Preciso admitir: a impaciência bateu. Quando tudo começou aqui no Brasil por volta de 12 de março, coloquei na minha cabeça que esse pesadelo duraria, no máximo, um ano e meio, tempo suficiente para o surgimento de vacinas e remédios eficientes para o tratamento da doença. Acreditei na ciência e ela não me decepcionou, entretanto, não contava com um componente decisivo: a estupidez humana. 

Estimulada por imbecis propagadores de mentiras e genocidas, muita gente segue desfilando por aí sem máscaras em constantes aglomerações, espalhando fake news e não se vacinando. Com isso, novas variantes e milhares de mortes se acumulam a cada mês em um pesadelo sem fim com o bônus da crise de oxigênio para quem vive em Manaus, fruto da triste combinação de arrogância, corrupção, falta de planejamento e, acima de tudo, omissão. 

O cansaço de lutar contra o absurdo da distopia e a sensação de uma vida incompleta se torna ainda mais frustrante quando se perde um dos seus maiores alívios do dia a dia, no meu caso, a sala de cinema. “Dois Irmãos” e “O Homem Invisível”, no Cinépolis do Ponta Negra Shopping, foram minhas últimas sessões antes do caos, no sábado, dia 7 de março de 2020. Na semana seguinte, já tinha programado de ver o francês “Os Miseráveis” dentro da programação do projeto Cinema de Arte, porém, não havia mais condições seguras para tanto. Nem cogitei por não sentir segurança suficiente a ir no segundo semestre quando houve a reabertura. 

Hoje, mais de 15 meses depois destas datas e já vacinado com a primeira dose da Astrazeneca, permito-me, finalmente, a sonhar. Não, a pandemia não passou nem ninguém me verá passeando por aí, pelo menos, até setembro (o que são mais três meses?), mas, para quem viu o fim do túnel no dia 14 de janeiro de 2021 ao olhar seis ambulâncias paradas na frente de casa em direção ao Hospital 28 de Agosto, já é possível vislumbrar dias melhores. 

E estes dias serão marcados por muito cinema. Que me perdoem as plataformas de streaming, mas, para mim, ainda não há local para uma imersão melhor em um filme do que a tradicional sala de cinema. Nestes dias, estarei disposto a topar a programação marcada por blockbusters sem reclamar assim como as malas falantes ou os preços caros (quem sabe até com direito a sala VIP e aquelas comidas estranhas?) – só não vale projeção ruim, pois, aí, já é estragar a experiência. 

Já que o negócio é sonhar, viajar o Brasil para conhecer cinemas de rua seria uma boa ideia. De Norte a Sul, temos salas históricas e charmosas, longe dos ambientes estéreis dos shoppings centers. Sair da loucura do dia a dia, da movimentação acelerada das grandes cidades para entrar em uma outra realidade traz um charme para estes espaços cada vez mais raros no país. 

Deixo um guia para quem um dia quiser se aventurar por cinemas de rua Brasil afora após a pandemia: 

CINE CASARÃO – MANAUS 

Casarão de Ideias fica a uma quadra do Teatro Amazonas, local da primeira sessão de cinema em Manaus.

 

Claro que não poderia começar diferente: o Casarão de Ideias é o único cinema de rua de Manaus. Localizado na Rua Barroso, o espaço resgata a história da capital amazonense com a Sétima Arte; a região sediou a primeira exibição de cinematógrafo ocorrida no Teatro Amazonas (a alguns metros do Casarão) e teve diversas salas de cinema ao longo de décadas antes de tudo migrar para os shoppings centers. 

A programação do Casarão é um alento para os cinéfilos de Manaus com destaque para filmes brasileiros, europeus e latinos. São apenas 35 lugares e as paredes contam com fotografias dos principais cinemas de rua que já existiram na cidade. O preço é acessível com valores de R$ 6 (meia) e R$ 12 (inteira). 

Contando ainda com um café, galeria de artes e um mini-teatro, o Casarão de Ideias é um lembrete inspirador do que poderia ser o hoje caótico e desorganizado Centro de Manaus. 

SUPER K – BOA VISTA 

Super K está em funcionamento há 41 anos em Boa Vista e resistiu à chegada dos multiplexs nos shoppings.

 

Não faltaram vezes em que passou pela minha cabeça pegar a BR-174 e sair de Manaus rumo a Boa Vista para conhecer o Super K. Mais do que a programação de filmes marcada por blockbuster, sala 3D e preços semelhantes aos cinemas de shopping, o que mais me chama a atenção nele é a arquitetura e o colorido. 

