Ao assistir o trailer de A Culpa é das Estrelas em praticamente todas as minhas idas recentes ao cinema, a ponto de já ficar de saco cheio de tanto ver a cara da Shailene Woodley na tela, minha primeira impressão do filme era de que provavelmente seria mais uma daquelas histórias melosas com pessoas doentes à beira da morte, em que o público chora copiosamente a cada frame que mostra o sofrimento do casal. Portanto, quando enfim conferi o resultado nesse fim de semana, foi uma grata surpresa perceber que ele é bem mais do que isso.

Claro que lágrimas rolaram e ainda vão rolar pelo rosto de muitos espectadores, mas A Culpa é das Estrelas não é um filme que atira para todos os lados a fim de arrancá-las de qualquer jeito. Tem seus momentos, sim, mas consegue demonstrar uma sensibilidade e uma inesperada leveza no decorrer da sua história. Partindo do best-seller de John Green como material original, o longa conta a história de Hazel Grace Lancaster, uma adolescente com câncer terminal que, em um dos encontros do grupo de apoio que frequenta a contragosto, conhece Augustus Waters, que está há um ano em remissão da doença. Com o tempo, os dois se apaixonam e, juntos, descobrem o prazer pela vida.

É justamente ao conduzir essa história de amor com tamanha naturalidade que o filme se engrandece. Afinal, em uma obra como essa, é essencial que o público se importe com os personagens. Por isso, a relação de Hazel e Augustus é construída aos poucos, e conforme os dois se conhecem, também mergulhamos mais um pouco em suas personalidades, seus medos e sonhos – ainda que em alguns momentos Augustus seja quase uma versão masculina do estereótipo da manic pixie dream girl. Logo, uma vez que a empatia está estabelecida, quando as coisas se complicam tudo se torna ainda mais doloroso.

Nesse sentido, as atuações são fundamentais para o sucesso do filme. Shailene Woodley se destaca e continua mostrando seu potencial como atriz, como já havia provado em Os Descendentes e sendo uma das poucas coisas boas em Divergente. Ansel Elgort, como Augustus, demonstra um enorme carisma, seduz o público e dá vitalidade e charme ao personagem, o adolescente que se sente imortal e quer deixar seu nome na história. O elenco secundário também realiza um bom trabalho, com uma participação do sempre bem-vindo Willem Dafoe, cujo personagem dá um toque de cinismo e crueldade à história, em contraponto ao espírito apaixonado do casal, além de nomes como Laura Dern como a mãe de Hazel. A relação de Hazel com os pais, aliás, é uma das melhores coisas do filme, mostrando bem as duas perspectivas em jogo: o casal que sabe que eventualmente vai perder a filha, e a garota preocupada com o destino da família quando ela se for. É desse contexto que surge uma das cenas mais tocantes do filme, envolvendo uma discussão entre a filha e a mãe.

Colocar esses elementos em cena e deixar de explorar obsessivamente a doença e seus efeitos físicos é uma das boas escolhas tomadas pelo roteiro adaptado de Scott Neustadter e Michael H. Weber, que prefere investir no crescimento e no relacionamento entre os personagens, o que torna a experiência mais sensível. O uso de humor também contribui para o resultado. É até impressionante como o filme possui muitas cenas engraçadas que não surgem deslocadas, graças ao sarcasmo de Hazel ou de situações protagonizadas pelo amigo de Augustus, um bom alívio cômico.

A câmera, por sua vez, permanece sempre por perto, tentando adotar uma estética um pouco naturalista que reforce o desenvolvimento dos personagens. Trata-se de um trabalho de direção convencional e sem destaques, mas que provavelmente deixará o americano Josh Boone a salvo da ira de muitos fãs.

Mesmo com seus momentos mais cafonas, como os aplausos que seguem o primeiro beijo de Augustus e Hazel, A Culpa é das Estrelas é um trabalho emocionante. Bem produzido e com boas atuações, não é um produto simplesmente apelativo como algumas das trezentas adaptações de Nicholas Sparks. Na verdade, dentro daquilo que se propõe, é um bom filme, com uma história encantadora que faz o público rir, se emocionar e, principalmente, chorar. E fico grato por ter me equivocado em todas minhas pré-impressões acerca do filme: com ou sem lágrimas, o romance de Augustus e Hazel é uma ótima e sincera experiência.