Zeudi Souza é um dos nomes mais experientes em atividade no cinema amazonense. Proveniente da geração dos anos 2000 das oficinas de Zê Leão (antigo Júnior Rodrigues) e do Amazonas Film Festival, o diretor/roteirista traz na filmografia premiados curtas-metragens como “Perdido”, “No Rio das Borboletas” e “O Buraco”. Após uma passagem pela Europa, ele finalizou o ambicioso drama de época “A Bicicleta Amarela”, enquanto divide o tempo como professor do novo curso de audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

Gravado na primeira semana de junho na região do Lago Acajatuba, no quilômetro 68 da rodovia Manoel Urbano (Manaus-Manacapuru), “A Bicicleta Amarela” se passa durante o período da Segunda Guerra Mundial acompanhando o processo de vinda de mais de 60 mil nordestinos para a Amazônia durante o governo Getúlio Vargas, a partir dos Acordos de Washington.  

“Havia a promessa de que estas pessoas teriam muito sucesso por aqui, uma terra de grande riqueza para todos, o que não se concretizou para a maioria, especialmente, após o fim da guerra. Esta migração moldou a Amazônia atual com a miscigenação entre caboclos, indígenas, negros e nordestinos”, disse Zeudi.

DESFECHO DE TRILOGIA 

Zeudi Souza (no centro) ao lado do elenco de “A Bicicleta Amarela”. Foto: Evandro Fernandes

Dentro deste contexto, “A Bicicleta Amarela” mostra a história de um destes homens conhecidos como ‘Soldados da Borracha’. Prestes a morrer, o protagonista interpretado por Francisco Mendes teme que os filhos (Wellington Guedes e Vinícius Freire) tenham a mesma vida sofrida de seringueiro e decide deixar os dois garotos com a mãe. Esta viagem será feita toda de bicicleta.

“A Bicicleta Amarela” é um projeto antigo de Zeudi e faz parte do que o diretor considera ser uma trilogia. “O roteiro é de 2009 e, ao longo deste tempo, busquei financiá-lo de diversas formas, mas, sem sucesso. Fui, então, fazendo outros filmes e, somente agora, consegui viabilizá-lo com a Lei Paulo Gustavo. A minha vontade era fazer três filmes – um protagonizado por mulheres (“No Rio das Borboletas”), outro por uma família (“O Buraco”) e um somente com personagens homens”, disse o diretor. 

Curta-metragem empregou cerca de 40 profissionais. Foto: Evandro Fernandes

Nesta abordagem sobre a masculinidade, o diretor/roteirista afirma que buscou caminhos que não fossem da violência, mas, sim de uma relação hierárquica entre pai e filho baseada no humanismo. “Existe muito respeito entre eles, ainda, claro que pequenos ranços como culpa, medo e raiva também estejam ali”, declarou. 

O time técnico conta com os premiados Francisco Ricardo na Direção de Arte e Heverson Batista no som com assistência de Naila Fernandes. Helena Almeida está no figurino, montagem é do Wesley Santos, direção de fotografia com Robert Coelho e assistência de Rafael Rodrigues e Evandro Fernandes. Mais de 40 pessoas foram empregadas direta e indiretamente na produção de “A Bicicleta Amarela”. 

DA ESPANHA À UEA 

Zeudi Souza voltou a dirigir no Amazonas após passagem pela Espanha. Foto: Evandro Fernandes

Este é o primeiro filme de Zeudi Souza no Amazonas após uma temporada na Europa, onde morou na Espanha e pode estar em festivais como Cannes e San Sebastian. ” Quando você sai de um local onde conhece as ferramentas, a forma de se fazer e pensar cinema para a ir outro totalmente diferente, isso, com certeza, impacta de alguma forma. Minha sensibilidade e olhar para o cinema mudou. Cinema é a arte de coletivo e não algo individual. Isso exige um certo rigor, algo que ainda sinto faltar um pouco em Manaus”, declarou. 

Neste retorno a Manaus, aliás, “A Bicicleta Amarela” não foi a única atividade de Zeudi no audiovisual: ele trabalha como professor do recém-criado curso do setor na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) na disciplina sobre história do cinema.  

Gravações aconteceram na região do Lago Acajatuba na rodovia Manoel Urbano. Foto: Evandro Fernandes

“Para se fazer cinema, é preciso estudo e conhecimento. Vivemos uma fase do cinema amazonense em que estamos preparando o próximo passo do nosso audiovisual. Vejo a possibilidade de uma geração surgindo com uma mentalidade de maior compromisso com o cinema e não fazendo por fazer. É uma galera antenada com bastante sensibilidade e inteligência, capaz colocar o nosso cinema em outro patamar”, completou.