Os créditos anunciam um filme preto e branco. Um pé pequenino delicado e feminino sinuosamente empinado. Uma mão masculina, grande e máscula, pinta suas unhas, certamente, da cor vermelha. Um início aparentemente simples, porém, com uma carga de erotismo como poucos. Essa sutileza e insinuações eróticas permeiam o problemático enredo de “Lolita”, filme dirigido por Stanley Kubrick baseado na obra do russo Vladimir Nabokov.

A primeira coisa que temos que compreender ao assistir um filme como “Lolita” é que isso não é uma história de amor. Nem um tórrido romance. Nem nada parecido. É uma pedofilia assistida e romantizada. Até mesmo na época em que o livro e o filme foram lançados, anos 1950 e 1960, respectivamente, ele sofreu represálias de uma ala conservadora.

E não, não somos conservadores, embora haja uma falsa simetria e interpretação do significado desta palavra em tempos atuais. Todavia, quando envolve a erotização de uma criança e sua sexualização aflorada, o alerta existe e é genuíno.

OS DISFARCES DA MISÉRIA HUMANA

Stanley Kubrick é um dos maiores gênios do cinema estadunidense e mundial. O olhar por detrás de clássicos como “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), “Laranja Mecânica” (1971) e “O Iluminado” (1980), uma mente borbulhante de ideias que perpassam o tempo e promove uma reflexão intensa em suas obras profundas e com boas pinceladas de um cinismo nato. Sabendo dos riscos que tinha em mãos, Kubrick imprimiu a sua marca.

“Lolita” tem certa dose de filme noir em um suspense iminente dessa obsessão do homem pela menina. Aqui, diferente do livro, ela tem 14 anos, não 12. O artifício de cenas mais leves, impressas principalmente pelos personagens de Shelley Winters e Peter Sellers é uma maneira de dar certa leveza e, por que não, baixar um pouco a guarda do espectador, com todas as amarras e resistências possíveis para com sua narrativa.

Apesar da problemática que paira sobre o enredo, Kubrick vai além. Não é somente a pedofilia, posse, domínio e o poder do patriarcado. É sobre a miséria humana disfarçada em suas diversas faces que, aparentemente comuns e simpáticos, podem ter um lado mais maléfico. Afinal, nem todo mundo é bom o tempo todo; temos os nossos demônios.

OS JOGOS ABUSIVOS DE HOMENS PREDATÓRIOS

Humbert Humbert (James Mason) é um elegante e ilustrado professor universitário. Discreto, casa-se com Charlotte Haze (Shelley Winters) para ficar mais próximo de seu fascínio. Ao longo da película, ele mostra um outro lado abusivo, sufocante, beirando à loucura. Charlotte, à primeira vista, é uma viúva alegre, estabanada e intensa.

Porém, ciumenta, invejosa e invasiva. Clare Quilty (Peter Sellers) é tão falante e sedutor, como manipulador e traiçoeiro. E Lolita (Sue Lyon) tem aquela energia juvenil: questionadora e debochada. Porém, reconhece em si os seus domínios e sabe usá-los com uma sagacidade ímpar.

O fascínio que esta Lolita causa é muito mais por sua necessidade em ser o centro das atenções, pois há uma certa competição entre mãe e filha de beleza e juventude muito implicitamente, do que seus atributos físicos que ainda se manifestam em seu corpo.

Lolita, portanto, é uma menina ousada e abusada pela negligência materna e pelos homens mais velhos e predadores que usam de sua condição para satisfazer suas fantasias e desejos. Em certo momento, ela busca por autonomia, mas o cerco dessa figura masculina é tão forte que ela não consegue se desvincular de um homem que lhe cerce e suprima toda sua beleza e juventude.

“Lolita” está longe de ser um romance. É um filme sufocante acerca dos homens predatórios que sugam a energia de meninas e que são (ou pelo menos eram, vamos acreditar!) legalmente aceitos por uma sociedade tão hipócrita quanto cúmplice desses crimes de uso e abuso de poder físico, sexual e psicológico.

Já o filme de Kubrick é esteticamente impecável.