Com 41 anos de existência, o cinema de rua da capital roraimense aparenta ser uma atração saída de um filme produzido por Cecil B. DeMille nos anos 1950: muitas cores, imagens de filmes para todos os lados, grandioso e a sensação de quem você está prestes a entrar em uma aventura. Por dentro, as paredes remetendo a cavernas nos fazem sentir um Indiana Jones. Uma mistura de parque de diversões com circo deliciosa.   

Passada a pandemia, eis uma dívida comigo mesmo e com meu amigo César Nogueira a ser paga e encarar uma viagem de oito horas pela Amazônia rumo ao Super K.  

Cine Olympia – Belém 

Em Belém, o Cine Olympia traz o feito de ser o mais antigo cinema de rua do Brasil. Foto: Cristino Martins

 

Quantos cinemas de rua fecharam ao longo das últimas décadas Brasil afora? Quanto deles não vieram abaixo ou viraram igrejas evangélicas? Foi um fenômeno visto em todo o país de forma uniforme seja em megalópoles como São Paulo ou nos mais afastados municípios do interior. 

Só por isso a sobrevivência do Cine Olympia o torna parada obrigatória no tour dos cinemas de rua brasileiros. São 108 anos resistindo na Avenida Presidente Vargas, em Belém. O espaço foi criado durante a era da borracha pelos empresários Carlos Teixeira e Antônio Martins, donos do Grande Hotel e do Palace Theatre. Ficou próximo de fechar as portas em 2006 quando o Grupo Severiano Ribeiro desistiu do local. 

Graças à movimentação da cena cultural e da sociedade paraense, o Cine Olympia acabou sendo salvo pela Prefeitura de Belém. A “idade” não impediu que o local se adaptasse aos novos tempos e, em janeiro de 2021, promoveu uma sessão virtual para celebrar os últimos 10 anos da produção de cinema do Pará. 

Cinema São Luiz – Recife 

Arquitetura no estilo Art Decó torna o Cine São Luiz um dos mais bonitos do Brasil.

 

Se o cinema pernambucano virou referência da produção brasileira nos últimos 20 anos, seu grande palco foi o Cinema São Luiz. O local inaugurado em 6 de setembro de 1952 com “O Falcão dos Mares” permanece como o último cinema de rua de Recife e foi tombado como monumento histórico em 2008. 

Cinéfilo que se preze não tem como não se emocionar ao se deparar com os enormes letreiros brancos e suas marcantes letras vermelhas. A arquitetura no estilo Art Decó do cinema com seus vitrais, mármores e suas longas fileiras de cadeiras vermelhas são imponentes por si só. 

Além da programação regular com espaço para o cinema brasileiro, o São Luiz abriga o Cine PE, um dos mais importantes festivais de cinema do Nordeste. Visita tão obrigatória quanto tomar banho de mar na Praia de Boa Viagem. 

Cinema do Dragão – Fortaleza 

Cinema do Dragão do Mar sedia exibições do Cine Ceará.

 

Fortaleza sempre foi o destino certo de muitos amazonenses nas férias de janeiro. Minha família esteve nesta caravana até o início dos anos 2000; depois cansamos. Apesar das maravilhosas praias e do Beach Park, o passeio mais legal de todos (e que guardo até hoje na memória) foi no Centro Cultural Dragão do Mar. A beleza arquitetônica do local e, especialmente, o Planetário Rubens de Azevedo eram encantadores para um curumim de 10 a 12 anos de idade. 

Naquela época, entretanto, não havia o cinema; o espaço foi reinaugurado com uma programação voltada para filmes do circuito de arte em 2006. São duas salas com projetores preparados para exibições em 2K e 4K, além do saudoso 35mm.  

Igual o Cine São Luiz, o Cinema do Dragão do Mar abriga exibições do cada vez mais importante Cine Ceará. 

Cine Drive-In – Brasília 

Cine Drive-in de Brasília já foi até tema de filme em 2015 estrelado por Othon Bastos.

 

Brasília não vive um bom momento graças ao ocupante atual do Palácio do Planalto, porém, a cidade projetada por Oscar Niemayer traz uma experiência em moda durante a pandemia que poderia ganhar mais frequentadores após ela. Claro que estou falando do principal cinema drive-in do país. 

O Cine Drive-In de Brasília conta com “apenas” 15 mil metros quadrados e pode abrigar até 400 carros. O acesso ao cinema é fácil, pois, está próximo à região central e das principais vias da capital federal. Está com 38 anos de existência e promete durar muito mais com sua programação dedicada aos filmes mais comerciais. 

