outro é prático, másculo e decidido, uma figura dominante, mas de bom coração, com a qual o público tem a chance de sentir mais empatia. Não por acaso, é justamente quando o filme foca na relação de amor e companheirismo dos dois que Saint-Laurent se humaniza mais.

Além da relação de Saint-Laurent e Bergé, a fotografia e a recriação de época bem cuidada ajudam a salvar o filme. As cenas de desfiles são particularmente divertidas, pois mostram a dimensão que a indústria da moda atingiu no decorrer de algumas décadas. Em pequenas salas, para um pequeno público restrito e alguns poucos fotógrafos, as modelos com biótipos mais saudáveis que as atuais exibem as roupas em poses hoje consideradas antiquadas, dando ideia da pequena representatividade que a moda tinha na época. Já as roupas criadas por Saint-Laurent podem não ser exibidas de maneira a explicar a sua originalidade, mas sem dúvida fica clara a beleza das mesmas.

De maneira geral, “Yves Saint-Laurent” é uma faca de dois gumes: avaliado enquanto filme em si, é um retrato com claras lacunas acerca de seu personagem-título, falhando ao mostrar o que exatamente foi tão marcante em sua trajetória; por outro lado, no contexto de Manaus, o filme representa uma lufada de frescor ao dar ao público a possibilidade de assistir a algo que fuja do óbvio na programação das salas de cinema na cidade. Por isso (e por um pouco mais que isso), vale a pena ser conferido.

Nota: 7,0

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