AVISO: Este texto contém GRANDES SPOILERS do filme “Femme Fatale”. Recomenda-se ler apenas após ver o filme.

Muita gente não curte Femme Fatale (2002), de Brian De Palma, por causa do plot twist perto do fim.

Era tudo um sonho.

Bem… Se você é um desses, caro leitor, eu consigo compreender o seu lado. Mas como esta é a coluna Advogado de Defesa do Cine Set, permita-me oferecer a minha argumentação: reclamar de que quase tudo que estávamos vendo no filme era um sonho e não aconteceu pode deixar você cego para o propósito artístico do cinema de De Palma e o que exatamente ele estava tentando fazer com o filme.

PRIMEIRO… É UM FILME SOBRE O CINEMA

De Palma deixa claro logo na primeira cena de Femme Fatale, com a protagonista Laure assistindo ao clássico Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder, que este é um filme cinéfilo. Um filme sobre outros filmes e além: aborda também sobre como os filmes têm impacto nas nossas vidas. Como muitas vezes podemos até deixá-los reger nossas vidas.

Laure, interpretada por Rebecca Romijn, é a femme fatale do título. Junto com um grupo de criminosos, ela se envolve num espetaculoso roubo de joias no Festival de Cannes – em cenas gravadas durante a edição real do festival em 2001. A sequência do roubo, emocionante, lembra as artimanhas dos personagens de Missão Impossível (1996), com quem De Palma se divertiu alguns anos antes. Não basta fazer referências a outros filmes se você não referencia a si próprio também…

Quase nada nesta sequência faz muito sentido lógico, mas não importa: estamos claramente no território da cinema-lândia aqui e sem pedir desculpas. Lá, realismo pode esperar na esquina enquanto imagem, música e o clima de sedução entre Laure e a modelo usando um traje de serpente cravejado de diamantes tomam a precedência. Passar esses minutos na cinema-lândia de De Palma é algo realmente sensual e especial.

Não tarda e Laure trai seus companheiros, fugindo com os tais diamantes. Neste primeiro ato do filme, De Palma planta as pistas para personagens e situações que veremos a seguir. E tudo fundamentado em elementos cinematográficos. A própria protagonista é um tipo, não é uma pessoa de verdade. A Laure é uma personagem de cinema, tão sacana quanto linda, e Rebecca a interpreta como uma replicante de Blade Runner (1982) – ela não é real, e nem é para ser. A “femme fatale” é um arquétipo, sempre foi, e nem De Palma nem Rebecca tentam injetar humanidade ou nuance na personagem. A Phyllis Dietrichson em Pacto de Sangue não tinha nuance, e o espectador a ama por isso. Quando Laure começa a sacanear o fotógrafo vivido por Antonio Banderas, temos pena do sujeito porque sabemos que ele será comido vivo, mesmo com ele tentando ser esperto a cada passo ao lidar com ela. 

SEGUNDO… O SONHO É COM O CINEMA

Quando De Palma – que é também o roteirista – vem com a revelação de que a partir de certo ponto na narrativa estávamos vendo um sonho, pode-se perceber que esse sonho era composto de elementos de cinema. Traições, bandidos que saem da prisão, arquétipos, coincidências e a cena da praça, outro momento ambientado na cinema-lândia. A Laure na banheira sonhou com um filme, um sonho provavelmente inspirado por Pacto de Sangue. Você nunca sonhou que estava em um filme?

A noção de segunda chance que a história apresenta nem é assim tão inédita ao cinema de De Palma – foi a base, por exemplo, do seu longa Trágica Obsessão (1975), cujo roteiro original inclusive era intitulado “Deja Vu”. Segunda chance, afinal, também estava em Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, o ídolo-maior do diretor. O que é inédito em Femme Fatale, no entanto, é a noção introduzida por De Palma de que só o cinema talvez não seja o bastante. Graças ao sonho, Laure recebe a chance de mudar a sua vida e ela a aproveita. A protagonista deixa de ser um arquétipo, se transforma e vira algo próximo de uma pessoa mais real.

REALIDADE VS. SONHO? O SONHO VENCE

Mas De Palma, claro, é uma criatura do cinema, então ele retorna à cinema-lândia para construir uma cena climática gloriosa, um reverso da cena anterior na mesma praça, agora temperada por novos ingredientes e percepções. Não é exagero comparar Femme Fatale com outras obras sobre novas chances e como as opções que a vida nos oferece poderiam levar a outras histórias. Embora vista a aparência de um thriller, Femme Fatale é um filme mais irmão, por exemplo, de um Sorte Cega (1987) de Krzysztof Kieślowski, ou um Corra Lola, Corra (1998) de Tom Tykwer.

E nessa conclusão, o impacto emocional importa mais do que pequenos detalhes como lógica ou verossimilhança. Talvez não devêssemos ser tão rígidos com a qualidade onírica de Femme Fatale: ela está lá de propósito, acima de tudo para nos fazer sentir. Quando pensamos em filmes de que gostamos, o que fica é o sentimento, quase nunca os detalhes da trama ou se tudo fazia sentido do ponto de vista lógico. Para Brian De Palma, a lógica sempre foi muito superestimada mesmo. Em minha opinião, Femme Fatale foi seu último grande trabalho – depois só vieram porcarias como Dália Negra (2006) ou Domino (2019), ou exercícios com momentos interessantes, mas que pareceram apenas “greatest hits” dele, um diretor se repetindo depois de ter perdido seu toque, como Guerra Sem Cortes (2007) ou Passion (2012). Bem que esses filmes poderiam ter tido um plot twist de sonho…

A maioria dos sonhos somem alguns minutos depois que se acorda. O de Femme Fatale fica na memória, quer você goste do filme ou não. Eu, particularmente, gosto muito.

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