Quem deseja conhecer um pouco mais sobre o Cine Drive-In basta conferir o excelente filme de 2015 dirigido por Iberê Carvalho e protagonizado por Othon Bastos intitulado “O Último Cine Drive-In”. 

Cine Humberto Mauro – Belo Horizonte 

Saudades de uma aglomeração desta, né meu filho?

 

Só pela homenagem a um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro, o Cine Humberto Mauro já mereceria estar na lista.

Localizado dentro do Espaço da Artes, o espaço em Belo Horizonte, diferente dos demais citados nesta lista, está focado no cineclubismo e nos debates. 

Com 130 lugares, o Cine Humberto Mauro promove o Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FESTCURTASBH) e o Prêmio Estímulo ao Curta-metragem de Baixo Orçamento.

Apresenta também programas permanentes de formação como, por exemplo, História Permanente do Cinema, Cineclube Francófono, Cinema e Psicanálise, entre outros. 

Cine Odeon – Rio de Janeiro 

Espaço localizado na Cinelândia tem capacidade para 550 pessoas e um acabamento arquitetônico lindíssimo. Foto: Rogerio Resnde/R2Foto

 

Com o fechamento do tradicional Cine Roxy, em Copacabana, ficou nas mãos do Cine Odeon reinar sozinho como o grande cinema de rua do Rio de Janeiro. Com seu marcante letreiro luminoso, o local reflete a nostalgia de um glamour que parece ter ficado no passado de uma Cidade Maravilhosa cada vez mais maltratada. 

O Cine Odeon abriga eventos do porte do Festival Anima Mundi, Festival Varilux de Cinema Francês e o Festival do Rio, além das premières de importantes filmes brasileiros. Com 95 anos de existência, o espaço localizado na Cinelândia tem capacidade para 550 pessoas e um acabamento arquitetônico lindíssimo.  

A imponência do Cine Odeon acaba também por ser uma lembrança do melhor que o Rio de Janeiro precisa resgatar urgentemente: a força da cultura através da criatividade e alegria para o congraçamento de um povo diverso. Que um dia este Rio e, consequentemente, o Brasil voltem do buraco onde está hoje. 

Reserva Cultural – São Paulo 

Reserva Cultural já sediou grandes pré-estreias como, em 2013, com “Azul é a Cor Mais Quente”.

 

A Avenida Paulista é o sonho de qualquer cinéfilo: a cada quarteirão, cinemas de todos os tipos com filmes para os públicos mais diversos.  

Gosta dos blockbusters? Tem os Playarte dos shoppings Center 3 e Pátio Paulista, além do Cinemark do Shopping Cidade São Paulo. O Conjunto Nacional tinha o Cine Cultura que deve voltar, em breve, como Cine Marquise. Próximo dali, na Rua Augusta, o Espaço Itaú e o Cine Sesc são locais com uma diversidade de produções impressionante. Isso para não falar do Belas Artes na esquina com a Consolação. 

O meu favorito, entretanto, é a Reserva Cultural. Pode ser o mais caro, não nego, porém, não apenas a programação consegue ser impecável com grandes filmes fora do circuitão comercial como nota-se um cuidado para manter o ambiente mais agradável possível.  

Do café à projeção perfeita passando pela lojinha até o posicionamento em uma parte inferior ao tráfego de carros e pedestres na Paulista, a sensação é que estamos abrigados em um espaço que respira cultura. Não sei vocês, mas, minha vontade era ficar horas e horas ali.  

Ok, gatilho bateu, hora de falar do próximo cinema. 

Cine Passeio – Curitiba 

A Sessão Matinê, a Sessão da Meia-Noite e a Sessão de Cinema a Céu Aberto são algumas das atrações do cinema de rua curitibano.

 

Caçula da turma, o Cine Passeio foi inaugurado em 2019 e fica localizado na região central de Curitiba. O empreendimento conta com duas salas e também funciona como centro cultural, espaço para eventos e coworking, além de contar com um café. Tem a proposta de ser um espaço de formação audiovisual e de inovação na área da economia criativa. 

A programação do Cine Passeio conta com curadoria do crítico de cinema Marden Machado e do cineasta Marcos Jorge, que têm como proposta garantir ao público uma seleção diversificada e de qualidade, com filmes nacionais e internacionais, comerciais, artísticos, mostras e festivais.  

A seleção de filmes é definida semanalmente, podendo contar com sessões especiais como a Sessão Matinê, a Sessão da Meia-Noite e a Sessão de Cinema a Céu Aberto”, informa o site do Cine Passeio. 

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